Maios

Estadao 001

Maio 68. Quem era eu? Ora, era outra! (parafraseando Pessoa). 21 anos, maioridade legal e uma incompreensível adolescência política. O Maio de Paris era aqui (os trabalhadores em Osasco, Glauber no cinema, Chico, Caetano, Gil e Vandré e outros na música, Morte e Vida Severina, Arena conta Zumbi, Roda Viva e tantos no teatro, as intrigantes receitas culinárias e os poemas de camões nas primeiras páginas do Estadão haviam me dado o sinal) mas só me dei conta disso quando as manchetes mostraram Paris em chamas e um grafito no muro da Sorbonne (tradução minha, ruim): seja realista, exija o impossível. Era isso, o inconformismo havia tomado conta da minha juventude e eu não conhecia nenhuma arma de combate (a minha cultura política de então estava muito longe de me colocar ao lado dos manifestantes mais ardorosos). Datilografei a frase, coloquei-a bem visível sobre minha escrivaninha na multinacional metalúrgica em que trabalhava, como Secretária da Gerência de Marketing, cargo que me obrigava a ler a coluna do Roberto Campos e o índice diário da Bovespa no mesmo jornal dos Mesquita que serviam a dois senhores. Fui à caça de informações mais precisas para a minha cartografia pessoal política. Eu sabia muito pouco, mas (descobri depois, com Riobaldo), desconfiava de muita coisa. Foi essa desconfiança ( mais os sinais) que me apontou o Brasil como campo de luta, sem que jamais dela tivesse participado diretamente. Fui ler outras coisas, mais alternativas, como o Jornal Opinião e um pouco mais adiante, o jornal Movimento e O Pasquim que ia empilhando na escrivaninha ao lado de livros como Quarup, de Antonio Callado, me identificando com padre Nando, seu desencantado personagem. As jovens de minha idade deixaram de identificar o mês de maio como o “mês das noivas”, muito menos “ser noiva”, costume que, juntamente a tantos outros, foi relegado diante da queda de paradigmas (de toda ordem) instaurada aqui e além (o que, devo confessar, não foi totalmente o meu caso, pois, meia dúzia de anos depois, capitulei, rendi-me à tradição e casei de véu e grinalda na charmosa Capela do Murumbi (a pequenina, lá em cima do morro) com o homem com quem vivo até hoje (outra traição à minha geração tão inconformista… fato que me (nos) transforma em verdadeiro(s) ET(s) do Século XXI).
Noto, porém, que ao lado da maciça celebração reflexiva dos 40 anos do Maio que, na verdade, foi planetário, neste maio de 2008, o comércio anuncia seus produtos domésticos de olho no “mês das noivas”. Portanto, não traí sozinha alguns dos “ideais da revolução”. A fila de espera nas Igrejas é (nas mais cobiçadas) de, no mínimo um ano, nos bufês idem. São maios, maduros (imaturos) maios, glosando o revolucionário luso Zeca Afonso, de quem a minha amiga Constança (inabalável feminista) tanto gosta (e eu também).
Talvez tenha escrito tudo isto só pra justificar a publicação (antes que maio termine) de um poema que encontrei há pouco no meu baú, onde permanecia inédito. Ei-lo:

Sonhos brancos

Branco sobre branco
brilho sobre brilho
a noiva compõe o
sonho, de
panos revestido

Véus disfarçam falhas
alfinetes (provisórios?)
modelam e
sustentam quimeras

Diáfana, a cauda
prolonga a fantasia
adia o real para
o dia seguinte

dalila teles veras

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to Maios

  1. Rosana Chrispim says:

    Este poema pode ter sido tirado do baú, mas não devia estar tão no fundo. As rebeldias fazem parte da juventude. O normal do humano é questionar, inconformar-se, quebrar paradigmas e também rever, retomar, capitular. Fugir a isso seria anormal. Senão, como evoluir? Pertinente, muito pertinente sua reflexão. Pobres daqueles que não sobreviveram suas inquietações e definham o intelecto!

  2. Constança says:

    são as inquietações que têm dado melhor qualidade de vida a todos nós
    no maio de 68 tinha eu 7 anos e andava nas nuvens literalmente, com uma infância cheia e imaginativa

    vestidos de noiva sempre me pareceram uniformes de um exército