Anotações de leitura

Livros net3

quinta 23
La tregua, romance do uruguaio Mário Benedetti (Seix Barral Buenos Aires – também publicado no Brasil – A Trégua - pela Editora Brasiliense, 1989, e pela Martins Fontes 2000 -a tradução de Mustafa Yazbek, da Brasíliense, é mais bem cuidada) é uma narrativa cativante, construída a partir de quase-nadas cotidianos, mas que deixam o leitor em suspenso. Pergunto-me quantos livros dessa mesma grandeza me terão escapado e estarão por aí, à espera de minha leitura? Isto sim é um escritor experimental (como, afinal, o são todos os bons escritores) que não precisa mais do que o mais banal cotidiano para experimentar e o faz com uma desconcertante simplicidade (será?), em forma de um simples (será?) diário, sem malabarismos linguísticos. Expõe ao homem o próprio homem, descarnado em seus sentimentos de solidão e desamparo. Esse homem comum, no entanto, é também protagonista de um dos singelos e comoventes casos amorosos que já vi narrados. Se já admirava o poeta, fiquei refém do ficcionista impagável a quem, a partir de hoje, me declaro fã incondicional. Humano, por demais humano, transmissor de humanidade.
Em tempo: Após a leitura de um grande livro sempre sou surpreendida por um sentimento que, no mínimo, me soa esquizofrênico, ou seja, chego a desejar que ninguém mais leia a obra que acabo de ler, como se fruisse de um amor secreto que não pudesse ser compartilhado. Uma sensação de que a obra foi escrita só para mim, tamanha a intimidade revelada (acho que o caso é grave…)
Em tempo 2: Acabo de ler uma notícia que dá conta de uma nova tradução de Benedetti no Brasil, chegando às prateleiras das livrarias no próximo dia 11. Trata-se do seu primeiro romance, publicado na década de 50, Quem de Nós, pela Record, editora que também publicou outro título de Benedetti, A Borra do Café (1998), um romance que remete à própria infância do escritor em Montevideu. Uma pena que sua poesia, traduzida no mundo todo, ainda não esteja disponível ao leitor do Brasil. Apenas uma antologia (também da Editora Record, 1988), há muito fora de catálogo, pode ser garimpada em alguns sebos. dtv

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
This entry was posted in Anotações de Leituras. Bookmark the permalink.

2 Responses to Anotações de leitura

  1. Constança says:

    Oi

    também gosto muito do poeta Mário Benedetti , prosa não conheço, fiquei super curiosa

    obrigada pela dica

    abraços
    Constança

  2. Isa says:

    A propósito de bons escritores, ontem foi atribuido o Nobel da Literatura – 2007 a Doris Lessing que apesar de ter nascido na Pérsia (actual Irão) é considerada inglesa…

    Uma grande senhora de fortes lutas e maiores paixões, de uma frontalidade estonteante (lembra-me um pouco a Agustina Bessa-Luís), e com um enorme sentido de humor. Aliás só assim se compreende a resposta que deu quando soube que tinha ganho este galardão:
    - “Decidiram dar-mo agora. Porquê? Será que têm mais razões para gostar de mim agora do que antes? Acho que como não podem dar o Nobel aos mortos, acharam que era melhor despacharem-se, antes que eu pife”