Poesia do olhar e da solidão

LeonardoColosso
foto: leonardo colosso

Não é de hoje que admiro o trabalho de Leonardo Colosso, o fotógrafo. Em abril de 1992, Alpharrabio ensaiando os primeiros passos, tivemos a honra de promover a “Fotopoesia”, exposição de 18 fotos em preto-e-branco, acompanhadas de breves poemas. O autor, então, alertava: “as fotos não são ilustrações das poesias, nem as poesias são legendas das fotos, antes, buscam uma interação entre linguagens”. Foi um sucesso. Em julho de 1996, escrevia eu, no Diário do Grande ABC (texto posteriormente publicado no meu livro “As Artes do Ofício – um olhar sobre o ABC”) sobre outra exposição de Leonardo, “Fotografia e Preto e Branco”, na Casa do Olhar em Santo André. Entre outras coisas, dizia: “Assim como nas telas de Giorgio de Chirico, a solidão do homem moderno na cidade grande é o tema do fotógrafo. O espaço urbano de Colosso, assim como no do pintor, é vazio de gente. Grandes espaços à espera do homem que ali deixou as suas marcas, no rigor geométrico de seu traço ou nos sinais de destruição, mas que o olhar do artista soube captar. A cidade, quase sempre surpeendida pelo clique da câmera de Colosso em horas mortas, possui como elemento vivo apenas a luz, clima mágico, como se vista pela primeira vez. Quando o homem está presente, é a sua pequenez e solidão que salta diante do próprio espaço que ocupa. A figura humana parece petrificada na paisagem urbana, como negação da velocidade, do stress e da violência cotidiana. A cidade de Leonardo, assim desnudada de sua habitual roupagem humana, transforma-se em corpo incômodo, questionador e inquietante. Mesmo quando tira o homem de seu habitat urbano, o fotógrafo não o desmaterializa – antes, o faz presente, apontando suas marcas, detalhes sutis de poesia que ficaram colados àquele instante. No entanto, ao reclamar o nosso olhar e o nosso estranhamento diante dessa tremenda solidão, o que se pode perceber é justamente o resultado da presença humana, que ora está ali explicitamente, como elemento pertencente à paisagem, ora apenas sugerida, pelos sinais de sua passagem (…) Colosso parece querer extrair da cidade vazia uma idéia palpável de humanidade, recriada pela arte.”
Anoto isso, justamente porque acabo de voltar do vernissage de mais uma exposição de Colosso, VER(f)RÊNCIA, no Salão de Exposições do Paço Municipal de Santo André, São Paulo, e sobre a qual poderia perfeitamente repetir aquilo que escrevi há mais de 10 anos, acrescentando que a arte de Leonardo ficou ainda mais refinada e sutil. Um mundo de delicadezas ali é oferecido, coisas de quem domina o ofício de forma soberba. Recomendo com entusiasmo e, como forma de aguçar o apetite, sugiro clicar na coluna aqui ao lado para uma visita virtual à exposição. Nada que substitua, no entanto, a visita real, aberta ao público até o dia 26 de setembro, para o verdadeiro impacto estético. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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3 Responses to Poesia do olhar e da solidão

  1. Isa says:

    “Quanto maior a luz, maiores as sombras”

    Nesta bela foto, essas sombras estão bem representadas na solidão humana e na envolvente paisagem anti arquitectónica.
    Fantástico.

  2. Adélia Nicolete says:

    Meu nome não tem Colosso por simples opção familiar. Não fosse assim, seria uma prima ainda mais oficial do Leonardo. E é na condição de prima, anterior à de admiradora, que escrevo esses comentários.
    Convivo com a inquietude desse artista desde muito pequena. Ele sempre foi o meu primo intelectual, inconformado, indignado com as injustiças que desde tanto tempo povoam essa nossa terra. Foi o primo da política estudantil, do mestrado sobre os bóias-frias, mas também o primo da poesia, da literatura, do olhar solidário sobre o ser humano.
    Só mais tarde descobri o primo fotógrafo e, como era de se esperar, ele também se fez admirado. E é com propriedade familiar que afirmo que seu olhar de fotógrafo registra e perpetua o que lhe vai pela alma.
    Não é à toa que ele escolhe determinados temas, que sua atenção se desvia para certas geometrias solitárias, como observou a Dalila, ou sobre o mais humano em seres humanos cujas condições parecem querer-lhes roubar a humanidade.
    Nessas fotos eu vejo e revejo meu primo de tantos anos. Suas fotos lhe revelam. Olhar crítico, sociológico, poético, geométrico, e, sobretudo, cúmplice.
    Ouso dizer que há um pouco de Leonardo Colosso retratado em cada um daqueles registros.