Esquinas do mundo

Em viagem, um dos meus passatempos prediletos, dentre outros, é procurar (e usufruir, claro) livrarias e cafés históricos e charmosos. Comprar um livro e ir ao Café para saboreá-lo é um exercício especial e delicioso, também muito europeu (os primeiros Cafés de Paris datam do século XVII). Em Portugal, também há Livrarias e Cafés centenários, carregados de história e simbologia, onde, além de saborear livros e fumegantes expressos, é possível respirar climas de épocas passadas, enquanto se observa o tempo presente a passar. No Funchal não é diferente, mas, para minha decepção, alguns dos meus preferidos tomaram outros rumos, e não mais despertam meu interesse, como é o caso do Café do Teatro, tradicional ponto de intelectuais e lugar de tertúlias literárias, onde tantas vezes encontrei meu saudoso amigo José António Gonçalves e outros escritores madeirenses, hoje transformado num lugar para “descolados”, com seus jovens garçons sempre apressados, com caras, bocas e trejeitos de passarela. O Café Apolo, que abriu suas portas em 1945, onde trabalhou meu pai, como garçom, logo após o seu retorno dos Açores, onde passara 3 anos a servir “a Tropa”, segue democrático, sempre repleto de turistas e nativos, mas já não se vê as suas principais mesas reservadas às figuras da inteligência local. Seu aromático expresso, tanto quanto suas queijadas, permanece muito bom.

GoldenGate

O Golden Gate, o mais elegante deles, recentemente restaurado por uma rede de hotéis, mantém-se fiel à sua história e mitologia. Afixada à entrada, a frase famosa de um de seus mais ilustres freqüentadores, o escritor Ferreira de Castro, quando, em 1931, ali residiu em tratamento de saúde: “Aquele ângulo do Funchal era, entre as esquinas do mundo, um dos mais dobrados pelo espírito cosmopolita do século” (do romance “Eternidade”). Ali, sentadoa em confortáveis cadeiras de vime, ainda é possível saborear de seus selecionados chás (há uma carta só pra eles) servido em elegantes louças ou degustar um Madeira acompanhado de um de seus afamados bolos, observando o mundo a partir daquela esquina da Baixa funchalense. Os Cafés são as esquinas e os observatórios do mundo.

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to Esquinas do mundo

  1. Constança says:

    cafés são espaços especiais, aqui em sampa gosto do café Girondino
    Tou gostando de ler seus relatos e imagens
    Aguardo mais
    abraços
    Constança

  2. Isa says:

    São os sinais do tempo, minha Amiga… Uns melhores outros piores. Nessa altura (1945) concerteza não beberia café Delta, pessoalmente acho-o um dos melhores da nossa Terrinha (pela foto verifiquei que este foi servido).

    Nessa época havia locais de convívio, mas a internet era uma miragem americanizada, e o computador um bicho rarissinho.

    Hoje, se por um lado, muitos cafés se transformaram em cibercafés ou em qq outro espaço descaracterizado, acabando-se as tertúlias “fisicas”, por outro generalizou-se os computadores e hoje em dia já ninguém vive sem eles.

    Pessoalmente, já não me vejo a passar sem consultar quase que diariamente o blog da Alhparrabio (maior vicio que este só mesmo um cafézinho Delta, de preferência).