Pelo Reino da Palavra crítica – Sábado II

A tarde é típica de primavera e convida ao andar. No entanto, guiados por algum silvo inaudível a ouvido nu, alguns cidadãos que naturalmente não se enquadram no padrão do “vem por aqui”, desviam seu olhar da natureza e dos caminhos que levam as multidões aos shoppings, “não vão por ali” e, com firmeza, dirigem-se para o “bunker” localizado no 151 da Eduardo Monteiro, sabedores de que ali encontrarão um refúgio à mesmice.
É quando a palavra, poderosa, da professora Vera Lúcia Vieira aborda outra palavra, poderosa mais, do crítico Antonio Candido, encerrando o ciclo Idéias de Encontro – Pensamento Atual, iniciado em 21 fevereiro, nas comemorações do 14º aniversário do Alpha e que mensalmente trouxe a palavra de tantos estudiosos sobre as formas do pensar de Montaigne, Sócrates, Marx, Paulo Freire, Florestan Fernandes, Freud, Celso Furtado e Antonio Candido, partilhando saberes acadêmicos com gentes fora dos muros da Academia. Mestres, doutores em suas áreas de saber, que aceitaram nosso convite e vieram às suas próprias expensas, repartir seu saber de uma forma sempre simpática e generosa. Comovida, agradeço daqui a todos eles, pelo desprendimento.

ProfVeraLucia

A professora Vera falou da conhecida obra Os Parceiros do Rio Bonito, na qual AC estuda e revela o nosso “caipira”, ou seja, o morador do interior do Estado de São Paulo, e de como essa população foi construindo seu modo de viver, modo de estar, anterior ao capitalismo (ou à margem deste), que vive (vivia) de trocas, não só de mercadorias, mas também no sentido mais amplo da palavra, de afetos e experiências, os “homens livres” que até então a historiografia desconsiderava. Ao longo do Século XX essa forma de ser social vai ficando subordinada ao capitalismo, os novos bens de consumo vão criando novas necessidades naquela economia antes baseada na subsistência e essa riqueza cultural vai se perdendo. Na medida em aquela produção artesanal fica subordinada à cidade, as relações societárias também vão entrando em decadência. Ao ir para a cidade vender sua força de trabalho, ele próprio passa a não mais qualificar sua vivência.
No meio do caminho, havia uma surpresa: a professora Vera vê esse estudo pioneiro de AC fundado no ponto de vista da lógica das idéias de Marx, não só pela noção de cultura ali trabalhada, mas na forma ontológica como ele conduz seu raciocínio sem que, no entanto, isso tenha sido mencionado ou admitido na obra. A professora deixou bem claro que isso não significa de maneira alguma colocar em xeque a irrepreensível honestidade intelectual de AC, mas acredita que se deve, provavelmente, a uma “auto-censura subliminar”, pelo receio do sofrer censura acadêmica. O fato de AC, mais recentemente, ter admitido a influência das leituras de Marx (e o prof. Antonio Rago, na platéia, falou de um encontro que manteve com ele, no qual lhe perguntou o que de fato ele havia lido de Marx e ele lhe respondeu que o “meu grato livro foi a Ideologia Alemã” e que também Lukacs foi fundamental em sua trajetória de intelectual) reforçam essa idéia, no seu modo de ver, perfeitamente plausível, visto que, ela própria, ao fazer tal afirmação, num ensaio resultante dessas suas investigações, também sofreu censura por parte do conselho editorial de uma revista acadêmica. Mais polêmica, impossível. Devido ao adiantado da hora, encerramos o encontro que avançou por mais de duas horas tarde a fora, saindo dali com a certeza de que a troca de “não ter ido – apenas – por ali” foi proveitosa. Ao menos assim pensa esta secretária “ad hoc” e leiga, que atrevidamente tenta aqui resumir aquilo que não poderia ser resumido. Perdoem, mas é tudo que pude, sempre na intenção de transmitir mais a “atmosfera” do que a essência, pois essa, só mesmo ao vivo e, claro, nos livros. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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