Anotações de leituras

Chove e, na quietude da noite, aproveito para retomar a leitura de Meus Demônios, de Edgar Morin, abandonado há tempos por pura implicância. Vinha lendo muitas coisas do pensador francês (como A Cabeça bem feita, e Amor, poesia, sabedoria, além de artigos e entrevistas na imprensa) e passei a admirá-lo, sobretudo pelo seu referencial literário e suas reflexões sobre questões do mundo moderno, que ele chama de pensamento complexo. Mas este livro, narrado sempre na primeira pessoa, revela um homem soberbamente vaidoso. Arrefeceu meu entusiasmo. Minha paixão bandeou-se para G. Steiner, a partir da deliciosa leitura de G.Steiner à luz de si mesmo, relato do período formativo do pensador, seguido de Gramáticas da Criação e Nenhuma Paixão Desperdiçada, todos verdadeiramente apaixonantes. Aí vai um trecho de suas reflexões nesse último título: O “patriotismo” de quem procura a verdade é diametralmente oposto à alternativa cívica de Rousseau. A única cidadania que o intelectual reconhece é a do humanismo crítico. Ele sabe que o nacionalismo é uma espécie de loucura, uma infecção virulenta que leva a espécie humana ao massacre mútuo. Sabe que ele significa a abstenção do pensamento livro e transparente e da busca de justiça pela justiça. O homem ou a mulher cuja pátria é o texto é, por definição, alguém que faz objeções conscientes: à mística vulgar da bandeira e do hino, à negação da razão que proclama “minha nação, esteja ela certa ou errada (…) Recomendo àquele que ficaram com o gostinho de “quero mais”, que vão ao livro, Editora Record. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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3 Responses to Anotações de leituras

  1. isa says:

    Como é bom entrar aqui, que saudades, há sempre tanto para absorver…

    G. Steiner era-me completamente desconhecido. Até ontem, isso não teria qualquer importância – ele também não sabe quem eu sou – mas hoje, hoje é hoje e quando sair daqui vou a uma livraria ou à biblioteca, de hoje não passa.
    «O mármore desfaz-se, o bronze deteriora-se, mas as palavras – aparentemente o mais frágil dos meios – sobrevivem.»(G. Steiner)
    Quem, na palavra, encontra fragilidade, mesmo que aparente, tem que ser lido com prazer no prazer de se entender.

    E porque estamos em Abril e Abril não é um mês qualquer, tenho que aqui deixar excerto de uma bela obra de um grande poeta que usa a palavra como se cada uma fosse uma insurreição.

    «Era uma vez um país
    onde entre o mar e a guerra
    vivia o mais infeliz
    dos povos à beira-terra.
    (…)
    Era uma vez um país
    de tal maneira explorado
    pelos consórcios fabris
    pelo mando acumulado
    pelas ideias nazis
    pelo dinheiro estragado
    pelo dobrar da cerviz
    pelo trabalho amarrado
    que até hoje já se diz
    que nos tempo do passado
    se chamava esse país
    Portugal suicidado.
    (…)
    Foi então que Abril abriu
    as portas da claridade
    e a nossa gente invadiu
    a sua própria cidade.
    Disse a primeira palavra
    na madrugada serena
    um poeta que cantava
    o povo é quem mais ordena.
    (…)
    Foi esta força viril
    de antes de quebrar que torcer
    que em vinte e cinco de Abril
    fez Portugal renascer.
    (…)
    E em Lisboa capital
    dos novos mestres de Aviz
    o povo de Portugal
    deu o poder a quem quis.
    Mesmo que tenha passado
    às vezes por mãos estranhas
    o poder que ali foi dado
    saiu das nossas entranhas.
    (…)
    E se esse poder um dia
    o quiser roubar alguém
    não fica na burguesia
    volta à barriga da mãe!
    Volta à barriga da terra
    que em boa hora o pariu
    agora ninguém mais cerra
    as portas que Abril abriu!»

    Ary dos Santos – As Portas que Abril Abriu

  2. isa says:

    Afinal fui aos dois sítios. Da livraria, trouxe “Provas e Três Parábolas” e na Biblioteca devorei logo “O Silêncio dos Livros”, este último bem pequeno de tamanho (70 páginas), bem grande de muito conteúdo – viajamos aos primórdios da palavra oral e chegamos à palavra escrita de forma alucinante, levando-nos a meditar sobre as ameaças e fragilidades da mesma.

    Quanto a “Provas e três parábolas” – cheiramos o desalento, o desmoronar de crenças, a justiça posterior à queda de um regime déspota, prepotente. Espero que no final (luto contra o meu péssimo vicio de ler as ultimas páginas) Steiner me brinde um final de esperança.

    Obrigado Dalila, devo-lhe mais este autor.

  3. Sônia says:

    Olá Dalila,

    fiquei feliz em encontrar aqui no blog uma seção chamada Anotações de leituras”. Vou voltar várias vezes tanto para beber dessa fonte (já que às vezes me falta inspiração para saber qual o próximo livro a ser lido) e também, se calhar, ocasionalmente, colocar o resumo de algum livro cuja leitura tenha valido a pena.Ou não…rs
    O importante é trocar informações entre nós, que somos apaixonadas pela literatura.
    Abraços,
    Sônia