Cineclube, em gala, fecha as comemorações dos 15 anos

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Conforme previsto, o resultado da sessão do Cineclube desta quarta-feira, 28.02.07, foi uma interessante e acalorada discussão acerca do mítico Citizen Kane, filme de Orson Welles, provocada pelo coordenador/provocador Edmundo Dias. Como se não bastassem algumas características que emprestam esse caráter lendário ao filme, como o fato de ter sido realizado (e estrelado e roteirizado e produzido) por um garoto de 25 anos, que acabou por influenciar toda uma geração de cineastas que veio a seguir, o filme oferece elementos que permanecem até hoje com o frescor da época. É espantosa a maneira não linear que Welles escolheu para narrar uma história em flashback, procedimento inusitado para a época (1941), focando uma palavra (Rosebud) que o protagonista teria pronunciado ao morrer (mas, afinal, ele estava sozinho – quem o ouviu?) e que se transforma em “leitmotiv” e enigma de toda a narrativa. O cineasta ainda reserva surpresas, como uma surpreendente metalinguagem, quando o roteirista do documentário suspende a filmagem e ordena a seus colaboradores que saiam em busca de depoimentos sobre o personagem a fim de que se descubra o mistério “Rosebud”. Sem fugir à regra, a discussão tendeu para a questão da palavra-enigma, mas houve quem, como eu, preferisse concordar com um dos próprios personagens, que diz que isso é o que menos importa, Rosebud era apenas uma peça de um gigantesco quebra-cabeça. E foi o que se passou a discutir: um filme sobre a vaidade? um filme sobre o poder? Se me permitem, na minha modesta opinião, acho que é um filme que pretende retratar a própria América, personificada pelo magnata Kane, uma América (re)inventada pelo gênio de Welles. Octavio Paz disse que o poeta Walt Whitman precisou inventar uma história para retratar a América, já que a América não tinha ainda história. Welles, vale-se de inúmeras simbologias para novamente reinventar uma América que, em meio a tanta riqueza, por tantas vezes, acaba por transformar riquezas em fumaça, reconstruindo sucessivamente novos símbolos para reafirmação da riqueza e do poder. O grande plano (nas cenas finais) das quinquilharias reunidas pelo personagem (que dá a ilusão de foto aérea de uma cidade) e que, à medida que a câmara vai fechando o foco, remete, no meu modo de ver, ao inútil acúmulo (que reúne de tudo, desde valiosas obras de arte a trenós de infância) mas que acaba por se transformar em fumaça. Como alguns dos grandes poetas, Welles também foi visionário (o 11 de setembro que o diga). A platéia-debatedora, ao final, confraternizou com um vinhozinho branco resfriado, brindando ao encerramento das comemorações dos 15 anos do Alpharrabio. Tim.. tim… (dtv).

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About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to Cineclube, em gala, fecha as comemorações dos 15 anos

  1. dalila teles veras says:

    Cada vez mais a factotum Luzia Maninha surpreende, em especial, no aspecto fotos, documentando a vida cultural do Alpha. Como já disse antes, faço os textos à noite e, pela manhã, venho verificar as fotos que ela fez durante a atividade registrada e, devo confessar, que sempre me surpreendo com os ângulos inusitados e a já conhecida sensibilidade, atenta a tudo ao seu redor. Hoje, mais do que nunca, suas fotos merecem elogios e, ainda correndo o risco de ser classificada como “suspeita”, deixo aqui o meu reconhecimento públicvo e a parabenizo pelo talento.
    dalila

  2. Edmundo says:

    Aplausos, apalusos !
    Melhor registro da atividade movimentada do Alpha: o texto de Dalila e a imagem de Luzia.