Ainda os olhares viajantes e portucalenses

Voltando a nossos registros viajantes, passearemos nosso olhar um pouco mais detidamente pela cidade do Porto, ao Norte de Portugal. Não entraremos no mérito da já histórica rivalidade entre esta encantadora cidade e a não menos fascinante Lisboa, até porque nunca cheguei a entender a natureza da polêmica bairrista. Porto e Lisboa são cidades em (quase) tudo parecidas (e diferentes): ambas são cidades fortemente urbanizadas e ambas possuem um patrimônio arquitetônico ímpar. Ambas são cidades cosmopolitas, com suas gentes oriundas de várias partes de Portugal e do estrangeiro, verdadeiro mosaico cultural. Ambas são cidades atlânticas, mas também são banhadas por grandes e sedutores rios (naquela o Tejo, nesta o Douro), mas, é claro, o respectivo rio de cada uma das aldeias será sempre o rio mais belo, como tão bem já sabia o poeta lisboeta. Diferem certamente num ponto: Lisboa é feminina, misteriosa, esconde-se atrás das colinas, jamais se deixa conhecer por inteiro. O Porto possui um caráter masculino, cidade de pedra, austera e de poucas palavras. Ambas foram cantadas em prosa em verso por monstros sagrados das letras portuguesas, mas, no meu modo de ver, ninguém mais mostrou o Porto, para ser mais preciso, a cidade e o rio Douro, com tamanha despudorada beleza plástica como o fez/faz Manuel de Oliveira, o grande mestre do cinema português, já quase centenário e em plena atividade (bem haja!).

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Para continuarmos nos livros e nos cafés, falemos de dois “ex-libris” tripeiros, que, em matéria de fama, nada ficam a dever ao seu maravilhoso vinho: a Livraria Lello e o Café Majestic, que resistem bravamente ao tempo e às mudanças, apesar de situados na baixa do Porto, zona antiga da cidade, onde é possível observar uma certa degradação urbana.

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A centenária e mítica Livraria Lello, projetada pelo engenheiro Xavier Esteves, fachada em estilo neogótico, foi inaugurada em 1906, com a presença dos escritores Guerra Junqueiro e Júlio Brandão, dentre outros, não menos ilustres. Não conheço, claro, todas as livrarias do mundo (quem sabe, um dia?), mas é de longe, a mais bela de todas as que já visitei (pensando bem, talvez sua rival mais próxima seja a El Ateneo,de Buenos Aires. Percorrer os olhos por suas magníficas prateleiras de madeira entalhada com artísticos ornatos, subir os degraus forrados de vermelho de sua majestosa escadaria interna, faz do simples ato de se comprar um livro um verdadeiro ato estético. Em 1994, quando foi adquirida pela empresa Prólogo Livreiros S. A., sofreu algumas necessárias obras de restauro que a deixaram esplendorosa, incluindo aí um pequeno café e espaço para exposições no andar superior, iluminados calidamente por belos e surpreendentes vitrais. Modernizou-se sem matar-se (aberta às novidades, sem transformar-se em mero supermercado de livros), mantendo a tradição (não é de mero comércio, mas a filosofia em dignificar o livro e a literatura) da familia Lello, casa Editorial que antecedeu a criação da livraria e que data de 1881. Comprei ali o último dos 14 volumes que faltava para completar a minha coleção da obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, filha muito ilustre daquela cidade, cuidadosa e definitivamente reeditada, pela Editorial Caminho.

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Ali pertinho, um pouco mais jovem, o Café Majestic, inaugurado em 1921, obra do arquiteto João Queirós, em puro estilo art noveaux, também reina no seu gênero. Consta dos anais das crônicas da cidade, que o dia de sua inauguração foi um marcante acontecimento, com a presença do piloto aviador Gago Coutinho (aquele da primeira travessia do Atlântico, junto a Sacadura Cabral) que lá voltou outras vezes, sempre acompanhado de belas mulheres (viva a celebridade!). Depois, vieram as tertúlias políticas e literárias que o tornaram referência e passagem obrigatória de Ministros, Presidentes, escritores e artistas (Mário Soares, Sérgio Godinho e David Mourão Ferreira, deixaram mensagens em seu livro de ouro). Estar ali, mirar-se nos magníficos espelhos de cristal nas paredes, sentar-se nas cadeiras forradas em couro sobre um soberbo piso de mármore indiano, sentir-se observado pelo olhar maroto dos anjos pintados no teto, representa um mergulho na “belle époque”, com todo seu glamour. Se houver um livro pra ler (e, no meu caso, havia, o da Sophia, adquirido na Lello), uma boa companhia (e como se pode ver, havia) e um aromático café ou chá para saborear, tanto melhor. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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4 Responses to Ainda os olhares viajantes e portucalenses

  1. Rosana Chrispim says:

    Amiga Dalila, o encontro com seus olhares viajantes nos faz sentir vontade de conhecer os lugares que menciona, não a duvidar das suas sensações, mas, muito pelo contrário, para saborear de verdade o gosto que nos põe na boca. O olhar é uma coisa tão particular que jamais conseguimos senti-lo todo. No entanto, você tem tido a rara felicidade de nos proprocionar um íntimo encontro com aquilo que nossos olhares ainda não puderam tocar. Abração.

  2. Rosana Chrispim says:

    Esqueci de acrescentar que, embora não seja esse seu objetivo, seus olhares dariam um livro infinitamente melhor que aquele cujo título é algo assim como “100 lugares que você não pode deixar de conhecer” (será isso?), porque mais sinceros e mais ricos e compõem sua própria bagagem.

  3. Constança says:

    fiquei com vontade de comer uma “francesinha” como só no Porto fazem

    belos relatos os seus Dalila, livrarias , gastronomias, vidas e olhares de quem aproveita o que vê e sente

    abraços
    Constança

  4. Constança says:

    cadê mais olhares????????????????????????