Por que ler poesia

Por cerca de duas horas o poeta Tarso de Melo discorreu na manhã do último sábado, no Alpha, sobre os inúmeros motivos que pudessem responder à proposta do título de sua palestra. Uma das perguntas já proposta na sinopse anteriormente divulgada da palestra, ou seja, se a poesia é uma forma de conhecimento, foi respondida por Tarso de Melo como afirmativa. Ele acredita que “a poesia tem condições de levantar véus que as outras formas de literatura não conseguem”, bem como acredita que “contradições do mundo onde as peças não se encaixam, só a poesia é capaz de mostrar, porque o discurso da poesia não pode ser substituído por outros. O que está dito ali faz sentido para quem lê, mas não é transmissível, a poesia não precisa de intermediários.” O leitor de poesia percebe isso, continuou o poeta, mas ele não consegue falar disso em outra forma que não seja a própria poesia, pois a forma de poesia é o próprio dizer dela. A função da moderna poesia, assegura o poeta, é a de ser poesia. E assim, com intervenções e acréscimos da platéia, afinal, há muita coisa de polêmico nisso tudo, a conversa seguiu manhã adiante.

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Quanto à conclusão, ora a conclusão… “não existe resposta para essa questão, a poesia expulsa as definições que fazem dela. A poesia só faz com que se continue perguntando, como questionamento Socrático, e essa busca deve ser feita em cada poema” , afirmaTarso, para em seguida confessar não ter pré-concepções em relação à poesia. “O que interessa é ler. Não é da forma que eu gosto, mas do que está escrito.” Bem, não sei se devemos acreditar em tudo que o poeta disse, pois, leitor de repertório erudito que é, certamente não lê poesia lendo simplesmente, mas buscando ali, algo que ultrapasse o vulgar e que não precisa estar ali exatamente escrito. O ano dedicado à poesia no Alpha, como se vê, começou em alto estilo, com a bela exposição da artista Constança Lucas e a competente, bem humorada, cativante e provocadora palestra do jovem, mas douto poeta (além de estudioso de literatura, por gosto e vocação, é Mestre e doutorando em Filosofia do Direito, pela Universidade de São Paulo).

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A programação de aniversário continua nesta quarta-feira, dia 27.02, com o retorno das atividades do Cineclube Alpharrabio, entrando no seu quarto ano, sempre coordenado pelo prof. Edmundo Epifanio Dias, agora com duas reuniões mensais. O tema para este ano “Cinema no Mundo” (nas reuniões de quarta-feira), será centralizado no país de origem do filme e, nas reuniões de sábado, abordará o tema da Poesia. Este primeiro encontro aborda o filme Paris Adormecida, do realizador Rener Clair, França, 1923. Até lá. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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6 Responses to Por que ler poesia

  1. Tarso says:

    Dalila, amiga,

    obrigado mais uma vez pelo convite. Não sei se
    fui confuso demais na minha fala, mas basicamente
    o que eu tentei foi expor e debater duas idéias:

    1) a função que a poesia exerce (por exemplo,
    para lembrar do Benedito Nunes, escapar pelo
    telhado quando a reflexão chega a um beco sem
    saída) somente pode ser exercida por ela.

    2) a leitura de poesia pode prescindir de mediações
    (como críticas, esquemas, conceitos etc.), porque
    o leitor é livre para passear a seu modo pelo texto.
    Quanto mais livre ele for, melhor para o poema,
    para o próprio leitor e até mesmo para o poeta!
    Junto a isso: tais mediações não substituem o poema
    (como tantas vezes surgem tendências “professorais”
    voltadas a dogmatizar a leitura, a antecipar a leitura,
    a fazer com que o leitor leia como vem sendo lido).
    As mediações (o que podemos chamar de repertório,
    genericamente) serão importantes na medida em que
    respeitem a natureza artística do poema, digo, o fato
    de que o poema, antes de qualquer coisa, é poema,
    elaboração artística da linguagem, experimento.

    Acho, enfim, que posso ter perdido um pouco o eixo
    na demonstração dessas idéias. Mas não foi por mal…
    Talvez se deva ao fato de que, quando leio um poema
    como aquele que usei de exemplo (Portrait of a lady,
    do João Cabral), por mais que meu queixo caia e eu
    o considere genial, não acredito que se possa exigir
    de alguém que goste tanto dele quanto eu. Digo: não
    há nada nele que o torne obrigatório, nada nele me dá
    autoridade para dizer que as pessoas devem ler poesia.
    Eu acho que as pessoas podem ler poesia, mas não são
    obrigadas, não têm o dever de ler. Muito menos ainda
    eu afirmaria que alguém deve ler desta ou daquela forma.
    Temo cair num excessivo relativismo, mas acho mesmo
    que ninguém é obrigado a ler poesia. Aliás, acho que
    lê poesia melhor quem a pode ler irresponsavelmente!
    A meu ver, é fundamental que o leitor possa tanto ler
    quanto deixar de ler, ou seja, que ele leia porque quer.
    Porque se ele ler porque foi obrigado (como em cursos,
    vestibulares etc.), na maior parte dos casos ele terá uma
    relação tão mediada com o poema que o próprio poema
    acabará sendo a coisa menos importante da “lição”…

    Como você pode ver, são idéias que vão passando pela
    cabeça e que justificariam muitas outras conversas.

    Mais uma vez, obrigado. Grande abraço,

    Tarso

  2. Olá, caro Tarso,
    Não, você não foi nada confuso, pelo contrário, mostrou visível segurança nas suas colocações, jamais perdeu o fio da meada do seu raciocínio, mesmo quando interrompido; enfim, fez uma brilhante palestra. Eu, no meu cansaço mental é que não devo ter dado conta de tudo aquilo no meu, até certa medida, irresponsável relato aqui no blog, mas que agora com a sua complementação, acredito dará ao leitor uma visão muito mais aproximada de tudo que ali foi dito e muitíssimo bem recebido pelos presentes. Mas a conversa deve continuar durante todo este ano, sob diversos aspectos. Viva a poesia! dalila

  3. Constança says:

    a leitura de poesia é a liberdade de abraçar as palavras

  4. isa says:

    Ao Tarso:
    Adorei o seu comentário. É mesmo isso que eu penso. Pessoalmente acho que a poesia tem um papel libertador.
    Como tal, a sua leitura nunca deverá ser imposta mas sim sugerida. A sua leitura deverá proporcionar que cada um “viaje” a seu belo prazer, sem preceitos ou conceitos pré definidos.
    É-se livre quando se sente a poesia na sua plenitude.
    Gosto de “viajar” num belo poema, um dia hei-de ser livre.

  5. catherine says:

    preciso saber pq ler poesia hoje