Livros, em forma de esperança

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Baía do Funchal vista a partir do Forte São Tiago – foto: dtv

Enquanto ainda me debato para combater a síndrome PF (pós-férias) que me impede de entrar de vez na rotina de trabalho, vou aqui, seguindo o conselho da sempre leitora e amiga Rosana Chrispim, mas também atendendo às expectativas de outra amiga e leitora, a Isa Ferreira (re)memorando a viagem, compartilhando com mais gentes o que meus olhos viram e a mente registrou.
Pois bem, levada pelo irremediável vício do livro e da leitura, dediquei boas horas a “passear” pelos 1.200m2 da Livraria Esperança, no Funchal, Ilha da Madeira (e lá deixar alguns euros em troca de preciosidades bibliográficas). Vale a pena conhecer a bela história desta livraria, iniciada em 1886, com a criação da Livraria e Tipografia Esperança por Jacintho Figueira de Souza um amante das artes do livro, avô do atual administrador, Jorge Figueira de Sousa. A Livraria Esperança foi o primeiro estabelecimento comercial no Funchal e na Madeira a vender exclusivamente livros. O espaço ocupado atualmente pela livraria, data de 1973, quando, com um estoque de 12.000 títulos, já era considerada a 3.ª maior livraria do país em termos de oferta disponível.
Hoje, a Livraria Esperança orgulha-se de ter em estoque quase todos os livros em português, ou seja, todos os editados em Portugal e muitos dos que, tendo sido editados no Brasil, têm distribuidores em Portugal, acrescido, ainda de uma curiosidade: os seus 94.000 livros diferentes são expostos de capa, por considerarem que essa é a melhor forma de divulgar o livro. Não preciso nem dizer que acho fantástica essa forma inusitada de poder procurar os livros sem torcer o pescoço para ler as lombadas, mas com a capa inteira ao alcance da vista (que, diga-se, necessita de um espaço imenso para exposição dos livros). Minha coluna cervical já tão fatigada de andar curvada a ler lombadas em prateleiras de diversas alturas, saiu ilesa da empreitada.
Há mais uma característica da livraria que a diferencia das demais, que é a de ser uma livraria de “fundos”, ou seja , uma vez vendido um título este é reposto de imediato até que o editor o defina como esgotado (ou seja, que não existem mais livros disponíveis). A Livraria Esperança é a única Livraria de Fundos a operar neste momento em Portugal. Claro que não foi possível, nas várias vezes que lá entrei, passar os olhos por todos os 96.000 títulos expostos, que fazem da Livraria Esperança a maior Livraria de Portugal. (atenção: estamos aqui a falar de uma livraria localizada numa ilha com menos de 300.000 mil habitantes)
Não é por acaso que desde 1991, a livraria foi transformada em Fundação Livraria Esperança, declarada de Utilidade Pública, graças ao seu trabalho de divulgação e incentivo ao hábito da leitura, inclusive com distribuição de livros a crianças carentes.
Mas como nem tudo é perfeito, há um porém em toda essa bela história: por assim permanecerem os livros expostos, acabam ficando, na sua maioria, com aspecto de livro usado, aqui e ali com a marca na capa do pregador que o sustenta, ou o amarelecimento pela exposição à luz. Nada que desmereça o meritório intento dessa saga de sonhadores, a família Figueira de Souza, já na terceira geração. Viciada que sou em livros usados, não me importei nem um pouco.
Depois falarei de outras maravilhas livrescas e artísticas de Portugal. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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One Response to Livros, em forma de esperança

  1. Isa says:

    É costume dizer-te que os espanhóis é que vêm com as mãos.
    Ora, sendo impossível que todos os frequentadores da Livraria Esperança sejam espanhóis (das vezes que lá estive nem ‘unzinho’ vi), logo a família Figueira de Sousa, deverá sentir-me muito orgulhosa de toda e cada “marca na capa” pois isso será certamente sinal de algum interesse por parte do “predador”.

    Em toque de remate poder-se-á dizer que a Livraria Esperança é um grande império dentro de um império…

    Vale a pena visitar grandes impérios como este e não é só pela sua rareza.