Personagem

espólio

Efigênia Maria, era este o nome, cuidadosamente grafado, à maneira de ex-libris, nas páginas inaugurais dos volumes encapados com papel de presente colado com fita adesiva (gesto de ciúme e posse).
Relicários, os livros guardavam: cartas, recortes, postais, versos copiados, fotos (olhares aprisionados).
Efigênia Maria amava a literatura e seus autores e deles colheu autógrafos
(Vinicius, Bandeira, Lygia – os preferidos?), troféus que não couberam em sua exígua mortalha

Cada espólio adquirido representa algumas noites insones para esta escriba também livreira. A vida do ex-dono da biblioteca ali exposta, em suas anotações, nos bilhetes esquecidos, postais, fitas, pétalas, cédulas, bilhetes de loteria, fotografias, objetos inúteis (assim perdidos em páginas amareladas pelo tempo) e tão significativos (no seu conjunto, nas histórias que representam). A vida contida nos livros. Uma história em cada biblioteca. Diz-me o que lês e eu te direi quem és. Árdua tarefa, a do pobre alfarrabista, bisbilhotar a vida alheia através de anotações e objetos esquecidos. Dar preço àquilo que não deveria ter preço.
Não é à toa que o destino dos livros após o passamento do seu dono é o maior pesadelo de todo o amador e colecionador de livros. Coisa que, na maioria das famílias, é resolvida de duas maneiras, já no dia seguinte ao funeral: chama-se um livreiro ou um transformador de papel em aparas. Briga mesmo é quando o sujeito coleciona ações na Bolsa de Valores, mas isso já é assunto para outra história. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
This entry was posted in Personagens. Bookmark the permalink.

One Response to Personagem

  1. Isa says:

    O paradoxo (ou talvez não) de “a vida contida em livros” será os livros contidos numa vida.
    Se pelo tamanho reduzido da biblioteca poder-se-á dizer que há vidas mui “pequenas” (?!), por outro lado há bibliotecas enormes (do tipo livro a metro apenas porque a lombada combinada com a estante ou porque o titulo é sugestivo).
    No primeiro caso, por vezes, é a falta esse vil e tão desejado metal (leia-se dinheiro) o motivo da redução, no segundo caso os livros são meros depositários de pó em que as páginas ainda se encontram virgens e sôfregas por um leitor digno desse nome.
    Os livros não deveriam ser de quem os pode comprar mas sim de quem os quer ler e já agora, tal como existe sítios destinados a receber roupas e outros objectos usados, deveria ser criado locais para entrega de livros.
    O destino de um livro nunca pode ser numa destruidora de papel. Há vidas que não querem ser “pequenas”.