Festejando na chuva

A intensa chuva de 4 horas que desabou em São Paulo, versão pós-moderna do dilúvio biblíco, causando um verdadeiro caos no trânsito, fez com que muita gente não conseguisse chegar à festa dos 16 anos do Alpha, outros sequer conseguiram sair de casa, a água descia a Rua Eduardo Monteiro em cascata impedindo o estacionamento dos carros. Pensamos: não haverá festa! Tudo perdido! Mas, contrariando os maus presságios, as pessoas foram chegando (surpreendemente, muitas) e a festa se deu, ainda que com alguns desfalques a lamentar. Os sustos diluviais são constantes nas comemorações do Alpharrabio, desde a inauguração, no dia 21 de fevereiro de 1992. São as águas de março que, de há muito, foram antecipadas para fevereiro. No nosso caso, fora os sustos (sem esquecer e lamentar os estragos e tragédias na cidade) as águas foram portadoras de bons fluídos.

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A fala de boas-vindas da anfitriã:
Boa noite. Obrigada por terem vindo. Não destacarei a presença de ninguém, pois todos aqui são igualmente importantes e, no seu conjunto, representam uma boa parcela da arte e da inteligência regional.
Uma vez mais estamos reunidos para celebrar o encontro, mais um encontro, simplesmente um encontro, dentre os tantos que já celebramos nestes 16 anos de Alpharrabio.
A festa desta feita traz consigo muitos sentidos e motivos para celebração a começar pela parede d´Arte, que hoje se inaugura, preenchida com uma exposição de desenhos da artista visual, ilustradora e poeta portuguesa Constança Lucas, residente em São Paulo, artista cuja obra é hoje largamente reconhecida, frequentemente exposta em galerias de prestígio no Brasil e no exterior.
A proposta de Constança de trazer estes desenhos de poetas portugueses e brasileiros, pronta e orgulhosamente recebida por nós e que tão bem “casou” com esta casa de livros e de cultura, acabou nos fornecendo o mote para a linha central da programação cultural deste ano do Alpharrabio, ou seja, a Poesia. A poesia em forma de livros, de palestras, de leituras, de debates, de estudos. A poesia, esse gênero literário que, via de regra, parece intimidar leitores, será a linha de proa desta embarcação, que não traça rotas precisas de navegação, mas, navegando, vai desenhando cartografias, em especial, as dos afetos e das trocas.

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Muitos agradecimentos seriam aqui necessários, mas muito tempo para isso seria necessário e ainda assim sempre estaria incompleta a lista. Sintam-se homenageados, todos aqueles que ao longo destes anos estiveram conosco, frequente ou esporadicamente, aqueles que chegaram no início e antes do início e os que estão agora a chegar. No entanto, não posso deixar de fazer um agradecimento especial àqueles que contribuíram de forma efetiva para que esta programação do 16º aniversário fosse possível: à nossa artista Constança que veio abrir a programação com sua arte, iluminando e emprestando uma cara à poesia luso-brasileira, ao artista Milton Mota, pelo tratamento museulógico que deu à exposição, à Fátima Roque pelas dicas e toques, ao mestre Raul da Tipografia Luar, à Luzia Maninha, imprescindível colaboradora, sempre nos bastidores com seu baú de idéias, à minha filha Isabela que forma com Maninha uma dupla incansável e generosa, sempre pronta para as emergências e as delicadezas, ao Tarso de Melo, por aceitar prontamento o nosso convite para a palestra do próximo sábado “Por que ler Poesia”, ao Edmundo pela coordenação do cineclube, ao Marcos Sidney Pagotto-Euzébio, pela coordenação e intermediação junto à FAENAC, do ciclo Idéias de Encontro, à Alice, outra filha, pelos detalhes gustativos e decorativos deste encontro, à Eliane, pela paciência com todos os malucos do entorno, à minha outra filha, Carolina, que por assim estar bojudinha não colaborou fisicamente mas que me em breve vai me dar um neto e, por último, mas nem por isso menos importante, ao Valdecirio, ele sabe porquê.
Bem, eu passo a palavra à Constança que brevemente falará da proposta deste seu trabalho, para a seguir, darmos início a uma leitura de poemas de cada um dos poetas retratados, com os poetas convidados: Tarso de Melo, Júlio Mendonça, Deise Assumpção, Milton Andrade, Cláudio Feldman, Carlos Lotto, Jurema Barreto de Souza, Zhô Bertholini, Kleber Mantovani, Wagner Calmon e esta que vos fala.

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Constança falou de como os desenhos foram nascendo, trabalho que há tempos vem acontecendo e que tomou uma forma mais consistente quando desenvolvia seu trabalho de mestrado, mas sobretudo da empatia estabelecida com cada um dos poetas lidos, amados e desenhados.

A seguir foi apresentado um livro-catálogo com os desenhos de Constança, primor de objeto gráfico-artístico, projeto de Luzia Maninha (com o auxílio de Isabela, na montagem), bem como um número da coleção “mimos”, com dois poemas de Constança, impresso na Tipografia do mestre Raul, a Gráfica Luar, um projeto de Luzia Maninha e Fátima Roque.

Uma gravação original de Carlos Drummond de Andrade dizendo o seu “No meio do caminho” foi a senha para a leitura de poemas, justamente com esse poema que completa 80 anos de publicação, e que representou verdadeira pedra de escândalo no panorama da poesia brasileira em 1928.

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Com a respectiva “benção” do Mestre, dalila aproveitando para uma (até certa forma intrusa glosa) para dizer que:
No meio do caminho tinha uma livraria / tinha uma livraria no meio do caminho / tinha um Alpharrabio / no meio do caminho
Nunca nos esqueceremos / que no meio do caminho / tinha um Alpharrabio / tem um Apharrabio no meio do caminho.
Tim… tim… (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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8 Responses to Festejando na chuva

  1. Rosana says:

    Quisera eu, haver podido estar em mais esta celebração. Eu me divido entre a tranquilidade, a bela paisagem, o ar puro que ainda se encontra por estas plagas e o agito, a efervecência, a instigação, a acontecência – como bem definiu, se não me engano, a lusitana Isa – do Alphatemplo. O Alpha tem uma mágica, um quê de diferente de qualquer outro lugar. É, pois, único. Aqui nem choveu tanto, mas o mar de carros que congestionam meu itinerário para Passárgada, digo Alpharrabio, num dia de semana, é algo realmente desalentador. Fico na vontade. Aliás, já que as águas de março desde há muito resolveram antecipar-se, talvez possa também o Alpha comemorar os próximos aniversários em outra data, após essas águas… Vida longa ao Alpha.

  2. Querida Rosana,
    Muito mais do que imagina, você esteve/está presente no Alpha, não só pela lembrança de sua presença física sempre colaborante, sempre cúmplice, como através dos seus poemas, espalhados em livros pelas prateleiras e memória daqueles que ali estiveram/estão.
    Nos intervalos da presença física, para nossa sorte, há esta possibilidade, da visita virtual.
    amizade e afeto, sempre
    dalila

  3. Que maravilha este encontro!
    Parabéns!!!!!!!!
    Grande abraço e muitos anos de vida para o Alpha.
    André de Miranda

  4. tentar; tentei, mas o tempo não ajudou em nenhum momento.
    vida longa para o Alpha; lugar onde comecei a sonhar, e onde descobri tantos amigos e amigas.

    um grande abraço poético a todos em especial a Dalila; grande guerreira e amiga.

    josé geraldo

  5. Constança says:

    Boa noite

    O dia da abertura da exposição foi brindado por muita água, cachoeiras avistavam-se nas ruas, atravessar a rua era uma aventura. Assim muitas pessoas não conseguiram, mas muitas foram e foi uma Festa linda, pela poesia, pela amizade.
    Fui surpreendida com uma edição MIMOS de dois poemas meus, coisas da Luzia Maninha e da Fátima Roque, adorei a surpresa.
    A leitura de poemas fez-se presente em diálogos com os retratos dos poetas que nos espreitavam.

    a exposição vai ficar até 29 de março

    agradeço ao pessoal do Alpha sempre tão amigos e muito atenciosos

    abraços cordiais
    Constança

  6. margarita lo russo says:

    Apenas unas gotas cayeron por aqui,Buenos Aires, aunque esto de buenos aires se está transformando en una utopía… Dalila recibe un abraso … Adelante…”caminante/ no hay caminos/ se hace camino al andar…”
    Amigos… compañeros de viaje… poetas… Estoy y estaré siempre junto a ustedes. Cumplidos los 16 esta niña se está volviendo mujer…
    ¡¡¡FELICITACIONES!!!

  7. Antonio Fernandes Neto says:

    Prezada Dalila – Parabéns pelos l6 anos da Alpharrabio. Parece que foi ontem, quando vocês abriram o novo templo da cultura e da poesia do ABC. Desafiaram obstáculos e superaram dificuldades porque nunca perderam o entusiasmo, a crença no ideal, a vontade de ampliar o campo das artes, a arena da inteligência e a ribalta em que desfilam os talentosos intérpretes da expressão verbal.

    Alpharrabio é símbolo de uma época e instrumento dos que ousam afrontar o mundo do imobilismo, alimentado pela ambição que cega e pelo delírio dos egocêntricos. Por isso veio para ficar, vencer e engrandecer a cultura, Santo André e o Brasil. Abraços Fernandes Neto

  8. Paulo Alvarenga Isidorio says:

    Desejo felicidade pelo aniversario. Fiz parte de uma mesa de debates sobre cultura que envolveram as 7 cidades. Em particular Diadema. Estive junto com Ivonice Satie, Marta de Betania. Para mim foi uma experiencia unica e particular. Hoje moro no Mato grosso do Sul, especialmente Bonito. Estive no teritório indigena Kadiwéu por dois anos e lá escrevi um manuscrito que pretendo publica-lo. Agora me concentro na redação de um livro ambientado ai no ABCD. E gostaria de publica-lo em sua Editora. Vamos conversar para seria uma honra.

    Paulo Alvarenga Isidorio