passeio gastronômico

Com as desculpas aos leitores pelo sumiço desta escriba (o maio, maduro maio, foi um mês agitadíssimo por estas bandas, transbordante de trabalho e satisfações que serão contadas aos poucos), voltemos aos nossos olhares viajantes pelas terras de Camões e de meus antepassados no último abril em Portugal. Proponho um breve passeio pela gastronomia, com ênfase na da Madeira que, por motivos óbvios, me é mais familiar.
Antes de falar dos pratos madeirenses, propriamente ditos, será preciso passear primeiro pelo Mercado dos Lavradores, referência obrigatória da cidade, afim de conhecer os produtos da terra, com os quais são preparados os pratos regionais. Antes, é recomendável observar a bela arquitetura do prédio do final dos anos 30 do Séc. XX, com seus belíssimos painéis de azulejos localizados na entrada e no seu interior. As floristas, em seus trajes típicos e coloridos, dão o toque de festa popular, logo à entrada.

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Mercado dos Lavradores – Ilha da Madeira Foto: DTV

Vale a pena examinar a variedade de hortaliças e frutas, dispostas cuidadosa e artisticamente em cestos de vime, outro produto local. Com seu sistema de policultura, graças aos micro-climas da Ilha, há uma grande variedade de hortaliças e frutas locais (as tropicais cultivadas próximo ao mar, como o maracujá roxo – há pelo menos 4 espécies deles – a anona – uma variedade da nossa ata ou pinha, só que maior, com mais massa e menos caroço – a manga, a papaia, o abacate (que lá é no feminino “pera abacate”), a banana, figos, nêsperas, junto à batata, feijão, trigo e o milho. Já nas regiões mais elevadas, são cultivados as pêras e os pêros (maçãs verdes), junto aos pastos, pinhais e bosques.
Passeio e preâmbulo findos, vamos aos pratos que podem ser encontrados nos bons restaurantes da cidade (é claro que na casa dos parentes e amigos é ainda melhor) e para que sejam realmente refeições típicas, podem iniciar com a degustação de uma poncha (a caipirinha de lá, adoçada com mel de abelha ) e encerrar com um cálice de um estupendo madeira (malvasia ou terrantez, meus prediletos) a acompanhar a sobremesa. Bem, pode-se começar o banquete com uma saborosa sopa de moganga (abóbora) ou de trigo, ou de feijões verdes, acompanhada de bolo do caco com manteiga de alho (pão típico de farinha de trigo e batata doce, assado numa frigideira de pedra, que vem à mesa ainda quente), uma carne de vinha d’alhos, acompanhada de inhame cozido, como prato principal, finaliza uma soberba refeição. Outra opção pode ser uma espetada (carne de vaca tenra espetada num pau de louro e assada na brasa) acompanhada de milho frito (polenta), o mais madeirense dos pratos. Para meu gosto pessoal, ganha em elegância e sabor um arroz de lapas (um delicioso marisco que também costuma ser preparado grelhado, com uma pelota de manteiga, e servido na própria casca) acompanhado de rolos de espada preta (um delicado e branquíssimo peixe que de preto só possui a pele, a qual é convenientemente raspada antes do preparo). Ainda no quesito peixe, não é possível sair da Madeira sem saborear um bife de atum ou cavalas ao molho de vilão, cujo aroma de segurelhas, louro e coentros já vale o prazer gustativo.

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atum, espada preta, anona (Mercado dos Lavradores); lapas grelhadas. Fotos dtv

Voltando aos frutos do mar, os caramujos (para o meu paladar marítimo, muito mais agradáveis, que o escargot francês), são item obrigatório e exótico, uma vez que para serem degustados é necessário usar como talher um alfinete (sim, desses de cabeça). Há ainda as castanhetas, deliciosos peixinhos servidos fritos, as ovas de espada, também fritas, a dourada grelhada, enfim… No que se refere aos doces, a coisa vai longe, mas ficaremos nos mais típicos, começando com o afamado bolo e as broas de mel (este mel é de cana de açúcar, fabricado nos velhos engenhos da Calheta, do Porto da Cruz e do Funchal – os 3 que restaram dos 57 que havia na Ilha em 1906), o bolo família, as queijadas, os rebuçados (balas) de funcho (erva doce) planta aromática encontrada em tal abundância que acabou por dar nome à cidade do Funchal. A novidade (sempre a amiga Manuela é que me levou a elas) foi o bife na pedra, no simpático “Fora d´oras”. Trata-se de um belo pedaço de filé mignon que vem à mesa ainda cru, sobre uma pedra fumegante e ali vai sendo assado à moda do freguês: mal passado, ao ponto ou bem passado, sem que a pedra perca o calor. O prato vem acompanhado de molhos, salada e uma batata assada com a casca, envolta em papel alumínio. Apesar de não ser uma tradição madeirense, foi devidamente apreciado, acompanhado por um Esteva tinto (do Douro).

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pescadinha com o rabo na boca; chocos na própria tinta;arroz de tamboril e bife na pedra. foto dtv

Já para relacionar as iguarias de Portugal Continental, precisaríamos de um compêndio. Registrarei apenas algumas curiosidades (aquelas que nos foi possível degustar), como a “pescadinha de rabo na boca” (uma pescada branca que, depois de enrolada como se fosse um oroboro, é frita, e vem à mesa, literalmente, com o rabo na boca) acompanhada de “açorda alentejana”, uma papa feita de pão amanhecido molhado na água fervente, regada com muito azeite, alho e coentros. Muito bom, mesmo. Em Sesimbra, bem como em toda Costa da Caparica (só par ficarmos nos arredores de Lisboa), o exotismo do mar impera nos cardápios. A ressaltar, o “Choco nas tintas”, uma espécie de molusco que, após aberto é envolvido na própria tinta. Apesar do gosto com que a amiga Isabel o devorou, confesso, que não tive ânimo para degustá-lo, devido ao seu aspecto, digamos, um tanto quanto bizarro. Por sugestão de Beatriz, degustamos o “arroz de tamboril” (uma espécie de risoto bastante mole, ao qual é adicionado um peixe finíssimo e maravilhoso, o tamboril, além de camarões), servido numa cumbuca de barro fumegante. Indescritível! . “Bôla de carne”, “pataniscas de bacalhau”, “lombo de porco com migas de broa”, são pratos típicos do Norte. Já a carne de porco preto, raça criada com produtos naturais no Alentejo, servida nas mais variadas formas (entrecosto, lombinhos e bifanas), é digna de ser apreciada. Do pernil do dito cujo se produz o afamado presunto “Pata Negra”. Quanto aos doces… Não esquecer das tão populares sardinhas assadas, tão lisboetas… Bem, no departamento da doçaria, ficaremos apenas no pastel de Belém (nem pensar em comparações com aquele que é servido por aqui com esse nome, mas os da fábrica ali bem pertinho da Torre do mesmo nome e de cuja receita apenas 3 funcionários conhecem o segredo) Vale a pena enfrentar as enormes filas para saboreá-lo. Incomparável! No Brasil, quando se fala em culinária portuguesa, logo é citado o bacalhau, que, na verdade, está longe de ser a mais popular das iguarias do país, como tentamos aqui comprovar. Omitiremos propositalmente os vinhos, por serem eles muito conhecidos aqui e por ser esse um departamento dominado por especialistas com seus jargões e frases de efeito. Como mera e moderada apreciadora do líquido, gostaria de mencionar um que nos foi oferecido pelo Fernando Jorge, no Porto, e que, representou a grande surpresa do Douro: um inesquecível Alvarinho (de Monção), um verde com uma personalidade delicada e absolutamente encantadora. Talvez porque a companhia de pessoas queridas o transformassem em algo ainda mais especial. Fico por aqui, pois já é quase madrugada e depois de toda essa recordação gustativa, será necessário um assalto à dispensa. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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7 Responses to passeio gastronômico

  1. Rosana Chrispim says:

    A qualquer hora um passeio, uma viagem dessa faz um verdadeiro alvoroço nas papilas gustativas, mesmo quando se trata de itens normalmente não tão apreciados. Redundante dizer, saborosíssimo! Em todos os sentidos (os 5 + os literários!). Ensejado agora, antes do almoço, é uma tortura… e um privilégio.

  2. passei aqui rapidamente para olhar e encontro paladares familiares e óptimos todos eles
    comer é sem dúvida um dos prazeres mais encantadores e que necessita de conhecimento, tempo, meios, educação

    enfim,, obrigada pelo passeio
    abraços e boa semana
    Constança

  3. Isa says:

    Agora digam lá se não falta só o aroma e o paladar ao vivo? O apetite já cá está.

    Só um pequeno reparo, na legenda da 2ª foto onde se lê arroz de tamboril está uma foto de lapas grelhadas.

  4. Dalila says:

    Desculpem, falha nossa! A Alice (minha filha e atual assessora para assuntos cibernéticos, que entende muito mais disso do que de gastrononia, trocou os pratos – até porque ela não aprecia nenhum deles!). Ligeira, acaba de corrigir o erro. dtv

  5. Isa says:

    Olá Alice
    Se algum dia tiver que empurrar um carro atascado numa praia de um belo país além mar, verá como bem lhe saberá devorar não um mas todos os pratos supra mencionados.
    Pergunte a quem sabe, a Mestra deve estar aí por perto… : ) : ) : )

  6. Nina says:

    Nah é ora me gabar mas a copmida madeirense é melhor.
    Como esta nah hé de certeza.
    E digo já nah é so este tipo de comida madeirense há mt +!!!!

    XD / =)

  7. Isa says:

    É obvio que existe muitos e muitos mais pratos “madeirenses”. E que ninguêm lhe tire o seu valor, mas quando se está a falar em comida madeirense estamos também a falar de comida portuguesa, certo?!
    Apesar de uns zum-zuns deste ou daquele Madeira, é portuguesa, vero?!