(im)precisas viagens II

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Imprecisa, mas nem tanto, a viagem chega ao destino, a velha e sempre sedutora Coimbra. Um tanto quanto já esfaimados, fomos conhecer um dos pontos do programa, um bizarro “ex-libris” da cidade, este só para os “iniciados”, pois duvido que algum turista ainda que não seja aprendiz, localize, num beco (o do Forno) escuro e escondido, um velhíssimo prédio, que em nada lembraria um restaurante, mas que reparando bem, numa placa de ferro, que já perdeu o “r”, indica: “estaurante Zé Manél”.

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No rés do chão, uma pequena vitrina, através da qual se podem ver algumas panelas ao fogo e um inusitado “cardápio”, escrito à mão, onde se pode ler (a letra não é lá tão legível) sugestões como: arroz de feijão calandro com costeletinha; polvo na brasa com molho especial, chanfana à moda da aldeia com batata cosida, bacalhau assado na brasa, entrecosto na brasa com molho ?, barriguinhas na brasa, morcela da beira na brasa com grelos, filé-minhõn na brasa, etc.. (por mim, ficaria com delicia dos nomes, já me saciam a fome). Os preços inacreditavelmente baixos para os padrões europeus. Entra-se. Meia dúzia de mesas numa minúscula sala, onde os cotovelos dos comensais se tocam e a intimidade só pode ser exercida pelo silêncio, já que até a mastigação pode ser percebida pelo vizinho da mesa ao lado. À primeira vista estranha-se (como a coca de Pessoa): as paredes cobertas de estranhos objetos e de gosto duvidoso.

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No alto, próximo ao teto, relógios parados, bússolas, panelas, tachos, cabeças de javali empalhadas, chapéus de marinheiros, quadros, azulejos, lanternas (lembranças do dono? O que lembram? Em que tempo teriam parado esses relógios?), mais abaixo, ao nível das mesas, muitos, muitos papéis, colocados nas paredes, uns por cima dos outros, alguns amarelados pelo tempo, todos com mensagens ou desenhos alusivos ao lugar, deixados ali por frequentadores, em diversas línguas (presume-se, assim, que os “iniciados” não sejam apenas os do lugar, a coisa já correu boca-a-boca). Mas eis que, passados os primeiros minutos da estupefação e a vontade de sair correndo, repara-se em algo que dá coragem de iniciar a refeição: a cozinha, à vista, maior que o próprio salão, é moderna, toda em aço inox, e impecavelmente limpa. A comida cheira bem. Ato contínuo à ocupação da mesa, sem que seja pedida, logo é servido como entrada o que parece ser o carro chefe do lugar, uma enorme e cheirosa travessa de ossos de porco – aqueles que estavam a ferver na vitrina (com alguma carne neles, claro, muita saborosa, deixando uma vontade de querer mais, mas que só serve para abrir ainda mais o apetite).

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Fica logo claro a razão da alcunha do lugar: Manél dos Ossos! Nada mais adequado. A partir daí, atiçado o apetite, é saciar a fome sem remorsos nem receios. Ficou nos viajantes a recordação de um lugar realmente exótico, que sequer consta nos guias oficiais de turismo, mas que pelas artes das indicações dos sábios olhares locais de que falei antes, entraram nesta história. dtv

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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3 Responses to (im)precisas viagens II

  1. Deliciosa descrição, deu vontade de conhecer. Tenho uma paixão raramente confessada por botequins sórdidos que acabam nos surpreendendo.

  2. isa says:

    Palavras para quê?! É uma casa portuguesa, pão e vinho sobre a mesa…

    Como “barriga vazia não puxa carroça” e “nem só de pão vive o homem”, nesta tasca quase descendente de uma taberna medieval encontra-se o “casamento” perfeito.

    O melhor melhor do cardápio é mesmo a boa confraternização.

    Experimentem.

  3. O poeta, pintor, modernista futurista e tudo ALMADA NEGREIROS escreveu um dia: “Almoçar num restaurante é essencialmente almoçar o ambiente”. Tenho a honra de poder almoçar semanalmente este ambiente surrealista. E almoçar no Zé Neto é trocar umas piadas com o garçon de la table, é ler o que as mensagens coladas na parede vão escondendo pois trata-se de uma verdadeira estratigrafia de fragmentos de papéis de mesa para o arqueólogo dos templos gastronómicos. Bem haja. MIGUEL DE CARVALHO, o dos caminhos do acaso.