(im)precisas viagens III

Falar de Coimbra como cidade histórica, de Inês de Castro, do Rei D. Diniz e da Rainha Santa Isabel, de Miguel Torga, da famosa Universidade, seria repetir (e mal) o que tantos já estudaram e disseram. Continuemos a falar de pequenas/grandes coisas e fatos, para os raros que viajam à busca de conhecer o outro, de perder-se em becos para encontrar o inusitado que ali está à espera da revelação. Neste caso, não nos perdemos, fomos direto ao endereço do amigo da amiga Fátima Roque, porque os amigos dos amigos, amigos serão/são se não for por outra coisa, pelas afinidades eletivas.

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(collage de Miguel de Carvalho)

Lá estava em seu “santuário” particular, o livreiro antiquário Miguel de Carvalho, em meio a milhares de raros exemplares, cuidadosamente armazenados em paredes que ocupam todo o andar da livraria. Nas poucas paredes que os livros deixaram livres, bem como em algumas vitrinas, arte exposta, muita arte, dele e de outros artistas, todos de vertente surrealista, paixão cultivada com muita dedicação e competência pelo artista-livreiro (ou seria livreiro-artista?). Naquele momento, sob o título de “Fragmentos da Memória Futura”, uma bela série de collages de Miguel e de pinturas de Santiago Ribeiro ocupavam o espaço expositório.

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(collage de Miguel de Carvalho)

“A collage constitui para mim um impulso de atenção visal perpetuada e interrompida pelo instante da eternidade. Não é um capricho da fantasia, mas antes um relâmpago. Um clarão aflorando do inconsciente e que me apresenta o que nele existe sob a alucinação provada pela libido”, diz o próprio artista no catálogo da mostra. Bem hajam os criadores que sabem perceber e apreender esses clarões para deleite dos seus fruidores. Simpático, nos recebe e vai nos mostrando (e presenteando) os livros editados por sua livraria, livros que falam de bibliotecas especiais, minuciosamente catalogadas por ele antes de serem comercializadas e dispersas, cuidadosos e artísticos catálogos de exposições antes ali realizadas. Um encontro de trocas entre pessoas que gostam de arte e de livros seria um não mais acabar de conversas, não fosse o estado claudicante desta escriba, que acabava de entrar numa incômoda crise de labirintite e sequer lhe foi dadoa a possibilidade (devido ao estado físico precário) de passear por aquelas prateleiras recheadas de tesouros.

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(Livro catálogo da exposição de livros, cartas e poemas desenhados por cruzeiro seixas, renomado artista português, organizado e publicado pela livraria alfarrabista miguel de carvalho em 2005)

Ficará para a próxima, mas enquanto o encontro presencial não chegar, haverá a oportunidade de trocas virtuais. Para quem estiver interessado em visitá-lo, eis o endereço do artista guardião de tesouros, Miguel Carvalho: www.livro-antigo.com . “Coimbra tem mais encantos / na hora da despedida” diz a canção, mas não neste caso, saí de lá com uma ponta de frustração pela falta de condições físicas em apreender um pouco mais do mágico clima daquela encantadora cidade, mas amparada pelo carinho das minhas “cuidadoras” lusas, Isabel e Beatriz que souberam trazer a turista enferma sã e salva de volta a Lisboa. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to (im)precisas viagens III

  1. Na vida, os acasos vão estrutrurando os nossos caminhos e trilhos entre encruzilhadas. Mas a poesia vai-nos remetendo em cada hora ao mais breve impulso de tomar decisões. Então, os caminhos que nós tomamos não são mais que resultado de impulsos, decisões e acasos. O perfume envolvente é então o da poesia, não só na concepção de Paul Éluard mas também na do medo pois diz-se por aí que sempre se morre só. Não tenho medo de morrer só, mas tenho medo de só morrer. Medo de só morrer sem ter deixado o meu amor a ninguém, nem amado o suficiente. Medo de só morrer sem ter tornado o meu amor mais sensível, sem o ter esgotado todo, amar como se estivesse para morrer, só. Tenho medo que o tempo me apanhe sob a forma de remorso de nunca ter feito o que devia com e no amor. Também tenho medo que passamos o tempo a fugir do tempo e ele nos apanhe da mesma forma. É isso, o que faço e crio é para não só morrer. Tão simples quanto isso. E é isso que quero partilhar com os amigos com quem vou-me cruzando ocasionalmente entre caminhos que por impulso vou tomando. Obrigado DALILA VERAS por termo-nos encontrado num desses caminhos complexos. Seu amigo da Lusitânea transformada e renascida das cinzas, MIGUEL DE CARVALHO

  2. isa says:

    Bem interessante a “collage” de Miguel de Carvalho. O artista aproveita, explora a tonalidade da madeira, introduz-lhe objectos tridimensionais, uma grande dose de criatividade e outro tanto de paixão.

    Recordo ter visto neste blog algo idêntico na exposição de Milton Mota. Também este artista recorreu a objectos tridimensionais na sua obra, dando-lhe vida própria.

    Se quanto à 2ª, não pude “tacteá-la”, a 1ª já foi outra “história”.
    Obrigado Dalila.