EDITORIAL

A Alpharrabio Edições, neste número 4 de Abecês, demonstra, mais do que nunca, o seu real empenho em divulgar a literatura local, independentemente dessa literatura ter sido publicada ou não com sua chancela. Tanto é que reservamos grande parte do espaço desta edição para comentar a literatura dedicada à infância e juventude, sem que em nosso catálogo conste um só desses títulos. Como afirmamos já no primeiro número, este jornal não nasceu com vocação meramente mercadológica nem corporativista, mas seu propósito principal é o de divulgar e fomentar a literatura do ABC. Incluindo os novos lançamentos, o nosso catálogo já soma cerca de 60 títulos publicados, o que, convenhamos, não é um número nada desprezível, para uma região que até há bem pouco tempo, mantinha-se completamente distanciada, eu diria divorciada, de uma expressão literária minimamente levada a sério. A esses títulos, somam-se as resenhas críticas publicadas nos quatro números do Abecês que, no seu conjunto, reúnem um número bastante significativo de informações críticas e bibliográficas sobre a literatura da região do Grande ABC, como subsídio a estudos de possíveis interessados.

Nesse sentido, o projeto A Literatura Mora ao Lado vai bem, obrigado. O ciclo Cara a Tapa (todo último sábado de cada mês, na sede da Alpharrabio Livraria Espaço-Cultura) vem reunindo um bom e inesperado número de pessoas, jovens na sua maioria, interessadas em discutir literatura, tendo sempre como ponto de partida a produção local e a discussão sobre a mesma. O ciclo Conversa de Livraria, também reali-zado mensalmente nas dependências da mesma livraria, vem trazendo escritores para falar do seu processo de criação e autografar seus livros. Escritores em Movimento, nas suas reuniões mensais, inaugurou em junho uma rodada de depoimentos (o autor por ele mesmo) seguido de leituras críticas elaboradas por escritores pré-inscritos. Mas o projeto A Literatura Mora ao Lado não se restringe ao espaço físico da livraria. Foi à Casa da Palavra (vide nota a respeito neste número), à TV, através da UNI-ABC e do Canal 45, programa ABC Brasil, voltou à UNI-A em palestras com a terceira idade e foi à rede pública de ensino. A receptividade dos leitores também é grande, e era esse o nosso objetivo, tanto que estamos aumentando o espaço dedicado às suas manifestações.

É assim que a nave vai, à busca de portos onde descarregar nossa mercadoria, sem mais-valia, feita apenas de palavra e utopia.

Dalila Teles Veras

 
 


SUMÁRIO:

Eu, Leitor, Confesso - por Nora Augusta Corrêa

A Cidade Escrita: A Literatura Mora ao Lado

A Literatura aos Olhos do Leitor - por Mára Pezzolo

Algumas Histórias da Terra, de Sian - por Lelê Samiranda

Uma Conversa sobre "A Redoma Invisível"e "A Grande Assembléia" - por Léa Maria Catunda

Literatura para Crianças e Adolescentes: Alguns Autores do ABC - por Marília Magalhães Pedrosa

A PALAVRA INÉDITA: Escadas - por Jean de Oliveira Ferreira

 
 
   


EU, LEITOR, CONFESSO:

Confesso que sou absolutamente desorganizada em minhas leituras. Não sei se sigo o método da loucura ou a loucura do método. Fui leitora até de bula de remédio, mas parei por medo dos efeitos colaterais.

Tenho tanto prazer ao ler os magistrais contos aterrorizantes de Edgar Allan Poe ou um delicioso romance policial noir de Raymond Chandler, quanto ao mergulhar nas sutilezas/trevas linguísticas/psicológicas de James Joyce ou Thomas Mann ou Umberto Eco ou Julio Cortázar ou... São universais, uns e outros, tanto quanto são universais Machado de Assis, Dyonelio Machado, Mário de Sá-Carneiro, Oliver Sacks, lista infindável.

E o prazer de descobrir algo novo? Uma referência feita por um amigo, um título entreouvido por aí, um livro aberto ao acaso, por curiosidade ou enfado?

Universal é qualquer coisa que estabeleça uma ligação, que acenda a faísca do interesse e provoque o desejo de saber mais. Cultura é uma matéria intimamente interligada em suas inúmeras ramificações, e nada melhor para um consumidor comum de cultura do que passear por seu vasto território, numa jornada puramente hedonista, como um turista que viaja despreocupado, sem itinerário planejado e sem bagagem, ou, ainda melhor, sem lenço e sem documento. Fuga da realidade? Sim, e daí? Mas, no melhor da festa, alguma coisa nas entrelinhas nos puxa de volta e lá vamos nós penetrar em outro universo.

O rato de biblioteca não teme as influências, é uma criatura voraz e ansiosa por novos sabores, sabe que nunca vai conseguir devorar a biblioteca inteira, mas nem por isso deixa de tentar. Mas este rato aqui ainda teme, desconfia e evita um corredor do labirinto, um outro tipo de universo. O virtual, o e-book, a tela plana, fria, o livro que não pode ser manuseado, não, não parece apetitoso, melhor deixar pra lá. Melhor encarar a modernidade apenas nos textos, melhor saborear a alta tecnologia da mente do artista.

É isso, aqui me despeço, pois não é da natureza do rato bibliófilo fazer longos discursos, e prometo tentar me organizar, parar de fumar, começar aquele curso de alemão etc. etc. etc. Amanhã.

Nora Augusta Corrêa – tradutora e livreira

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A CIDADE ESCRITA: a literatura mora ao lado

Durante quatro meses, quatro segundas à noite, a Casa da Palavra, em Santo André, hospedou um pequeno contingente – quase fixo, quase idêntico ao de outros eventos do gênero na região... – que se reuniu para discutir as relações entre vida urbana e criação literária no ABC, a partir dos textos criativos de autores convidados para compor mesas-redondas sob o nome A CIDADE ESCRITA: a literatura mora ao lado, parceria entre a Secretaria de Cultura e a Alpharrabio Edições.

O primeiro encontro ocorreu em março, contando com a presença dos escritores Antonio Possidonio Sampaio, Dalila Teles Veras e Valdecirio Teles Veras, que lançaram recentemente seus respectivos diários do ano de 1999, retratando o dia-a-dia da região, como parte de um projeto que envolveu cerca de 20 intelectuais e artistas do ABC. Apresentando sua leitura crítica, participou o prof. e escritor Ariosto A. de Oliveira, em mesa coordenada pelo prof. Alexandre Takara.

Em abril, estiveram presentes os escritores Margarete Schiavinatto, Wagner Calmon e Tarso de Melo, coordenador do projeto "O onde anda: palavras pela cidade", que reúne doze autores do ABC em torno da tentativa de escrever sobre os lugares pelos quais se passa nas grandes cidades, como ruas, becos, elevadores etc. e sobre a possibilidade de "contemplá-los". Os depoimentos foram seguidos da leitura de alguns dos textos do projeto pelo poeta Guilherme Vidotto, integrante do grupo Trovadores de Mauá.

No encontro de maio, a mesa foi composta pelos escritores Antonio Possidonio Sampaio e Gilberto Tadeu de Lima, com a coordenação de Tarso de Melo, em que os escritores depuseram sobre suas experiências quanto ao tema geral dos encontros: cidade e literatura. Nessa noite, a previsão de que participassem o autor Luís Alberto de Abreu e o músico Davilson Assis Brasil, por diversos desencontros, não se efetivou. Em junho, os poetas Fabiano Calixto, Kleber Mantovani e Tarso de Melo leram poemas de livro a ser lançado em breve pela Alpharrabio Edições, Um mundo só para cada par, "poemas de amor no tempo da fuligem", contando com a participação do músico Joaquim.

Quem compareceu, pode conferir que o ABC tem conseguido manter firme sua sintonia com o que de mais interessante se produz na literatura nacional em nosso tempo. Serviu, talvez, "A cidade escrita", em suas involuntariamente tímidas dimensões, para acenar um dos caminhos que a parceria entre Administração Pública e outras iniciativas culturais – empresas, artistas, público – pode seguir. Serviu, ainda, para demonstrar que ainda há novidade para a literatura em meio ao caos urbano que nos cerca.

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A LITERATURA AOS OLHOS DO LEITOR:

Estou decidida! Hoje conto tudo e pronto. Depois, agüento as conseqüências do ato; o que não dá mais é para esconder o fato: todos já notaram como ando diferente e mais atenta a pessoas e fatos que me rodeiam. A região do Grande ABC é muito mais agitada do que se poderia imaginar. Nem o Jornal Nacional mostra tanto burburinho.

Vou ser direta e objetiva. Quem me mostrou grande parte disto foi ele: Gilberto. Gilberto Tadeu de Lima. Foi ele que me deu esta "Roupa Nova". Lembra dele?, aquele escritor que mora em São Caetano, trabalha em Santo André, é casado sim e tem dois filhos. Mas não importa onde ele mora ou o que faz para ganhar dinheiro. Importante mesmo foi o que seu livro de contos fez comigo, com meu consentimento claro. Você já leu um deles? Se ler vai me conceder perdão. Os contos do Gilberto são como uma grande casa de cômodos, abro uma porta e espio o "velório do professor Herculano" com todas aquelas piadinhas e fofocas que existem em qualquer velório que você ou eu já tenhamos ido. Folheio rapidamente e me vejo caminhando em um parque no domingo pela manhã, observando a paquera frustrada de "Bruno... mas, se ela tivesse lhe perguntado o nome teria respondido: José da Solidão". Sei que tem dias em que sou a própria "Maria do Silêncio". Ah! E tem aquela chata (ou chato) da .."fila do banco Banespa em Diadema" que fala mais do que deve e pode, e que com certeza todos encontramos um dia na vida. Ou eles nos encontram!

E assim caminho entre os cômodos de minha região, vestida com a Roupa Nova de Gilberto, que já está meio gasta de tanto uso, mas é agradável, instigante, desafiadora.

Precisava falar porque ando atenta aos escritores da região onde construí minha vida e família. Sei que podem perdoar-me se adio a leitura de tantos outros. Duvidam? Pois experimentem provar um de nossos escritores do Grande ABC.

Gilberto, quando poderei vestir novamente uma nova roupa tua? Com sincera ansiedade

Mára Pezzolo

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ALGUMAS HISTÓRIAS DA TERRA, Sian, Ed. Paulus, 2000

O título da obra já conta: não são histórias sobre ela, mas sim histórias contadas por ela – "A Terra nunca se cala e, mesmo quando quieta, conta histórias"... A partir deste trecho, a Terra passa a "se contar".

E é assim que vamos penetrando num universo cheio de magia e encantos.

As aliterações, aliadas à rima constante na obra, acrescentam musicalidade à narrativa. O poema "Eco", por exemplo, apresenta: "Calada olhou./Quieto o Eco ouviu./Ficou o não dito/Pelo não dito./O eco ecoa...".

"A Floresta" apresenta a realidade constrangedora: na lei-da-selva não há fora-da-lei. O fora-da-lei vem de fora: "Onde vigora a lei-da-selva,/Sem juiz, promotor, advogado,/Tudo vai bem,/Muito bem, bembém,/Obrigado./Até que apareça o fora-da-lei:/— Madeeeiirraa!...".

E a criação em perspectiva, eu diria, de "Contemplação" vem mostrar a posição de quem contempla em relação ao que é contemplado, daí o título aparecer todo espaçado na última linha. Um traço genial do autor porque as próprias palavras tornam-se ilustrações da idéia. Assim também acontece em "Acústico", cujas palavras pequeninas como o som baixo terminam em reticências, tal qual o som da concha, que interminavelmente continuará.

Vez por outra, o universo encantado apresenta-se pontilhado por provérbios e frases conhecidos desde sempre, tão antigos quanto as histórias da terra:

"Ela jura:/Tanto bate até que..." ("H2O");

"Disponha, vê se me usa,/Mas não..." ("Deserta"); ou ainda

"E não fala, mas... mas.../Presta uma atenção!!!" ("Boca Sábia").

Outras vezes, vem resumido em duas frases, simples e tão abrangentes: "No mar de areia/A ilha ao contrário." ("Oásis").

E a presença do Homem na Terra, em "Visão", relembra a passagem bíblica de Paulo de Tarso ao ver Jesus – a luz que cegou os olhos da humanidade, a princípio, para depois fazê-la mudar de rumo incontestavelmente.

Há tantos outros contos que vêm da rima, e tantos outros encantos nesta obra-prima, que não dá para resistir...

- Sian, quando é que tem mais?

Lelê Samiranda – professora e escritora de livros para a infância

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UMA CONVERSA SOBRE
"A REDOMA INVISÍVEL" e "A GRANDE ASSEMBLÉIA"

Nas obras de Terezinha Malta e Inhandjara Yamamura, um rico mundo no encontro de linguagens se faz presente.

Os sons, as cores, imagens lúdicas tão próprias do universo infantil, figuras gritantes, personagens extraterrestres, mecanismos avançados, tão peculiares do final do século e início do milênio, falam de valores antigos e, ligando gerações, apresentam o moderno. No jogo linguístico, em que as palavras iniciam uma dança gostosa que se reforça com a arte visual tão bem trabalhada por Girotto e Fernandes, os temas abordados nas obras são atuais e necessários; nos transportam ao mundo infantil ao mesmo tempo em que despertam a consciência de que há muito a ser feito e tanto a desfazer como acontece com A Redoma Invisível (Editora do Brasil, 1994) e o trabalho a ser desenvolvido por decisões tomadas em A Grande Assembléia (Editora do Brasil, 1998).

Viajando através das obras, temos a impressão de viver duas grandes experiências ruidosas e fecundas que nos lançam ao Universo Infantil e, "fazendo de conta", nos damos conta da "redoma invisível" que forjamos através dos mergulhos da vida prática, em que o isolamento emocional faz de alguns, ausentes.

Essa ausência nos impede de que, em "grande assembléia", sejamos fraternos, responsáveis, produtivos, enfim, cidadãos.

Há, no conteúdo das obras, a explicitação de que é preciso arregaçar as mangas, sacudir o pó e renascer, na busca da infância latente em todos nós.

Renovar, aquecer, despertar para o amor em seu sentido lato. É o convite de Terezinha e Inhandjara. Com esse espírito desperto é que, em sala de aula, que tanto pode ser na escola, em casa ou na calçada, os mestres da vida, aqui tão bem representados pelas autoras, formadoras de gente, como artesãos divinos modelam seres sociais e travam batalhas santas pela solidariedade, fraternidade, amor e cidadania.

Atendendo aos padrões atuais de educação exigidos ao educador do século XXI, os trabalhos das autoras certamente irão funcionar como mais uma ferramenta para o profissional de educação.

Estamos diante de obras que abordam temas universais de forma lúdica e eficiente, ao mesmo tempo em que abrem um leque de atividades possíveis à dinâmica da sala de aula produtiva e prazerosa da qual estamos carentes.

Na utilização dessas obras, o professor do ensino fundamental poderá mostrar ao educando, que aprender pode ser gostoso e que na escola ele estará em contato com a alegria e desenvolvendo sua criatividade.

Aos profissionais de educação, as obras oferecem opções de interdisciplinaridade e conteúdo básico para desenvolvimento de um projeto voltado para a formação da cidadania. Uma contribuição rica que premia as novas gerações neste início de milênio.

Léa Maria Catunda – Bacharel em Letras. Pós-graduanda em Literatura Infantil pela USP

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LITERATURA PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES:
ALGUNS AUTORES DO ABC

(BREVE COMENTÁRIO)

Nossa região abriga um número considerável de escritores voltados para os interesses de crianças e jovens. No entanto, os livros de grande parte deles não estão disponíveis, o que não me demoveu do objetivo de conhecer quem são esses autores enfeixados nas poucas estantes das bibliotecas e, em número mais considerável – sejamos justos – na livraria Alpharrabio.

Uma primeira leitura possibilitou as seguintes considerações preliminares:

A literatura para crianças e adolescentes criada no ABC apresenta características distintas de acordo com o período em que se desenvolve.

No início dos anos 80, observa-se uma tendência natural de se utilizar a narrativa também como meio de ensinar ao leitor conteúdos vivenciados na escola regular. As histórias são quase um pretexto para ensinamentos de História, Geografia e principalmente Ciências. São, portanto, textos paradidáticos, demonstrando esse objetivo desde os temas à concepção.

Nessa linha de pensamento figuram os livros de Isa Ramos de Azevedo Souza: sua coleção para crianças de 8 e 9 anos apresenta um vocabulário no início de cada capítulo e, ao final, questões que ela chama de interpretação e vivência. Na condução das narrativas, há uma clara preocupação com a linguagem em padrão culto – tanto quanto permite a comunicação dirigida às crianças. Quando fala de bichos, tendo o cotidiano como pano de fundo, a autora se permite um texto mais leve, buscando uma linguagem mais próxima do seu leitor.

Nesse período, a busca da modernidade aparece em narrativas em quadrinhos em que robôs e indígenas se misturam a crianças vivendo momentos de solidariedade. Uma autora que se utiliza dessa forma de comunicação é Helena Maurício Craveiro. Os diálogos são enxutos, como convém ao formato, auxiliados pelo desenho, sem preocupação literária, mais voltados à mensagem final.

Bichos como personagens centrais, em situações do dia-a-dia, permitem a recriação de um mundo de possibilidades que envolvem a criança. Assim também entenderam os escritores Wagner Antonio Calmon Ferreira e Cláudio Feldman, propondo novas opções de fantasia para o leitor iniciante.

Em Wagner Calmon Ferreira e Cláudio Feldman há alguns traços e trajetos lingüísticos semelhantes que o leitor curioso e amante da bela linguagem certamente descobrirá. Em textos muito bem humorados e recursos expressivos peculiares, mostram o quanto é prazeroso para o escritor o ofício de escrever.

Nota-se que, ainda nessa década, a literatura voltada para crianças vagarosamente propõe caminhos lingüísticos. Já não se escreve "dir-se-ia", "encontrar-se-ão" e sim uma nova linguagem despojada, mas sem perder o nível constantemente aperfeiçoado.

Observa-se que esta busca se sedimenta em Cláudio Feldman, cujos livros da década posterior demonstram o amadurecimento de um estilo.

Quanto ao Wagner Calmon, interrompeu temporariamente sua trajetória de escritor para crianças e parece que no novo milênio retomará o caminho com sua luz própria.

A Literatura em prosa para jovens ocupa o seu lugar marcado por duas obras: uma de Guido Fidelis – Pimpolhos na Terra dos Homens Sós – e outra de Ricardo Soares – O Brasil é Feito por Nós.

Guido Fidelis amarra suas personagens adolescentes a aventuras do dia-a-dia, recriadas pela imaginação influenciada pelo momento político vivido no país. Concilia brincadeiras e pitadinhas de realidade nas situações vividas pelas personagens. Esse objetivo é facilitado pela linguagem fluente e trabalhada, de modo que as informações não soem exageradas no contexto. Por exemplo: "As bruxas estavam enfurnadas em suas cavernas à espera da volta das eleições diretas para que pudessem alugar vassouras, capas, uma série de importantes petrechos para os políticos convencerem as massas desacostumadas ao exercício do voto". Além disso transmite beleza e criatividade: "A Lua de cara gorda, pisca um olho de cratera".

Ricardo Soares escreveu a história de um menino de São Bernardo do Campo (Vila Paulicéia/São José) vivendo suas pescarias e seu futebol, freqüentando a escola onde sua professora ensina que "o Brasil é feito por nós".

Um dos aspectos importantes desse livro é que o ABC está contemplado na memória do menino, através de uma narrativa sensível que conquista o leitor.

Faço um interregno e chego a 1996, a Sagaracontos, poesias de Irineu Volpato em que ele, ao mesmo tempo que recupera, cria e recria palavras; recupera e recria nossa memória, através do recontar de lendas, tradições e personagens do imaginário brasileiro. Dirigindo-se aos leitores infanto-juvenis, os convida a viver a saga dos nossos mitos e a sentir uma linguagem nova ou, como ele talvez dissesse, novidadeira.

É importante salientar que a poesia criada por diversos autores da região, nesta última década, diferentemente da poesia de Volpato, se delineia como um espaço equilibrado entre a preocupação formal – rimas cruzadas e simples – e a transmissão de conteúdos. Parece que o escritor para crianças e jovens ainda valoriza a tradição da narrativa linear e da poesia com rimas, neste particular porque – se sabe – a rima é um ímã a prender o leitor criança.

Com esse formato, surgem autores novos exercitando a interdisciplinaridade de maneira lúdica.

Fazer um comentário sobre matéria tão importante se torna difícil pelos motivos expostos de início. Muitos autores há, mas não comentados aqui, ou escassamente apresentados porque, pela extensão e diversidade da sua produção literária, tiveram ou terão sua obra resenhada nas páginas do Abecês. Muitos outros também haverá nas prateleiras das estantes solitárias, aguardando sua hora. Outros tantos publicados em periódicos de "Europa, França e Bahia". Por isso, buscá-los é tarefa de garimpeiro e encontrá-los é atitude necessária. Em Santo André foi dado um passo em 1999, quando um painel foi estendido para maior compreensão do nosso imaginário. Como A Literatura Mora ao Lado, certamente os textos de nossos vizinhos emergirão; dos vizinhos de parede-e-meia e dos de outras ruas, praças, espaços.

Marília Magalhães Pedrosa – Professora, escritora,
autora de "Idos e Vividos – a cota diária do meu samburá" (Alpharrabio Edições, 2001).

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A PALAVRA INÉDITA

         


de O ONDE ANDA: palavras pela cidade

Antonio Possidonio Sampaio / Dalila Teles Veras / Danilo Rodrigues Bueno / Fabiano Calixto / Guilherme Vidotto / Jean de Oliveira Ferreira / Kleber Mantovani / Margarete Schiavinatto / Rosana Chrispim / Tarso de Melo (organizador) / Valdecirio Teles Veras / Wagner Calmon Ferreira – 60 pequenas prosas – avenidas/ becos/ calçadas/ elevadores/ escadas/ pontes/ praças/ ruas/ sarjetas/ trilhos – fotografias de Leonardo Colosso – em breve, lançamento da Alpharrabio Edições.

Foto: Leonardo Colosso

   

- em "Escadas"

Uma das mais fortes distrações da infância (coisa de memória) foi ser, embora a pobreza da família, dono de uma escadaria na Vila Junqueira (morava em frente).

Era escadaria grande, dava acesso a uma parte alta, que ficava perto do ponto de ônibus e, do portão, eu dizia à minha mãe, que lavava roupas: "Mãe, essa escada é minha". É, eu chamava a escadaria de escada, talvez por achar que tudo, como eu, fosse, acima desse tudo, pequeno.

Certo dia, tivemos que mudar – "levemos a escada", disse eu com palavras de criança.

Sabendo ser isso impossível, mas não querendo me magoar, meu pai, sem ligar para o que dizia, respondeu:

— Para onde vamos, haverá várias escadas.

Mudamos outras vezes, aprendi várias coisas e vários outros tipos de saudade.

Depois de vários anos, revi a mesma escada. Já não mais me pertencia.

Jean de Oliveira Ferreira

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ABECÊS é uma publicação da Alpharrabio Edições e conta com a parceria cultural da Bartira Gráfica.

3º trimestre de 2001 · Editora executiva: Dalila Teles Veras · Editores: Antonio Possidonio Sampaio, Fabiano Calixto, Rosana Chrispim, Tarso de Melo, Valdecirio Teles Veras · Colaboradoras: Therezinha Malta e Marília Guimarães Pedrosa · Projeto Gráfico e Editoração: Isabela A. T. Veras · Jornalista Responsável: Rosana Chrispim MTb 16.651 · Redação: Rua Eduardo Monteiro, 151 – Santo André – Fone: 4438-4358 Fax: 4992-5225 – e-mail: alpha@canbrasnet.com.br

 


Abecês 1


Abecês 2


Abecês 3