Anotações de leituras

Aí vão mais algumas anotações de leituras, retiradas de meus diários

segunda 12

O magro volume é um primor gráfico: hermeticamente fechado, embalado por um plástico transparente, que revela o título sobriamente impresso em preto sobre papel verde. Uma enigmática etiqueta instiga a violação: “Acho melhor não comprar!” O volume está costurado dos dois lados. É preciso obedecer ao rito para alcançar suas páginas: puxar a linha do lado direito, descosturá-lo, encontrar ali um marcador de páginas, de plástico rígido, de dupla utilidade. Com ele, cortar as folhas dobradas e ver surgir, uma a uma, as páginas impressas, oferecendo-se à leitura. Eis aí o fato estético, de que falava Borges. O texto, um delicioso conto de Herman Melville, “Bartleby o Escrivão” (Cosac Naif, 2005), é uma admirável peça da arte da narrativa, capaz de provocar reações passionais, como a do escritor espanhol Enrique Vila-Matas que escreveu nada menos que dois livros inspirados nesse personagem da negação, Bartleby e companhia e O mal de Montano.

segunda 26
Depois de Bartleby e Co, mergulho no Mal de Montano (Cosac Naif, 2005), do impagável espanhol Vila-Matas. Uma obra que reinventa o romance, verdadeiro hino à literatura, homenagem profunda, inventiva, passional. Ele próprio, Mila-Matas, transformado em literatura, como seu personagem. Em ambos, a forma (enganosa) é de diário, mas o autor adverte: “um diário não pode ser mero relato, muito menos sincero, a sinceridade é uma chatice”. Tem razão, toda a razão e ele, por mentir com tanta competência, não resvala na chatice uma vez sequer.

quarta 4
Chegou a vez de Viagem Vertical ser lido (ainda Vila-Matas, também pela Cosac Naif, publicado anteriormente, em 2004). Neste emblemático início do ano em que completarei 6 décadas de vida, ler nesta Ilha de Santo Amaro, minha 2ª. residência, um romance de um espanhol, ibérico como eu, que ambienta a parte final deste diário-romance justamente na Ilha da Madeira é, no mínimo, intrigante (seria instigante?). Impactante, eu diria. Para o personagem, a Madeira é apenas pedregulho trágico, no meio do azul atlântico onde é possível “sintonizar a cultura”. Para mim, a Pátria e a insularidade definitivas. Federico Mayol, o personagem, é um homem de 77 anos que, após ser expulso de casa pela mulher, tenta refazer sua vida, mergulhando numa incrível viagem (interior?) vertical, aprimorando-se na arte de “desaparecer” ou “afundar”. A literatura e as viagens são os ingredientes especiais deste excepcional romance, assim como nos dois outros romances, nos quais a literatura é o próprio tema. Um grande romance de um excepcional escritor, sempre ancorando em Portos metafísicos (“às vezes, surjo do que escrevo como uma serpente surge de sua pele”)
Diferentemente do personagem de Vila-Matas, nesta ou naquela ilha, na Pátria ou em viagem, cercada de rios de gente, aspiro a surgir daquilo que um dia virei a escrever. Dessa forma, ouço as águas – oráculos – interpretando-as, bússolas para a viagem que não mais poderá ser horizontal. Ainda preciso visitar cidades não visitadas para continuar a viver. Ilha entre ilhas, preciso, ainda, decifrar oceanos.
Chove, e, ao contrário da chuva de Pessoa, a chuva deste janeiro é vertical, facilitando o mergulho. Aceito o convite do personagem e empreendo uma viagem rumo ao aprendizado da arte de afundar.
recomendo vivamente a leitura de todos eles. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to Anotações de leituras

  1. Maravilha de espaço, impressionantemenete lindo! Parabens. Estarei indicando nas minhas páginas. E quando puder confira as novidades nas seções Guia de Poesia, Tataritaritatá, Música, Blogs, enfim, tudo isso na minha home page abaixo. Vou adorar sua visita e comentários.
    Beijabrações, bom final de semana & tataritaritatá!!!
    http://www.luizalbertomachado.com.br

  2. Higino Afonso says:

    Belo Livro este de Henrique Villa Matas!
    Assume um grande significado para quem é da Madeira e percebe, enquanto insular, que a insularidade psicológica e até antropológica (embora o autor não foque esta última) é uma das características da condição Humana.

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