Uma possibilidade de re-encantamento

Hoje (ou ontem, pois já é outro dia), o Alpha, iluminado por inteligências, em clara manhã de quase primavera, ouviu o ilustre Professor Doutor Luiz Roberto Alves, recém-chegado de Florença, onde, por mais de um ano, desenvolveu uma pesquisa na Faculdade de Ciência Política e Sociologia da Universidade daquela cidade italiana. Foi dela que veio nos falar o professor.

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“Este foi um trabalho fruto de paixão e solidão, paixão pela pesquisa e solidão pelas estranhezas das diferenças que por lá encontrei. A Itália não tem nada do Brasil. Nós, sim, temos algo deles, mas somos muitos diferentes e… especiais. O Brasil recebeu o mundo e nós teríamos que dar uma lição ao mundo do que aqui se deu, do modo das relações humanas, mas culturalmente não estamos percebendo isso.” Assim começou o professor a brilhante palestra que denominou de “Re-encantamento do Trabalho & Gestão de Bens Comuns (as culturas do trabalho na disputa de valores da sociedade internacionalizada)”, título também da pesquisa concluída, na qual trabalhou a análise de discurso (sócio-semiótico), ou seja, “um trabalho do pensar um mundo de sinais que penetram no mundo do trabalho a partir da Alemanha (Leste/Oeste), a Guerra Fria e o Neoliberalismo (não se trata aqui, disse, de ideologia, mas simplesmente porque as coisas precisam ter nomes) e sua vitória (quase) total, resultando na precarização do trabalho que mexeu profundamente com o sistema simbólico e com os valores.”
O professor partiu de perguntas como: “o trabalho está moribundo ou ainda cria sentidos? O mundo do trabalho, que vem perdendo significações desde o início dos anos 90, estaria reagindo à tendência chamada de capitalista, criando um desvio?
Para respondê-las, valeu-se de um trabalho de análise de discurso (“porque não tem outro jeito – o espaço nervoso que é o da linguagem”) que revela haver, sim, um conjunto de sinais sociais que vão muito além da fábrica (“sem a centralidade do trabalho a gente nem sequer salvará a terra”), ou seja, todo um campo de associações, ligadas ao ato de “ganhar a vida”. Sua análise de discurso foi focada em discursos aprovados por instituições representativas do trabalho (CUT, no no ABC – Brasil, CGIL, na Itália e DGB, na Alemanha), lembrando que esses “sinais” também podem ser revelados por “novas narrativas” detectadas na arte. “Os escritores são centrais, se não houver nova estética, nova linguagem, não está acontecendo nada. Eu os leio e crio as conecções imediatas. O gesto poético acompanha o fazer. Tem que estar na linguagem para estar no mundo”.
Diante dos paradigmas criados pelos organismos mundiais, como o OCDE (leia a respeito texto de LRA, clicando aqui: www.alpharrabio.com.br/LuizRobertoart2_jan_jun_2007) que ditam padrões de “desenvolvimento”, construindo, com grande coerência grandes “metáforas” do que seria “desenvolvimento”, com políticas e receitas à luz do sistema capitalista de desenvolvimento (as quais fazem com que acreditemos que, se estamos fora da “cartilha”, não nos “desenvolvemos”), mas que não demonstram nenhuma preocupação com o trabalho, o professor detecta esses “sinais” de “desvio”, caminhos (“os céticos dizem que não há, mas o pesquisador tem obrigação de ver”).
Otimista, o professor acredita que, com inteligência e algumas ousadias e atitudes críticas, comunidades vão ganhando seu lugar, ganhanhdo um novo sentido para o verbo trabalhar, que pode voltar a “encantar” ou “re-encantar”. A sociedade neoliberal não “ganhou” por completo, porque o mundo do trabalho foi capaz de fazer a crítica devida. Não é mais o opositor feroz, mas se opõe para criar uma nova trilha, conclui o professor, deixando a platéia “re-encantada”.

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Claro está que, ao valer-me aqui de anotações de alguns fragmentos que “pincei” de uma palestra de duas horas, arrisco-me perigosamente a não dar coerência a esse discurso e sequer traçar uma pálida idéia de algo tão profundo e consistente que ali foi dito. Ainda assim, aí ficam, como “aperitivo” a provocar o desejo de virmos a ler as mais de 200 páginas do texto de Luiz Roberto Alves, resultante da pesquisa, o qual esperamos ver publicado em breve.
Com isto e contrariando decisão anterior, retomo as minhas atividades blogueiras (“todo o mundo é composto de mudanças,/ tomando sempre novas qualidades”, já dizia o Vate e, diga-se, mudar é também o preço da sobrevivência). Não sei ainda com que freqüência, nem com que energia será conduzida esta navegação, só sei que… La nave va… , compartilhando “solidões” ao ritmo das “ansiedades”. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to Uma possibilidade de re-encantamento

  1. Isa says:

    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
    Muda-se o ser, muda-se a confiança
    Todo o mundo é composto de mudança
    Tomando sempre, tomando sempre novas qualidades
    E se todo o mundo é composto de mudança
    Troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança.

    Adaptação de José Mário Branco a partir do poema de “Mudam-se os Tempos, mudam-se as Vontades” de Luís Vaz de Camões

    ………………
    Na pauta da Harmonia, além da clave do sol, outras nota têm que existir, umas rectilíneas outras curvilíneas. Assim se edifica uma bela melodia.

    Por mais “verticais” que sejamos, voltar a trás nunca será sinónimo de fraqueza mas sim de discernimento e grandeza. Obrigado Dalila

  2. Valdinéia says:

    Obrigada pelo blog
    Obrigada pela partilha.
    É motivador! Eu também acredito no re-encantamento!
    E a forma de como ela vem sendo tratada de fato possibilita isso.
    Continue re-encantando! O universo precisa de gente assim!

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