Anotações de leitura

Aí vai mais uma anotação de leitura, retirada dos meus diários:

sábado 5
Sob o guarda-sol, ouço a falsa loura ao lado, e anoto: “quem não tem o hábito de leitura, cai” (!!). A surpresa durou pouco: a seguir, a moça completa: “é propaganda enganosa! As letras da observação na placa da vitrina eram minúsculas! A roupa não custava cem reais, mas três vezes de cem reais!”, esbraveja a moça, em sua fúria de consumista enganada. Assim como no romance de Marçal Aquino que tenho entre as mãos, onde os amantes Cauby e Lavínia, imprudentes, acham-se invisíveis aos olhos da cidade, aqui, na areia, delimitados pela sombra, os veranistas expõem intimidades, comem, arrotam, peidam, colocam o dedo no nariz, deitam-se e roncam. Ninguém os ouve (supõem), ninguém os vê, protegidos de sombra e liberdade, os bons modos deixados na urbe, nos escritórios, nos consultórios, nas empresas, no comércio. Aqui, sombreados, despidos dos trajes habituais, são literatura em estado puro. Apanho outra misteriosa frase e, surpresa pelo tema, torno a anotar: “agora que vai ganhar o Prêmio Nobel!…”. Seria pura força de expressão essa frase, ou o rapaz referia-se mesmo a algum candidato ao Nobel. Se sim, em que categoria? Literatura?
No cotidiano do ócio, regado a suor e a cerveja as conversas podem atingir terrenos insuspeitados.
Entretanto, a leitura (sem cerveja) de “Eu receberia as piores noticias dos seus lindos lábios” (Cia. das Letras, 2005) avança em seu terreno tropical e eu, ainda ilha, nesta Ilha de Santo Amaro, tento livrar-me do estranhamento da tropical continentalidade do seu texto e ambientação, mas identifico-me com o intertexto, prova de amor à literatura deste autor brasileiro, de olhar tão cinematográfico. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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One Response to Anotações de leitura

  1. Isa says:

    A propósito de bons modos: anos atrás recebi uns turistas chineses. O desconhecimento cultural, dos costumes nos mais elementares gestos, era reciproco. Começou logo na chegada, eu toda “lampeira” fui cumprimentá-los com 2 beijinhos da face, recebi em troca um passo atrás e uma pancadinha nas costas.
    Com prazer, mostrei-lhe os nossos melhores “cartões de visita” – as nossas praias de areia fina, os nossos campos verdejantes impregnados de doces e suaves aromas, os nossos museus, entre outros tesouros.
    A expressão facial destes visitantes era sempre a mesma, impassível. Era-me completamente impossível saber se o passeio era do agrado ou não.
    Mas, meus amigos, o melhor foi na hora da refeição: Fiz questão de lhes servir alguns pratos da boa cozinha portuguesa. Às tantas, comecei a ouvir ruidosos sons provenientes dos respectivos estômagos dos meus convidados. Alarme, agora é que arranjei o “bonito”, pensei que estavam mal dispostos…
    Mas não, acontece que estavam a gostar da nossa cozinha e pela 1ª vez consegui, entre arrotos, deslumbrar-lhes alguns sorrisos.

    Conclusão, não há bons nem maus modos: a cada cultura, os seus modos; pespegue-lhes um bom repasto, se houver alguma eructação é sinal de “comunicação”…