(im)precisas viagens I

Enquanto a Festa alfarrabista em Santo André não vem, falemos de viagens, imprecisas viagens, nas quais mais vale o sentir do que o ver, mais vale o lembrar do que o documentar preciso.

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Pois bem, em pleno inverno lisboeta, com uma inesperada temperatura à volta de 18 ou 20 graus e uma esplêndida luz (quase) outonal, lá vamos nós, ao alvorecer de 2008, a bordo do Honda das amigas Isabel e Beatriz pela auto-estrada que leva a Coimbra. No porta-bagagem, uma carga de generosidades e toneladas da boa fidalguia portuguesa, por elas ainda cultivada apesar das globais invasões bárbaras e colonizadoras de individualismos e tirar vantagens. É bom andar acompanhada por olhos locais, verdadeiras lunetas a nos apontar detalhes que nos passariam despercebidos não fosse os “olhe ali”, “olhe acolá”… e olhamos, e, por fim, ainda vemos coisas que nem mesmo as tais lunetas nativas haviam visto. Lá estavam, ladeando a estrada, as cegonhas em seus ninhos no topo dos postes de alta tensão. No impulso intuitivo de procriação, sobem o mais alto que podem, ignorando os riscos, resistência ao iminente desaparecimento da espécie. Sábia natureza que os bólidos velozes não percebem e ignoram, na ânsia de vencer o tempo.

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Primeira parada: Conhecer a nova Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, concluída em outubro do ano passado, no 90º aniversário das Aparições, após 4 anos de construção. Um arrojado projeto do arquiteto greco-ortodoxo Alexandros N. Tombazi, o templo, considerado o maior recinto público fechado do país (9.000 pessoas sentadas) e o quarto maior templo católico do mundo, é de uma arquitetura espantosamente moderna, cujo estranhamento chega, à primeira vista, a chocar o visitante, tamanho é o contraste com o restante do conjunto, ou seja, a antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário, bem à frente, e a capela das aparições, ao lado. Se por fora o Santuário impressiona, com suas 12 enormes portas, além do pórtico principal, com belissimo painel com figuras sacras de traços moderníssimos, no seu interior, o choque é ainda maior (um choque pela inusitada beleza).

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Painéis reguláveis no teto oferecem uma inacreditável luz natural ao ambiente, não há colunas, nem degraus, apesar da forma de anfiteatro do local. Uma arquitetura realmente revolucionária que incorpora em seus elementos e iconografia sacra, todos de renomados artistas internacionais, como o belíssimo painel atrás do altar, em ouro e terracota (seria terracota ou ouro?) que lembra uma pintura bizantina, a figura de mármore branco, da virgem de Fátima, e o enorme cristo, de cabelos em desalinho, traços fisionômicos que mais se assemelham aos de um rude pastor e em nada lembram as imagens convencionais do cristo loiro, traços delicados e cabelos bem penteados a que nos acostumamos ver.

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Não fosse o clima realmente sacro que ali paira, a despeito de tanta modernidade, a sensação seria a de uma visita a um verdadeiro museu de arte moderna (e que museu! e que santuário!).
Partimos, “de flor ao peito”, que o nosso destino era Coimbra, do qual falaremos no próximo capítulo. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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5 Responses to (im)precisas viagens I

  1. isa says:

    O grande “templo da fé”… Milhares não têm sequer tecto…
    (nº1, Artigo 65º da Constituição portuguesa:. Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada (…)).

    Milhões de euros em ouro, betão branco… quando tantos não têm sequer pão…
    (Nº 1, Artigo 58.º da Constituição: Todos têm direito ao trabalho)

    Não menosprezando a obra, meu local de culto continuará a ser em qualquer lugar onde me seja permitido continuar a acreditar no Homem.

  2. Sra. Dona Isa: A despeito de toda a polêmica (que de, daqui de longe acompanhei superficialmente) sobre os tais milhões de euros gastos com a obra, continuo a achar que vale a pena. Isso sempre foi assim. Ao longo de sua história, a humanidade legou à posteridade obras de inquestionável beleza e valor simbólico e, sabe-se, que à sua respectiva época devem ter igualmente causado polêmicas; pior, muitas delas foram erigidas à custa de trabalho escravo, “em nome da fé”. Mas isso faz parte também do humano, o homem aspira à beleza e ao sagrado, faz-lhe bem contemplá-la, fruí-la, vivenciar momentos de transcendência. Veja, um amigo meu, materialista confesso, disse-me há tempos ter visitado o Santuário de Fátima e sentiu um certo frêmito, algo que sem saber explicar, deveria chamar-se “sagrado”. Ainda que não sejamos crentes nem devotos (a fé é algo que invejo e que gostaria de alcançar, mas sou pragmática demais para que lá chegue, ao menos na plenitude), todos nós em algum momento temos experiências de encontro com o sagrado, que não precisa ser necessariamente num Santuário, mas no próprio dia-a-dia, pequenas epifanias que nos colocam frente a frente com algo que está além da nossa compreensão. O ser humano necessita de praticar o rito, mergulhar no universo simbólico. Sim, concordo que haja milhares sem teto e sem trabalho, mas há dinheiros (muitos) desviados para coisas menos nobres (como a corrupção) e que poderiam perfeitamente servirem para esses fins humanitários. Trata-se, portanto, de exigir que o orçamento do Estado contemple esses setores cumprindo a Constituição, mas a arte é também uma necessidade. Nem só de pão vive o homem… Acredito na arte como sublimação do reles cotidiano, e… vá lá… relegando os precalços, é sempre bem vinda. Mas gosto de vê-la exercendo sua indignação, legítima. Como você, eu também sou filiada ao PCI (Partido dos Cidadãos Indignados), mas com a idade, alinhei-me a uma ala dos mais moderados (mornos, jamais… apenas mais ponderados). Bem vinda, sempre a este fórum democrático, que é o nosso Alpha. dalila

  3. isa says:

    Bom dia Dalila
    Permita-me alguns sublinhados: Não me considero materialista. Sou crente – acredito que é possível uma sociedade mais justa. Sou devota – acredito no Homem e na sua obra. Serei simples sonhadora ou verdadeira pateta?! Só sei que não sou dona de nada.

    Quando vou a Fátima (paradoxo? Nem tanto, mas não vem agora ao caso), lógico que não fico indiferente à obra, gosto e aprecio o belo.
    Contudo, toda aquela sumptuosidade do santuário, contrasta com a muita mendicidade envolvente. Depois é toda aquela (quase que humilhante) prostração humana…

    Quando a amiga diz “muitas delas foram erigidas à custa de trabalho escravo”, permita-me discordar na conjugação do verbo “ir”. Considero que continuam a ser erigidas, só que de forma diferente. Os tempos são outros e os modelos de escravatura também.

    O aproveitamento espiritual não será também uma forma de escravatura?!

    “(…) O Reitor indicou que a obra foi financiada “integralmente com as ofertas dos peregrinos do Santuário de Fátima”. (…)
    O Reitor considerou ainda que “há também um fundamentalismo mariano”, mas que o Santuário tem procurado manter um equilíbrio apesar de ser “fortemente atacado” à esquerda e à direita. Noutro âmbito, reconheceu que a grande maioria dos peregrinos são pobres e que, na devoção a Fátima, “há muita ignorância e ingenuidade”. (www.ecclesia.pt/fatima07)

    Amo a liberdade e aprecio arte, por isso visito este blog.

  4. Constança says:

    Fátima será sempre um lugar polémico e lucrativo.

    A humanidade precisa de espaços de criação, é tão dificil de enteder as diferenças e as injustiças.

    Vivo no Brasil, num dos países com disparidades sociais enormes e isso não pode bloquear-me, faz-me refletir.

    A liberdade é um bem para muito poucos em todo o mundo.

    Eu sou agnóstica aprecio trabalhos de temas religiosos de uma forma puramente estética, durante muitos séculos só as igrejas valorizam a pintura e por iso chegou até nós muita coisa boa

    enfim

  5. Independente da polêmica, achei um belo texto. E lindas fotos!