Sebo não é depósito de papel velho

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Com freqüência nos perguntam o significado da palavra alpharrabio e, pacientemente, temos sempre explicado que essa palavra, na verdade, deveria ser grafada com “f” e com acento (alfarrábio), pois é uma palavra de origem árabe, derivada de Alfarabi, filósofo que viveu em Bagdad no séc. IX, e de acordo com o nosso Aurélio significa “livro antigo ou velho, de pouco préstimo ou valioso por ser antigo”. No nosso caso a palavra foi estilizada, acrescentando-lhe o “ph” e tirando-lhe o acento para melhor se adequar ao logotipo de letras carcomidas, dando idéia de coisa antiga.
Em Portugal a palavra alfarrábio ainda é comumente usada para designar um livro velho e também uma livraria de livros idem, e o alfarrabista é aquele que os comercializa. No Brasil, a livraria que comercializa livros usados é conhecida como sebo. Desconhecemos a época em que essa palavra passou a ser adotada em nosso país, mas certamente deriva da idéia de que um livro usado é ensebado pelo próprio manuseio constante. E o livreiro de livros usados, ainda de acordo com o Aurélio é sebista. Além dessa indagação, com freqüência sou surpreendida com exclamações de surpresa, de pessoas que desconhecem completamente essa atividade. Há aquelas outras ainda, que apesar de a conhecerem, não adquirem livros usados pois acreditem, pasmem, que o livro velho pode ser transmissor de doenças, entre outras coisas. Volta e meia alguém telefone e pergunta: de ondem falam? é “da” sebo?!!

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É claro que, numa sociedade de consumo como a nossa, onde a idéia de sucesso pessoal está ligada ao poder aquisitivo da novidade, do último modelo de carro à roupa da moda, a idéia do livro velho soa, para muitos, como uma extravagância. Felizmente, não é assim que a confraria de iniciados pensa. Os chamados ratos de sebo, que vasculham as prateleiras com a volúpia de quem garimpa tesouros, aquela edição procurada há anos, ou simplesmente à busca do prazer da surpresa, às vezes contido simplesmente no manuseio do livro, no apreciar sua arte gráfica ou no percorrer os olhos pelas ilustrações, como verdadeiro objeto de arte, de conhecimento e de paixão. Para esses, nada é comparável à surpresa, à alegria do “achado”. Um volume que, certamente já passou pelas mãos de tantos, sem que lhe tivessem notado o valor, que pode ir desde o simples gosto pessoal por determinado assunto, uma peça da coleção que cada um estabelece para si, uma primeira edição de poucos e raros exemplares no mercado, uma encadernação artística, enfim, um exemplar que represente para o seu “descobridor” algo especial ou apenas necessário a um trabalho de pesquisa.
Para se ter uma idéia do perfil desse devorador de alfarrábios, ele tem invariavelmente mais de 30 anos, quase sempre possui instrução de nível superior, possui uma cultura geral bastante boa, e adora trocar informações e contar histórias, como todo bom pescador.

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Com o elevado preço dos livros, outro consumidor descobriu a vantagem do livro usado: o estudante (ou os pais do estudante) que, antes de o procurarem nas livrarias convencionais, fazem uma pesquisa no sebo à busca de um exemplar que, na maioria dos casos, custa menos de 50% do novo. Como cada vez se lê menos, e o nosso é um país de pessoas com menos de 30 anos, este novo consumidor é o que realmente mantém os sebos em atividade.
Além desses consumidores, há outro tipo de pessoa que procura o sebo após uma limpeza na casa e um desejo urgente de se livrar do lixo acumulado durante anos. O que é pior, na maioria das vezes é lixo mesmo, que vai de cadernos escolares dos filhos que já casaram a livros de primeiro grau já totalmente rabiscados, rasgados, cheirando a mofo pelo longo tempo armazenado em úmidos porões. Essas pessoas confundem sebo com depósito de papel velho e ficam muito indignadas quando o livreiro se nega a receber o produto da faxina, mesmo de graça. Não entenderam o valor e o verdadeiro papel de uma livraria de livros usados, preservadora da memória do município, do estado, do país, do planeta, guardiões de tesouros do saber, que fazem circular obras às vezes editadas apenas uma vez e, não fossem esses caminhos mágicos do percurso do livro, seriam transformados em tiras para reciclagem. Um sebo não é depósito de papel velho e muito menos um mero comércio, um sebo é um repositário da memória.
“LIVRO NOVO É AQUELE QUE VOCÊ NÃO LEU.
EXPERIMENTE.” (dtv)

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About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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6 Responses to Sebo não é depósito de papel velho

  1. Isa says:

    Por falar em sebo, quem não se lembra das sebentas – caderno de apontamentos das aulas -, principalmente na instrução primária onde as meninas escondiam, por entre as suas paginas, lindas estampas (também chamadas de surpresas) e os rapazes optavam pelos cromos dos jogadores de futebol ou do ciclismo.

    Cochichava-se muito baixinho a troca: Dou-te a equipa toda do Sportig pelo teu Eugénio. –Tás parvo? Nem penses.
    As meninas: dou-te o ursinho risonho pela tua fada cintilante… (desconhecia-se então as Barbies e os Kens).

    De repente, o mestre do alto do estrado daquele intimador quadro preto de ardósia, com a “menina dos 5 olhos” (palmatória) descarregava a sua frutração nas minúsculas mãos desses meninos e meninas e para completar a sua grande obra deliciava-se confiscando o grande tesouro desses meninos e meninas. Sentia-se o peso do silêncio.

    Após a promessa cumprida de bom comportamento, aguardava-se ansiosamente pelo final da semana, esperando reaver o tesouro. Mas aí… surpresas das surpresas…. O nosso tesouro foi brutalmente assassinado (rasgado) para que nunca mais se repetisse a gracinha de trocas na sala de aula.

    Obrigado meu mestre, onde quer que estejas, nem sabes o quanto te agradeço pela a dor que nos ofereceste gratuitamente. Talvez não saibas mas a dor também ensina a crescer e hoje volvidas algumas décadas a minha maior paixão é fazer trocas.

    Troco paixões, afectos, ideais, sonhos, e nessa mesma sala de aulas que em tempo de eleições é transformada numa sala votos, troco um voto para que todos os meninos e meninas tenham direitos aos seus tesouros.

  2. Isa says:

    Relativamente a definição para sebo, a Dalila tem uma anotação que acho soberba que reza assim: “Uma sala de um sebo é também estação de embarque para viagens alquímicas da imaginação”

    A propósito de “Livro novo é aquele que você não leu” também poderá ser aquele que relendo encontrarei novos trilhos?!

    Na minha Aldeia onde nada se passa, a partir de 17/09 há história para contar.
    Vai realizar-se o movimento bookcrossing, um grupo de leitura que não conhece limites geográficos e, vai encontrar livros de ficção em cafés, jardins, transportes públicos e em diferentes edifícios públicos. Quem gosta de livros, não vai, com certeza, importar-se de os deixar para serem encontrados e lidos por outros.
    Gostar de ler é gostar de partilhar.

  3. Constança says:

    Maninha as fotos estão ótimas/optimas

    Dalila gostar de ler é algo muito especial, nunca soube se se aprende ou se nasce com esse gosto, com os dois, sei que filhos de leitores nem sempre são leitores e vice versa. apesar de os educadores sempre dizerem que ajuda muito o exemplo de verem os mais próximos a ler.
    Uma casa sem livros é um espaço mortinho.
    abraços
    Constança

  4. Juliane says:

    Obrigada!

    Primeiro por gostar de livros.
    O objeto livro é por si é fascinante, carrega o mundo em suas páginas, cuida e guarda a história, transparece e compartilha sentimentos, anseios, ambições, sem barreiras temporais. Manusear suas páginas, sentir o cheiro, a textura do papel, constitui ato mágico, dando-nos uma ilusão de interação com o autor ou mesmo com os leitores anteriores.

    Segundo por cuidar deles.
    A preservação não é apenas de um objeto físico, mas do pensamento materializado, que, a partir do livro pode ser interpretado, reorganizado, analisado, e reconstruído. O leitor tem a oportunidade de partir de um conhecimento já existente num ato de compreensão do tempo, ou, apenas fruir livremente, para o bem estar do espírito.

    E terceiro por compartilhar a riqueza.

  5. Zaneide says:

    Quem não entende a importancia de um Sebo, por se tratar de livros velhos, este sim, está velho e ultrapassado. Um sebo não vende apenas livros, mas também, história e descobertas. No amarelado das páginas está a importancia de adquirir uma obra q ja passou por outras mãos e contribuiu com a construção do saber de tantos outros leitores.

  6. HELOISA says:

    Isso é sinal de falta de conhecimento. Talves se lessem um pouco mais saberiam o que é “SEBO”.
    Uma dúvida, Como vocês combatem o cheiro forte pelo acumulo de tamtos livros?
    Estou com este problema!