Alegria obrigatória

Instigada pela crônica, em forma de comentário, de Isa Ferreira, aí vai um texto (um tanto quanto “requentado”, pois trata-se de uma “colagem” de alguns textos que publiquei em outras épocas sobre esta época):
Pode parecer paranóia de poeta, mas sempre achei o carnaval uma festa melancólica, talvez por essa coisa da alegria com data marcada para acontecer, uma espécie de diversão obrigatória e padronizada.
Qual a razão de ficar obrigatoriamente alegre nestes quatro dias consagrados à folia quando, invariavelmente, nesta época do ano, não faltam motivos para tristeza? É a época das chuvas e as tragédias provocadas pelas enchentes preenchem diariamente os noticiários. Mas isso, nem outros gravíssimos problemas, jamais serviu de motivo de desânimo para que milhares de pessoas entupam as estradas à busca do carnaval, ainda que para isso tenham que passar horas em engarrafamentos e enfrentar estradas em péssimas condições. A cidade vizinha sempre parece ser o melhor lugar. Milhares de pessoas saem do Rio de Janeiro e outras milhares entram na cidade, o mesmo acontecendo em outras cidades, como São Paulo. Fugiriam elas do carnaval ou vão à busca de outros carnavais? Não seriam todos esses foliões, afinal, eternos Pierrôs procurando sublimação, sempre a disfarçar sua condição de seres amargurados por tantos problemas?
O carnaval tem sua origem na Antigüidade Clássica e já nasceu sob o signo da licenciosidade, passando, no Renascimento, a possuir um caráter mais artístico, com bailes e desfiles alegóricos. No caso brasileiro, o carnaval retomou as origens orgíacas, seguindo o rigor etimológico da própria palavra – carne vale. Tanto é verdade que, a pretexto de prevenção da AIDS, as próprias campanhas oficiais, fazem supor que todos os foliões acabarão a noite fazendo uso de preservativos. Vale a carne e a alegria é obrigatória.
Mas, como disse o poeta Drummond, o carnaval é sempre o mesmo “máquina de alegria montada desmontada,/sempre o mesmo, sempre novo/no infantasiado coração do povo”.
Na verdade, o Brasil não passa de um eterno Pierrô disfarçado, romântico personagem sempre a camuflar sua miséria com trapos coloridos, esterótipos mais do que manjados de irreverente Arlequim. Afinal, é preciso manter a imagem de país do carnaval ainda que, para isso, haja necessidade de esconder os mortos e, num sorriso cínico, dizer que nada aconteceu.
Busco ajuda também no velho Manuel Bandeira. Releio “Carnaval”, livro que o poeta publicou em 1919, às suas próprias expensas e que, à época, entusiasmou grandemente o grupo modernista de S.Paulo. É desse livro o poema “Os Sapos”, lido num dos recitais da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de S.Paulo, em fevereiro de 1922. A vaia foi estrondosa e consagradora. Procuro, numa obra inteiramente dedicada ao carnaval, a idéia do próprio carnaval, a origem da suposta alegria brasileira que tem nesta celebração a sua manifestação máxima.
Frustrada tentativa, mesmo porque antropologia nunca foi função de poeta, muito menos explicar nada. Ele apenas aponta, dá sinais, inquieta.
O livro começa com uma epígrafe tristíssima: “(…) O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia que do seu ar de extrema penúria”, já indicando o que vem a seguir.
Como bem ressaltou Alceu Amoroso Lima, no prefácio, “o símbolo mais repetido e expressivo do livro é a antiga e inevitável figura de Pierrot, sombrio e amargo” que, no caso, era o próprio mundo interior do poeta, como ele próprio admite: “Eu quis, um dia, como Schumann, compor/Um carnaval todo subjetivo:/Um carnaval em que o só motivo/Fosse, o meu próprio ser interior.”.
Presentes ali também, símbolos escapistas como a droga (“E a lua verte como uma âmbula/O filtro erótico que assombra…/Vem, meu Pierrot, ó minha sombra/Cocainômana e noctâmbula!…”); a exaltação dos sentidos da carne (“Não posso crer que se conceba/Do amor senão o gozo físico! (…) Fui de um… Fui de outro… Este era médico…/Um, poeta… Outro, nem sei mais!/Tive em meu leito enciclopédico/Todas as artes liberais”), até a conclusão melancólica, no “Poema de uma quarta-feira de Cinzas”, daquilo que poderia se chamar de uma alegoria da tristeza do carnaval: “Entre a turba grosseira e fútil/Um Pierrot doloroso passa. Veste-o uma túnica inconsútil/Feita de sonho e de desgraça…”.
Exagero de poetas? Talvez… ou talvez, ainda, os poetas não tenham a alma “fantasiada” e, portanto, não tenham nascido fatalizados para a folia com data marcada. Para eles, a alegria e a celebração são sempre inesperadas e podem ocorrer até mesmo numa quarta-feira de cinzas. dtv

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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14 Responses to Alegria obrigatória

  1. Constança says:

    o carnaval não me alegra em nada
    o carnaval não me traz nada

  2. Rosana says:

    Gosto – não tanto quanto a amiga Dalila – das celebrações, estas sim importantes e, em geral, ímpares. Gosto, sim, da alegria (embora eu mesma não pareça ter muita, mas enganam-se os que assim pensam) e da liberdade. Nada, mas nada mesmo do que é obrigatório me faz bem. Gosto, pois, de ter a liberdade de não ter que obedecer a datas e a sentimentos pré-estabelecidos. Recuso-me à obrigatoriedade de extrapolar, de exceder, de exagerar: não é o mesmo que transgredir, transcender! E o Carnaval é uma ditadura! Tudo isso que os meios de comunicação e alguns setores da sociedade querem nos enfiar goela abaixo não passa de uma forma de ditadura. E de Circo. Enquanto isso, parece que a “vida (real) está suspensa”. Só depois do Carnaval, o ano efetivamente começa. Já que não cedo à maioria e gosto muitíssimo da minha companhia, permito-me andar na contra-mão. Amanhã não é quarta-feira de cinzas!

  3. isa says:

    Obrigatório versus Liberdade

    Concordo em número e em género convosco, mas tenho de admitir que se toda a gente gostasse do amarelo, pobre do vermelho.

    Confesso mia culpa, mas este ano aproveitei-me da 3ªfeira de Carnaval e… mascarei-me.

    Mascarei-me de Off-Line.

    Peguei em 2 livros e no meu mp3 e rumei até Albarquel – prainha linda de Setúbal, Portinho da Arrábida à direita e Tróia no horizonte.

    Florentino Ariza e Fermina Daza de “Amor em tempo de cólera” fizeram-me companhia toda a tarde. E se vos dizer que Bethania, Chico e Caetano também aqui estavam?! Foi a festa completa.

    Só mesmo uma 3ªfeira de Carnaval para me poder mascarar assim….
    Obrigado Carnaval. Viva o Carnaval e a tolerância (nem que seja de ponto, por aqui não é feriado)

  4. Milton Andrade says:

    Bravos, Dalila. Valeu ter passado estes 4 dias fechado em casa. V. continua maravilhosa.
    MILTON

  5. José Armando Pereira da Silva says:

    Dalila,
    Valeu sua crônica de carnaval.
    Um grande abraço
    Zé Armando

  6. hugo Pontes says:

    Dalila,
    Li a sua crônica. Belo texto.

    Hugo Pontes

  7. Cunha de Leiradella says:

    gostei do seu texto alegria obrigatória, dalila. muito bem escrito e muito embasado. mas, não nele e sim nas ponderáveis explícitas, tudo é subjetivo. por que todos os seres humanos são iguais é que são infinitamente diferentes. daí, o carnaval ser o que é. alegria de muitos, tristeza de muitos e indiferença de muitos.
    abraços do
    leiradella

  8. Eunice Arruda says:

    Gostei da crônica, Dalila. Gostei de conhecer o blog
    Eunice Arruda

  9. Lourdinha Hortas says:

    Caríssima Dalila,

    Gostei muito da sua cronica de Carnaval. Concordo com você, também acho que é uma festa melancólica. É possível que a nossa afinidade em relação ao tema momesco se deva àquela bem maior – nossa lusitanidade.
    Desejo que esteja bem, com muita poesia.
    Grande abraço da
    Lourdinha Hortas

  10. Isa says:

    Apesar de nada ter a ver com este artigo (facto pelo qual apresento meu pedido de desculpas à autora e administradora deste blog), mesmo assim, aqui quero lembrar os 400 anos sobre o nascimento de Padre António Vieira (06/02/1608), grande humanista que sempre teve a sua pátria no peito. Proferiu o seu 1º e último discurso na linda cidade da Bahia.
    Fernando Pessoa designou o Pª António Vieira, como sendo o imperador da língua portuguesa.

  11. Rosana says:

    Que repercussão! Realmente um belo e apropriado texto, dona Dalila. As respostas por si já mostram o quanto e dispensam maiores comentários leigos de minha parte.
    Como penso, Isa, que todas as coisas têm pelo menos dois lados, é claro que o Carnaval tem seu lado belo e positivo. Não o vejo como melancólico, a não ser o que lhe é periférico e todo esse excesso. O que me incomoda é o excesso! Quanto ao feriado, acho o lado mais interessante, entre outras coisas porque, contemplar é necessário. O “ócio” me acumula e me liberta.

  12. isa says:

    “Quarta-feira de cinzas. O Carnaval acabou. Viva o ano novo. Chegou a hora de encarar a queda do real, o aumento do desemprego, a alta do dólar”.(…)

    Na Trilha do Trem, Valdecírio T. Veras – Edições Alpharrabio, 2000

    Quase uma década depois deste depoimento, continuamos a encarar as quedas: do real, do emprego, do dólar, do discernimento dos nossos governantes na efectivação de soluções.

  13. margarita lo russo says:

    Mi comentario llega con el número trece según consta en el blog. espero que no sea un comentario fatídico. Lo cierto que “el baile de la carne” la fiesta de la carne como expresión, necesidad de dar rienda suelta a todo lo prohibido que llegará en Semana Santa donde habrá que expiar la culpa que esos desvaríos provocaron. Valen la pena!! cuando el pueblo suelta su alegría en medio de la avenida. El pueblo que marca su presencia en la “rúa” y tiene el poder de la crítica, la poesía y el dolor porque “O surdo marca o rítmo/e o samba nasce quente/ abanando as ruas/por onde navegam/as noites/do amor/e/a morte.”
    Margarita

  14. Bela crônica, Dalila. Pena que falte aos poetas citados aquela imagem da gente humilde e simples que faz sacrifícios para poder desfilar um dia, emplumada e faiscante, com os olhos inundados de luz e cor. É um sentimento mais explorado pela música popular que pela alta poesia, parece.
    (Se bem que que há alta poesia também na música popular, claro).