Personagem

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Ao telefone, uma voz aflita: “vocês têm os restos mortais de Fernando Sabino?”. Assustada, a atendente da livraria ficou sem saber o que dizer. Segundos depois, já refeita e aliviada, percebeu que o pedido não se referia aos próprios restos mortais de Sabino, mas a um livro daquele escritor, cujo título é justamente “Os restos Mortais”. Este português do Brasil, na ânsia de ser breve e informal (talvez por rejeição à excessiva prolixidade da matriz) acaba por dizer o que não quer e nem sempre quer dizer o que diz. Coisas da língua (já, quase, “brasileira”)… “ Última flor do Lácio, inculta e bela” (?!)…

Em tempo: este texto já estava pronto para ser postado, quando li o ensaio do Prof. José de Souza Martins “Procura-se o povo brasileiro, um decantado desconhecido”, publicado neste último domingo, no caderno Aliás, do Estadão. Analista agudo do modo de ser (ou não ser) da sociedade brasileira, o professor forneceu-me as chaves para ampliar a reflexão sobre o fato que, em mim, é meramente intuitiva e empírica: “Ainda falamos em todo o Brasil um resquício da língua nheengatu, que se poderia chamar de língua nacional brasileira (…) uma língua criada pelos missionários jesuítas (…) baseada na língua tupi e organizada com base na gramática portuguesa (nota nossa: a propósito, este tema foi abordado numa palestra do Professor José de Souza Martins, em 2005, no Alpharabio) Essa era uma língua da servidão. Está aí o “mecê” caipira e o próprio “você” urbano, filhos, ambos, do “vossa mercê” com que os ínfimos tratavam os seus senhores. (…) Raramente dizemos uma sentença inteira. (…) Diferente do que ocorre com a língua portuguesa em Portugal, sempre dizemos as coisas pela metade: “eu vou”, mas não dizemos para onde vamos nem quando. Essa é a linguagem do medo, de quem não pode dizer uma sentença completa porque não tem certeza. ou, sobretudo, porque a linguagem incompleta é a linguagem dos subentendidos, da certeza de que o outro saberá o que estou dizendo.”
(dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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One Response to Personagem

  1. Rosana Chrispim says:

    Saborosa e rica essa crônica do dia-a-dia. Não dá para ir ao Alpha para tomar um café e sair só com isso (a não ser que se seja muito insensível, coisa não tão rara nos dias de hoje): sai-se sempre um pouco mais “acrescentado” pela observação e pelo “clima” da casa. Também não dá para passar incólume e impunemente por esse blog: sempre se aprende algo, sempre se conhece um pouco mais e se aumenta um pouco a cultura geral. Dá fome, não das tapiocas saborosas, mas das conversas e das pessoas não menos que “corre-se o risco” de lá encontrar. E as pessoas não deviam ter medo de ampliar seus ângulos de visão!