Cachaça também é cultura (e alegria)

A exibição festiva do documentário “A Marvada Pinga”, dentro das comemorações dos 15 anos e marcando a reabertura das atividades do cineclube que é comandado pelo prof. Edmundo, só podia dar no que deu, alegria, muita alegria (em especial, depois da degustação). Entusiasmados com os depoimentos dos pingófilos, com as confrarias e academias (“na Academia Brasileira de Cachaça todos apreciam e bebem a mais brasileira das bebidas, ao passo que na Academia de Letras nem todos escrevem”, diz um dos seus ilustres membros) espalhadas por todo o país, o grupo que assistiu ao filme lançou-se à quase impossível missão de provar as variadas marcas e procedências ali disponíveis. Verificada a impossibilidade da hercúlea tarefa (ainda que auxiliados pelos acepipes, dentre eles os torresmos sequinhos e ainda quentes, preparados pela dedicada Eliane, os mais disputados). A ser destacada, uma exposição relâmpago (mais uma – no Alpha é sempre assim, não há metas a cumprir, as coisas fazem-se e ponto), desta feita, com material da coleção do professor Joaquim Celso, que separou, dentro as suas mais de 300 garrafas, cerca de 15 rótulos das mais variadas e nobres procedências – nenhuma industrializada). Da exposição, também faziam parte, copos especiais para servir a bebida e livros especializados.
Pois não é que, no auge do entusiasmo, aqueles que ali permaneceram, avançando no horário de almoço, fundam uma Confraria, com a devida ata lavrada pelo Dr. Possidonio, nomeado secretário ad hoc, na qual me nomeiam (ai de mim!) fiel guardiã do acervo restante. O compromisso da confraria é manter-se até que dure o estoque de garrafas restante da festa. O fato foi comemorado com a abertura da estrela da exposição, uma legítima Havana, saída diretamente do alambique de Anísio Santiago, em Salinas, MG, aberta sem dó nem piedade, mas com muita alegria, pelo entusiasmado proprietário, o prof. Celso.
Quanto ao filme, humor e brincadeiras à parte, posso assegurar tratar-se de uma obra séria, que merece elogios, muito em especial, por chamar atenção para o preconceito em relação a uma bebida genuinamente brasileira, que hoje, conta com 30.000 produtores, emprega milhares de pessoas, é exportada para vários países e que, não já sem tempo, merecerá, por lei, a denominação de origem e o controle de qualidade, graças à sua aceitação mundial, cotada, no exterior, em vários casos, em valores mais altos que os praticados pelo whisky. Alguém me perguntou porque, nestas comemorações não há nenhum evento dedicado ao livro. Disse-lhe e, agora digo para todos, que o livro está presente em todas elas. É só parar, analisar e ver. Cachaça (em Minas), pinga (em Parati), jeribita, branquinha e outras dezenas de nomes pelos quais é conhecida nossa aguardente da terra, também é cultura, haja vista os muitos livros já dedicados ao assunto. Luzia Maninha, merece os mais efusivos parabéns por mais esta criativa idéia, dentre as muitas que vem emprestando à programação do Alpha, festivas ou não, mas sempre oportunas e pertinentes. (dtv).

Marvada

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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4 Responses to Cachaça também é cultura (e alegria)

  1. Rosana Chrispim says:

    Mais uma vez se prova que o Alpharrabio – que não tem que provar mais nada – é o que existe de mais eclético, mais criativo, democrático e competente nas paragens do ABC. É onde as coisas realmente acontecem. Nenhuma estatística desmentiria isto que é um fato. Parabéns Alpha (leia-se Dalila, Maninha e cia.) pelo vigor destes 15 anos, como se estivera nascendo agora!

  2. Edmundo says:

    Alpha começa os quinze anos com muita atividade. E o Blog volta ao ritmo de inauguração. Ótimo !

  3. Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio says:

    Provei algumas pingas, no encontro de sábado, e fiquei meditando sobre qual seria a melhor. Não quero desprezar qualquer uma delas, que serão melhores ou piores segundo os doutos, mas para mim nenhuma é como a pinga da minha infância, da qual, antes de tudo, senti apenas o cheiro (que enchia o alambique de um ar pesado e quase palpável), por ser eu ainda muito pequeno para provar-lhe o sabor. Pinga que depois bebi fazendo as caretas que sempre causaram risos aos velhos que não estão mais por aqui, com seus bigodes compridos e brancos, enquanto as tias e a nonna praguejavam contra eles, por terem me oferecido a canequinha de folha-de-flandres. A modesta pinga de Monte Alegre do Sul, terra dos antepassados, será a melhor, para mim, sempre, em honra da minha infância.

    Marcos

  4. Muito apropiada a afirmação de que cachaça também é cultura. Na verdade, tem feito parte de movimentos culturais e outros desde a primeira metade do século 16, quando foi expontaneamente criada na Capitania de São Vicente.
    Viajando pela vasta imensidão do Brasil pode-se observar em todos os lugares o quanto ela está associada ao nosso povo, diria que mais que o carnaval e o futebol. Uma rápida olhada no meu site, com mais de 8000 com foto e informações, http://www.pingaiada.alfenas.net tem-se uma idéia da abrangência dos temas abordados pelos rótulos e também pelos formatos das garrafas.

    Messias