Anotações de leituras

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foto: dtv

Terça 24
“Um livro por dia – minha temporada parisiense na Shakespeare and Company” (Casa da Palavra, RJ, 2007) é o título do livro de Jeremy Mercer, um repórter canandense que chegou, por acaso, à mítica livraria de George Whitman, à margem esquerda do Sena, no quarteirão latino, em Paris e acabou morando lá por alguns meses . Dessa temporada resultou este livro (parece que a experiência foi tão boa e lucrativa – o livro, diz-se, tem vendido muito bem – que o rapaz, depois disso, passou a morar noutras livrarias e já projeta novos livros). Não conhecia em detalhes a história de George (um excêntrico anarco-comunista) que chega a ser mais excêntrico do que Sylvia, a primeira proprietária (em outro endereço) da citada livraria. George sempre praticou em sua livraria, aquilo que Derrida chamou de “Hospitalidade total”, ou seja, “dar ao outro a permissão de fazer a revolução em nossa casa”, ou seja, “hospedando” de forma escancarada, escritores ou candidatos a. Acredito que o fotografei, em 2005, sem saber que era o próprio. Em meus arquivos de viagem, há uma foto de um ancião desgrenhado, cabelos compridos, vestindo calças de pijama e sapatos sociais, nu da cintura para cima, saindo da Shakespeare & Co. e, ato contínuo, sendo conduzido delicadamente, por um jovem, para o seu interior (numa porta lateral). Achei, naquele momento, que se tratava de um dos escritores hóspedes da livraria (na verdade aquele jovem que o conduzia é que devia ser um deles).

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foto: dtv

Agora, depois de ler o livro e pesquisar suas imagens na Internet, acredito tratar-se mesmo do próprio George e que, lamentavelmente com mais de 90 anos, esteja acometido de demência senil. Apesar de já conhecer a história da livraria no que podermos chamar de “Era” Sylvia Beach, através de sua própria autobiografia e do já também mítico “Paris é uma festa”, de Hemingway, no qual muitas páginas são dedicadas à livraria, achei esta segunda parte da história, a da “Era” George, que já dura 60 anos, absolutamente fascinante. Essa história é tão importante na vida da cidade que a livraria foi transformada numa fundação, como também já é considerada patrimônio da humanidade. Ao saber disso, até fiquei mais animada em relação ao Alpharrabio. O que são 15 anos diante desses 60? Fiquei tão excitada com a leitura do livro, que o sono perdido só veio dar o ar da graça lá pelas 4 da manhã. (dtv)

Orquidea

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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3 Responses to Anotações de leituras

  1. Constança says:

    Este livro tá aqui em casa e será um dos próximos a ser degustado.

    Gostei da orquidea as minhas também estão floridas

    abraços
    Constança

  2. Marcos says:

    Caríssima Dalila,

    o Alpharrabio já é nossa “Shakespeare and Company”. De fato, quinze anos não são nada. Resistir e avançar, “gritando em meio a selvageria”, como diria Merimée…
    Forte abraço,
    Marcos

  3. Antonio Possidonio Sampaio says:

    Dalila, esta manhã de setembro onze de zero sete, beirando o início da Primavera, ao abrir o site do Alpha nosso querido, alimentado por você. antes de mais nada, gratificou minha alma carente de alimento constantes dos registros: flores, lembranças de viagem, palestras de gente comprometida com a poesia, mistérios envolvendo o livro e as paixões que ele proporcionam, etc. etc. A propósito da palavra sebo (prefiro alfarrábio), me lembrei que na minha época de faculdade no Largo de São Francisco, tive a oportunidade de estudar em sebentas, isto é, apostilas (“sem a responsabilidade da ilustre cátedra”), que reproduziam o que os mestres diziam em classe. Uma herança coimbrã, com certeza, a exemplo do lente, que antigamente liam para os alunos manuais de direito. Na minha época a prática já havia sido abolida, mas o espírito coimbrã continuava. E lá me vou desviando do foco. O que eu desejava mais era te dizer que estou adorando esses registros permeados de poesia, flores e tudo mais que que servem de alimento para mim e o Salvador Bahia, e também pro Altério, Outrossim e Outrassim, que está alertando sobre a necessidade de escrevermos uma obra coletiva sobre o Alpha querido com todos esses ingredientes. Esbarro, pois noto que daqui a pouco tenho que pegar a carona do Valdecirio. Abraços do APS