Antes que o Carnaval chegue

Sabidamente, no Brasil, o ano do trabalho (e do estudo e das coisas levadas a sério) começa pra valer só depois do Carnaval. Enquanto fevereiro e seus tambores, tamborins e cuícas não chegam (bem como o respectivo êxodo estradas afora) iniciemos aqui algumas divagações sobre assuntos aleatórios, porque após o Carnaval, virão as comemorações dos 16 anos do Alpha (e os bastidores já se agitam para isso) quando os instrumentos não acústicos tocarão por estas bandas alfarrabistas e não mais haverá espaço para divagações.
A titular deste espaço, como já se sabe, retornando de um giro pelas velhas terras portucalenses, foi aqui recebida com rosas, modificação no visual da página do blog e outras delicadezas no espaço físico da livraria, arquitetadas pela sempre prestimosa Luzia Maninha que jamais deixa arrefecer o clima de entusiasmo.
Para sorte nossa, andamos atrás do inverno em Portugal e encontramos sol e temperaturas primaveris em nada compatíveis com este período e, esquecendo que já o era, eu também quis ser portuguesa (parafraseando Borges) e lancei-me a dar a volta às coisas enraizadas em minha memória afetiva para melhor conhecê-las, apoiada algumas vezes pelos que lá vivem que, generosamente, repartem com a visitante olhares que não são possíveis a um viajante descuidado, ainda que esse viajante tenha lá vivido a primeira década de sua vida. Visitar não é conhecer, para isso é preciso mergulhar no cotidiano, ir à missa, ao supermercado, à peixaria, conversar com os vizinhos e saber de suas mazelas e alegrias. Ainda que a memória retenha olhares infantes, o olhar deve ser novo para apreender o outro e a vida em tempo real. Comecemos pela Madeira, a ilha natal da viajante, exuberante e agitada no mês dedicado à Festa. O Natal na Madeira é chamado de A Festa, período que compreende o período de 16 de dezembro, quando são iniciadas as Missas do Parto, novena em louvor a Nossa Senhora e vai até o dia de Reis, a 06 de janeiro. Curiosamente, a par do consumismo que também ali já vinga, há um componente de religiosidade absolutamente comovente, um componente de fé verdadeira que mantém acesa as tradições populares, tão ainda vivas em seus cântigos centenários. Os pontos altos da religiosidade, além das Missas do Parto, recaem na Missa do Galo e na celebração da visita dos Reis, esta já com componentes profanos agregados. De permeio às celebrações e aos cantares, há sempre a celebração ritualística da repartição de iguarias, abundantes em todos os lares nessa época e que são repartidas entre parentes e vizinhos e até entre desconhecidos, como é o caso de, à saída das missas, cada um levar uma iguaria para ser degustada ali mesmo, no Adro da Igreja. É hora de provar o bolo de mel, as broas, o bolo preto, o bolo rei e tantas outras especialidades da doçaria local, acompanhados, claro, de um golinho do seu afamado vinho.

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No meio da Festa, o rito de passagem da noite do dia 31 de dezembro no Funchal, com seu afamado espetáculo pirotécnico, que em 2006 entrou para o Guiness Book como “o maior do mundo”. Neste ano, além da feérica iluminação que conferia um clima mágico à cidade, 12 transatlânticos, lotados de turistas, alinhavam-se na baía do Funchal e, igualmente iluminados, davam as boas vindas a 2008, acionando seus apitos exatamente à meia-noite coincidindo com o início da queima dos fogos. A encantadora geografia do Funchal por si só já remete ao cenário de um presépio ao qual a iluminação, os navios apostos e a intensidade dos fogos remetem a um verdadeiro conto de fadas. Não há quem não se comova diante da grandiosidade do espetáculo.

fogos01

Bem, foi nesse clima, do balcão privilegiado da residência da amiga Manuela, que mentalizei desejos para este ano que já vai célere neste quase fim de janeiro. Dentre os muitos, a de que haja energia para o bom combate, este. Feliz Ano Novo a todos os que por aqui passarem seus olhares. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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7 Responses to Antes que o Carnaval chegue

  1. isa says:

    Uma vez português, português para todo o sempre!!!

  2. Olá pessoal da Alpharrabio, sou um poeta são bernardense que procura uma editora para publicar sua primeira obra, e assim se lançar no mercado literário. Comecei a pensar com quais editoras poderia entrar em contato para falar de meu livro (de poesias), não foram muitas as que me vieram a mente, afinal estou apenas começando um caminho pelo qual nunca passei. Lembrei-me da Alpharrabio, da qual ouvira falar algumas vezes tempos atrás. Fui ao Google e acessei pela primeira vez o site. Gostei muito de tudo que vi e pensei que seria ótimo lançar meu livro pela Alpharrabio, sem falar da vontade que tive em conhecer a livraria, que parece ser um cantinho especial, e ali encontrar leitores e autores para umas boas conversas.

    Por hora acho que é isso, apenas quis aproveitar esse espaço interativo que é o blog para me apresentar e expressar minha vontade em participar do universo Alpharrabio (e se tudo der certo também como um de seus autores). Para melhor conhecerem a mim e a meu trabalho acessem meu site.

    Grande Abraço a Todos

  3. Élia says:

    Oi Dá
    Adorei.
    Me emociono toda vez que leio algum relato sobre a nossa querida Madeira. É bom saber as coisas da nossa terra por você.

    Beijos
    Élia

  4. Gabriela says:

    Olá Dalila!
    Gostei das fotos e do texto. Bela descrição das tradicões natalícias madeirenses e da festa do fim de ano! O que é belo só pode ser descrito de forma bela.
    Beijinho, Gabriela

  5. isa says:

    Coisas de Carnaval?! Burrices, patetices e outras tolices…

    Sábado de Entrudo, 16.30h, temperatura: 12º. Estamos com sorte, pois kms acima cai neve na Serra da Estrela.

    Estive a trabalhar até ½ hora antes. Estava farta de estar fechada num gabinete quase tão gélido quanto o sentimento que nutro por esta época. Fiz-me à estrada, percorrendo o caminho mais longo para chegar a casa. Dei um saltinho até ao “Parque da Cidade”. Precisava de ver gente, de ouvir vozes, de ver vida.
    Algumas crianças brincavam sobre o olhar atento dos adultos. Vi patos-reais, patos mudos, gansos, gaivotas, muitas gaivotas (gaivotas em terra, sinal de tempestade) peixinhos vermelhos, tartarugas, galos e galarós. Posso afirmar que ali não há perus nem peruas. Será que não?!

    Ops! Acaba de chegar duas “dondocas”… um pouco mais à frente, saltitando despreocupada, ia a sua cria, uma petiza de cabelos encaracolados, olhos grandes, castanhos leais, mirando o Mundo como se fosse todo seu, (recorda-me alguém que também já foi assim).

    Bolas, com um parque tão grande, logo tiveram que vir para a minha beira. Ao fim de 5 minutos tinha os ouvidos feridos de tanta baboseira que suas línguas viperinas largavam. Pobres visados, foram despidos de alto a baixo.

    A catraia, aproveitando a distracção, começou a fazer o que tinha que fazer. Sentou-se à beira do lago, desrespeitando o sossego dos pobres patos e peixes que por ali andavam, atirou-lhes com pedras. Não se ouviu qualquer reparo por parte de sua “extremosa” mãezinha. Cansada desta “brincadeira” (para alívio da bicharada, e meu também), tratou de fazer um belo bolinho de areia e a cereja do cimo foi limpar suas mãozinhas no lindo vestido de dama antiga com que a sua “extremosa” e desatenta mãe de língua afiada a tinha mascarado.

    De repente o grito de horror: “Maria venha cá, Maria não vá para aí, Maria olhe que suja o vestido, Maria não não não…”
    Raios partam tanta proibição. Mas quando foi das pedras… nada se ouviu, isso não sujava o vestido.

    Até o pato, um sr. pato mudo bem rechonchudo (porque perú não havia ali, perúas só mesmo aquelas duas dondocas) se assustou grasnando de aflição perante tamanha berraria. Saltou todo o verniz…

    De repente aquela mamã faz uma pausa no seu despe despe da vida alheia e diz à menina: “- Olhe Maria, um peru, glú glú, faça lá glú glú para o peru…”

    Perú?! Respeitinho, Pato Mudo se faz favor! Já velhote é certo (assim indica o seu bico) mas é pato.

    Estamos no Carnaval, ninguém leva mal, dizem alguns…
    Eu direi que enquanto houver “dondocas” que não souberem distinguir e respeitar todas as espécies, raças ou credos, que mexer na terra é salutar, que a água lava tudo excepto as más-línguas, não admitirei que se chame perú a um pato, mesmo que seja Carnaval.

  6. Mónica says:

    Olá Dalila

    Espero que tenhas a oportunidade de ver mais vezes a festa fantástica que é a passagem de ano na baía do Funchal.

    De facto é um espectáculo indescritivel
    que só quem vê pode ter a verdadeira noção e sentir a intensidade dentro do peito.

    E ser ilhéu também é uma coisa muito especial…

    Beijo
    PS – vai dando uma espreitadela no meu blog ;) não tem tido muita “actividade por circunstâncias temporais”… mas enfim. Vou tentar prestar-lhe mais atenção :)

  7. manuela says:

    está tudo uma delicia a escrita como sempre divinal e as fotos também com um comentário a fátima muito religioso a foto do edificio do alpharrabio acho o máximo com muita veia artistica desde a construção á pintura do mesmo, o saudosismo luso descendente é lixado e vaidoso mas também agradavel ao ouvido e ao olhar.
    agradeço o apreço dado á varanda do meu ninho de amor que serviu a varanda para as imagens retidas nas nossas retinas mais perfeitas que as fotografias digitais e que a nossa memória retem este espectáculo a cada ano que passa.estas e outras análises feitas á nossa querida madeira serão um dia lavradas no local certo e no momento adequado como divulgação da nossa pérola além mundo para o cidadão desconhecido e pouco informado do que de bom ainda EXISTE E NÃO SE PERDEU PELA CONJUNTURA DA GLOBALIZAÇÃO AS RAIZES CÁ ESTÃO PARA QUEM QUIZER VIR VER E CRITICAR.
    PARABÉNS CONTINUA A TUA LUTA E DEFESA DA NOSSA TERRA MUITA SAÚDE PARA A CONCRETIZAÇÃO FUTURA DE UM SONHO DE DIVLGAÇÃO DE TUDO ISTO EM BREVE NA NOSSA TERRA.