A intrusa

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No minúsculo jardim dos fundos do Alpha, já se tentou cultivar inúmeras espécies de plantas, afim de que fosse preenchido com alguma beleza o que restou de solo sem concreto (que remédio?) do lugar. Via de regra, as plantinhas morriam. Ora por excesso de água (recebida do telhado do auditório), quando as borrascas as afogavam, ora por inadequação à luz local ou, talvez, por pura incompetência dos cuidadores. Pois não é que, vinda não se sabe de onde, introduziu-se ali, em meio de uns pés de moribundos jasmins, uma impatiens walleriana, ou seja, planta “da família das balsamináceas, de folhas ovadas, acuminadas, moles e glabras, flores vistosas, rubras, róseas, alvas ou violáceas, germina com cinco pétalas, às vezes, coalescentes, e uma sépala diferenciada em nectário, longamente calcarada, e cápsulas explosivas. balsamina, beijo, beijo-de-frade, não-me-toques, sultana (originária de Zanzibar, é cultivada como ornamental e, no Brasil, adaptou-se às matas úmidas do S. S.E.”, ou seja, o Houais faz toda essa descrição da singela plantinha, que é popularmente conhecida por maria-sem-vergonha. E, sem-vergonha que é, pôs-se a florir desavergonhadamente, com todas essas características multicores apontadas pelo dicionário, mas só passíveis de serem entendidas diante dos olhos que se desviaram dos livros. Havemos de reconhecer, nem só de livros vive uma livraria, mas também de delicadezas ou “maravilhas” que é como a minha mãe denominava essas florzinhas. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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One Response to A intrusa

  1. margarita says:

    “essas florzinhas” distraen la mirada, viajan tejiendo sueños, los pensamientos, quizás como la intrusa de Borges, engañan con la solapada intención de alejarnos de la palabra escrita, de la palabra… nos sumerge en el silencio vibrante del color…