Retorno a Ítaca

Martinho da Arcada
foto: dtv

Retorno a Ítaca com olhos (in)cansados de ver e pés ardendo de caminhos (viajar, ao contrário do que imaginava o poeta, é sempre um ato impreciso). Fui (re)visitar a pátria de nascimento, pois esta Ítaca é a pátria de adoção e de afinidades eletivas. Assisti a pelejas polítícas, com seus macetes antigos, agora habilmente direcionados pelo império da publicidade que dita comportamentos e transforma jargões surrados em palavra nova. No plano da política, com honrosas e evidentes exceções, o cinismo é global. Em Portugal, para minha surpresa, o 25 de Abril é apenas um feriado, que representa muito para muito poucos, ou seja, aqueles baluartes que dignamente resistem, debatem os ideais libertários, mantendo o bom combate no plano das idéias e da defesa da paz e do humanismo (talvez seja essa uma história muito recente para ser lembrada com a profundidade que um dia a história exigirá). Nem cravos nem fuzis, muito menos barricadas. Passadas algumas poucas décadas, o mundo comandado pelas leis do mercado e da economia, não mais admite revoluções “românticas”, haja vista, que o recém-eleito Presidente da França, Nicolas Sarkozy, declara que vai “liquidar” o espírito de maio de 68 (!).

Fernando Pessoa

mesa de Fernando Pessoa no Café Martinho da Arcada – foto: dtv

Mas o bom povo português segue preservando o seu melhor, na suprema hospitalidade, na centenária prática da casa e da alma aberta para o outro, (com)partilhando de sua boa mesa e de seu excepcional vinho. Visitei Pessoa em sua casa, em Campo de Ourique e percorri vários dos seus sítios preferidos (A Brasileira do Chiado (desculpe poeta, mas o Chiado não mais “sabe a açorda”), o Martinho da Arcada, O Nicola, a Rua dos Douradores. Vi os biombos Namban e o rico acervo de arte antiga do Janelas Verdes, subi a colina da Alfama, onde Lisboa é mais Lisboa, para rever o amigo Joaquim de Montezuma de Carvalho, verdadeiro embaixador das relações culturais luso-brasileiras, e pelas mãos reais das amigas virtuais Isabel e Beatriz, saborei um inesquecível arroz de tamboril com gambas em Sesimbra. No Porto, visitei Serralves e passei, reverente, pela Cadeia da Relação, onde esteve preso Camilo por crime de amor de perdição; fiz a festa na estonteante Livraria Lello e fui tomar café e ler Sophia no velho Majestic, em companhia de Fernando e Eva Manuela. Na Madeira, o mergulho ancestral, as ruelas, as rampas, os becos, os jardins da infância, a Festa da Flor, num abril de verdadeiro abril, raízes e afetos conduzidos pelo calor dos amigos e parentes, ora percorrendo vias rápidas, ora transitando nas tortuosas velhas e tão charmosas estradinhas, nas potentes máquinas conduzidas pela amiga Manuela e a prima Gabriela.

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Balneário da Calheta visto a partir do Centro de Artes Casa das Mudas – foto: dtv

Para uma ilha com menos de 300 mil habitantes a oferta cultural é verdadeiramente invejável. Dentre as tantas surpresas, O Centro de Artes Casa das Mudas, no Conselho da Calheta, foi talvez a maior. Inaugurado em 2004, com sua singular arquitetura, erguido numa falésia debruçada sobre o mar, pedra polida integrando-se à pedra natural da paisagem – obra do arquiteto madeirense Paulo David – apresentava nada mais nada menos do que três excelentes exposições (O surrealismo português na Coleção Fundação Cupertino Miranda; a intrigante Exposição de Fotografia de Kimiko Yoshida : “Tudo o que não seja eu”, que, na verdade, entra no âmbito das artes plásticas e, finalmente, a bela mostra, na galeria, da obra gravada de Júlio Pomar). O Monte Palace Museu Berardo, com suas belas coleções de Arte Africana e Pedras preciosas, além dos deslumbrantes jardins, foi outro destaque. Vale lembrar que o empresário José (Joe) Berardo, nasceu na Madeira, enriqueceu na África do Sul, com negócios de mineração (é considerado o 10º homem mas rico de Portugal) e possui uma das 100 maiores coleções de arte privada do mundo, composta de mais de 4 mil obras, considerada superior à de Guggenheim. Essas obras, além de integrarem frequentemente exposições nos mais importantes museus do mundo, integram o Sintra Museu de Arte Moderna e o Centro Cultural de Belém, além deste, na sua terra natal. Bem, muito haveria para dizer sobre arte e cultura na Madeira, sem contar que a própria geografia e flora madeirenses são espetáculos à parte. Fica para depois.
Volto mais portuguesa e cada vez mais brasileira, ainda que estrangeira sempre, em especial, quando, no retorno, sou obrigada, no Aeroporto, a entrar na fila destinada aos “estrangeiros”, ter meu passaporte “examinado” pela Polícia Federal, ainda que exiba um documento de identidade brasileiro e um diploma com direitos políticos adquiridos após 50 anos de permanência em terras brasilis. Coisas de acordos, de fronteiras, de inutilidades, que, afinal, nada dizem e não conseguem anular os ganhos adquiridos nas odisséias.
Voltando ao nosso Alpha, posto que em casa já estamos, constato, com indisfarçável satisfação, que sou dispensável, diferentemente dos tempos em que tinha tantas certezas e sentia culpa diante do ócio. A factótum Luzia Maninha, coadjuvada pela fiel Eliane, cuidaram, nestes vinte e poucos dias, exemplarmente da Casa, que encontrei reluzente e lindamente retratada nestes cadernos virtuais, onde fui recebida com flores.
Hoje tivemos mais uma sessão do nosso Cineclube, comandado pelo sempre entusiasmado prof. Edmundo. O tema do mês é Jerry Lewis e o filme de hoje foi o Mensageiro Trapalhão. Andemos, que o mundo só anda tocado pelos cidadãos que formam a comunidade (ainda) cívica. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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3 Responses to Retorno a Ítaca

  1. Bem vinda de volta
    Portugal é uma alma que navega dentro de todos os portugueses espalhados pelo mundo, e somos cinco milhões fora de Portugal

    Gostei do texto e das fotos

    abraços
    Constança

    em São Paulo

  2. Rosana Chrispim says:

    Gostei do texto, das fotos e dos comentários. Mas preferiria que este texto fossem vários, isto é, que não fosse contado tudo de uma só vez. Ao mesmo tempo, estou certa de que muito mais há a contar, o que renderá , por certo muitos textos mais. Muito bom tê-la de volta. Você faz falta. Abração

  3. Isa says:

    Isto é daquelas coisitas… há quem veja um copo meio vazio, outros vêm o mesmo copo meio cheio…

    Pessoalmente, face ao tema, à fluidez, à forma simples e simultaneamente tão sentida de cada palavra, achei o texto bem curtinho.

    Tão curtinho que estou à espera dos próximos capitulos de “Aventura fora de Ítaca”.
    Até breve