Das artes fora do seu tempo

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Uma manhã de sábado primaveril, o próximo passado, num bunker localizado na Rua Eduardo Monteiro, um grupo de pessoas fora do seu tempo (a cidade inteira presumivelmente estava nos Shoppings, antecipando as compras de Natal), esmagadas por um mundo que lhes exige outras tarefas, mas persistem em fazer cumprir o sonho de fazer valer a arte e a beleza, o uso das mãos e das idéias próprias, à margem da globalização, a fugir da pasteurização das idéias planetárias. Tratava-se de mais uma sessão especial do Cineclube Alpharrabio (o Edmundo, coordenador licenciado do Cineclube, que anda por Espanhas e arredores, não sabe o que perdeu… apesar de sabermos que por lá deve haver outras e melhores compensações…).

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Na tela, um desses seres caminhantes a traçar outras trilhas fora da mesmice, o editor e mestre gráfico Cleber Teixeira, (da editora tipográfica Noa Noa, de Florianópolis), retratado no documentário “Só Tenho um Norte”, de Alexandre Veras, Demétrio Panarotto, Júlia Studart e Manoel Ricardo de Lima (2007), cuja cópia foi gentilmente cedida e autorizada a projeção pelo poeta Manoel Ricardo, a quem, de público agradecemos e parabenizamos pelo belo e meritório trabalho. Logo após a exibição do filme, os presentes assistiram à projeção do breve e poético registro fotográfico de Fátima Roque, sobre o Mestre Raul em sua oficina, denominado pela autora de “Cadernos de Descontrole”.

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Do lado de cá da tela, um grupo composto de escritores e muita gente ligada de alguma maneira ao livro e às artes gráficas, avançou manhã adentro a falar desse “vício” (Mestre Raul) como opção de vida. Falaram os convidados, emocionados, cada qual à sua maneira. Primeiro o mestre Raul, ainda atuante em sua oficina tipográfica, a Luar, em Santo André. Emocionado ainda, disse: -”antes de mais nada, eu quero dizer que estou muito emocionado e quero muito conhecer esse cara (o Cleber), porque assim como ele, eu gosto muito de fazer isso”. Falou de sua trajetória de 50 anos de gráfico e das muitas estórias curiosas diante dos problemas surgidos e das respectivas soluções inventadas (quase trambiques), truques para diferenciar uma impressão “com letra viva” de uma com “letra morta”.

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A seguir falou outro mestre impressor da modernidade, Adriano Souza (capitão da sempre parceira Gráfica Bartira) conhecedor das mais modernas técnicas das artes gráficas, mas igualmente apaixonado pelo que faz (“essa coisa de você pegar uma idéia e transformá-la num objeto gráfico, depois observar a reação do autor diante de seu livro é uma emoção inesquecível”). A seguir, Zhô Bertholini, Fátima Roque e Rosana Chrispim (que se deslocou de Campinas especialmente para o evento), também deram seus emocionados depoimentos, envolvidos desde sempre com a atividade gráfica e com a utopia da página impressa, grafada pela criatividade e pela beleza. Salvador e André, da Casa de Cultura Todas as Artes, animadores culturais incansáveis, Hildebrando Pafundi, A. G. Melo, Antonio Possidonio Sampaio, Valdecirio Teles Veras, Tarso de Melo e Kleber Mantovani, escritores, Isabela Agrela T. Veras e Luzia Maninha, designers e produtoras gráficas que produzem livros impregnados de arte e dignidade, e outros mais, como Semiramis Côrrea (temo ter esquecido muitos – sorry!), entraram na roda, juntando-se ao coro dos fora-de-lugar. O encontro, conforme previsto, foi realmente memorável (detalhes podem ser conferidos nestas belas fotos da factotum Luzia Maninha) e a conversa (com alguns) continuou fora do bunker, e só foi encerrada lá pelas 17h. O brinde final, foi feito com um inesquecível Madeira boal, de surpreendente transparência âmbar e inigualável sabor. Tim tim… à arte e à amizade cúmplice! (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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4 Responses to Das artes fora do seu tempo

  1. Constança says:

    isto de fazer livros é uma paixão tão inventiva com infinita

    belo evento – parabéns!

    abraços cordiais
    Constança

  2. Rosana says:

    Há coisas que nos impregnam de tal maneira que guiam nossa vida para sempre. Assim é com as cumplicidades. Assim é com com as paixões e com as artes. Como disse o Adriano, a manhã foi memorável! Queria ver, Dalila, se a sua amiga Isa estivesse aqui. Confesso que me emocionei realmente. São as transformações de que são capazes as artes do ofício e os ofícios das artes. É o ganha-pão impregnado de arte! Tim-tim.

  3. Edmundo says:

    Mesmo estando mais de 9 mil km longe do Cineclube estou atento. Claro que tenho muita inveja de quem participou dessa atividade de sabado, e junto com Dalila, lamentando os andreenses que ainda não descobriram o Cine Alpha. Maninha me permite a visão do que foi a ultima reunião do Cineclube de 2007, onde ela teve um papel fundamental por essa atividade. Isso incentiva a continuar as reuniões em 2008.

  4. isa says:

    Que invejazinha desse sábado primaveril (aqui sente-se um frio de rachar);
    Que pena não meter “colherada” nesse bunker (pelo que leio chamar-lhe-ei antes Éden).

    Quiçá, um dia, conhecerei o Mestre Raul! Pedir-lhe-ei licença para analisar as suas mãos, pois acredito piamente que encontrarei, entre seus calos, uma grande dose de magia.

    Ainda hoje recordo com carinho o dia em que tive o privilégio de conhecer o Sr. José, tipógrafo de uma pequena gráfica do bairro onde nasci. Fiquei extasiada ao vê-lo trabalhar (criar). Suas mãos, quando tocavam nos pequenos caracteres de chumbo, tomavam vida própria. E eu ali, pequenininha naquele grifo, via magia acontecer a cada palavra construída, a cada frase composta, a junção daquelas pecinhas entoavam uma música especial. O cheiro dos óleos, das tintas, o barulho da maquineta de impressão de roda gigante… E a obra nascia com paixão.

    O Sr. José já não está entre nós, nem sequer a sua “Princesa” (gráfica), mas onde quer que ele esteja, está certamente muito contente porque felizmente ainda se continua a fazer magia e por este mundo fora ainda se encontram algumas “princesas” que lá vão resistindo.

    Tim-tim para convosco e também para si, Sr. José.