H. Dobal e homenagem às gentes do Piauí

Recebi, na noite do dia 22 último, um email do amigo Hildengard Meneses Chaves, informando que “Morreu no início da noite desta quinta-feira (22) um dos mais importantes escritores da literatura piauiense, Hindemburgo Dobal Teixeira, o H. Dobal. A informação da morte foi confirmada ao Portal AZ pelo professor Cineas Santos”. Abalada (a morte de poetas, esses parentes por afinidades eletivas, sempre me afeta), corri à minha prateleira de poesia brasileira à busca de obras desse interessantíssimo poeta que juntamente com O. G. Rego, no dizer do crítico M. Paulo Nunes, “ foi responsável por uma profunda renovação temática e expressional em nossa literatura. A esta geração deverá creditar-se também a publicação do caderno de letras Meridiano, que se tornou porta-voz, no Piauí, da renovação estética promovida pelo pós-modernismo”, já que o modernismo de 22, ou mesmo o de 30, ainda de acordo com Nunes, não tiveram praticamente expressão naquele estado. H. Dobal recebeu elogios críticos à sua obra de nomes como Manuel Bandeira (“Só mesmo um poeta ecumênico como Dobal podia fixar sua província com expressão tão exata, a um tempo tão fresca e tão seca, despojada de quaisquer sentimentalidade, mas rica do sentimento profundo visceral da terra”, a propósito de seu livro de estréia, O Tempo Consequente); Wilson Martins (“O Sr. H. Dobal retransforma a poesia popular e folclórica pelo instrumento da poesia erudita e literária”, no “O Estado de São Paulo”), José Cândido de Carvalho, Almeida Fischer, Fábio Lucas, Assis Brasil, dentre outros. Dobal foi também elogiado tradutor de Eliot e Cummings entre outros.
Hindemburgo Dobal Teixeira, era esse o seu nome completo, nasceu em Teresina (17 de outubro de 1927), bacharelou-se em Direito na turma de 1952 (da qual foi o orador) da Falcudade de Direito do Piauí. Passou a residir em Brasília, quando, por concurso, foi nomeado Fiscal do Imposto de Consumo do Ministério da Fazenda. Foi professor da Escola Superior de Legislação Fazendária, em Brasília. No Governo Médici, fez parte da comissão que reestruturou todo o sistema tributário nacional (a bom que se lembre que, a exemplo de Carlos Drummond de Andrade, servir sob a Ditadura não significa “servir à ditadura”). Posteriormente, comissionado pelo Ministéio da Fazenda, fez cursos e estágios em Londres e Berlim, sendo considerado um dos mais brilhantes e competentes técnicos em legislação e Técnica Fazendária, no país. Voltou a sua cidade natal em 1986, onde permaneceu até sua morte.
O Dia sem presságios (Prêmio Jorge de Lima 1969) A Viagem Imperfeita, Grandeza & Glória nos Letreiros de Teresina, Os Signos & as Siglas, Ephemera, Uma Antologia Provisória e Gleba de Ausentes, uma antologia provisória, de 2002, bem mais completa que a primeira, foram os títulos que encontrei em meu acervo e reli, como forma de homenagem a esse singular poeta. Aí vai um poema, de seu primeiro livro O Tempo Consequente, 1966), oportuno e reflexivo neste momento:
A Morte

A morte aparece
sem fazer ruído.

Senta-se num canto
fica indiferente
com seu ar de calma
absoluta.
Mira longamente
o quarto o retrato
a cama os remédios
postos entre os livros
sobre a mesa escura.

Depois se levanta
sem nenhuma pressa
sem impaciência
retorna ao seu mundo
a morte, de gestos
claros e serenos

Este registro me remete aos laços afetivos e intelectuais que estabeleci com o estado do Piauí, a partir de 1972, ano em que me casei com Valdecirio, filho daquela terra e que para lá me levou, em lua-de-mel. A partir de então, muitas foram as viagens continentais SP-Teresina-SP, filhas às costas, à busca de ancestralidades e identificações que lhes pudessem servir de legado atávico e cultural.
Ao longo de todos estes anos, travei conhecimento e amizade com gentes de todas as classes, desde os saudosos Chico Boíba, lavrador e grande contador de histórias e Mestre Elias, líder de um grupo de Bumba-meu-boi, como também intelectuais e artistas, dentre eles o cartunista Albert Piauí, o compositor Chagas Vale, o poeta e pesquisador Ivanildo Di Deus e o videomaker, animador cultural Hildengard Meneses Chaves, todos estes de Luzilandia, cidade natal de Valdecirio.
Na capital, Teresina, fui apresentada a muitos dos escritores da terra, muitos deles pelas mãos dadivosas de Cineas Santos, professor, escritor, editor, fomentador cultural, enérgico e incansável defensor da cultura piauiense, que registrou o melhor da literatura daquele estado em livros que fizeram história no catálogo da sua Editora e Livraria Corisco. Desde o saudoso A. Tito Filho, historiador, escritor e intelectual de memória e erudição impressionantes, passando por Chico Miguel de Moura, Kenard Kruel, Rubervam do Nascimento, Paulo Nunes e Hardi Filho, Elmar Carvalho, com quem até hoje, com alguns, exporadicamente, “troco figurinhas”. Muitos outros me foram “apresentados” apenas através da obra. Assim, a cada viagem, a nossa biblioteca piauiense ia se enriquecido, chegando hoje a algumas centenas de volumes.
Ainda que poucos hoje (re)conheçam, acho oportuno aqui sublinhar alguns autores centrais da literatura brasileira que nasceram no Piauí, a começar pelo grande simbolista Da Costa e Silva (de quem Manuel Bandeira incluiu o soneto “Saudade” em sua antologia “Obras Primas da Lírica Brasileira”), passando por Mário Faustino, poeta, crítico agudo e erudito, que morou no Rio e escreveu, nos anos 50, no Suplemento Literário do Jornal do Brasil, a mítica coluna “Poesia-Experiência” e, menos conhecidos a quem o Brasil deve mais reconhecimento e estudos, Assis Brasil e O. G. Rego de Carvalho, autores de obras primas como os romances Beira Rio Beira Vida e Rio Subterrâneo, respectivamente, além de H. Dobal, mote deste texto e que merece fazer parte dessa constelação. E, claro, não poderíamos deixar de mencionar o poeta, jornalista, crítico, múltiplo artista, Torquato Neto, este amplamente (re)conhecido como letrista ligado ao movimento Tropicália.
Em 2002, quando do trágico e precoce desaparecimento do poeta Ramsés Ramos, escrevi e publiquei um texto denominado “Piauí: a terra dos poetas trágicos” referindo-me a três de seus expressivos poetas que morreram jovens e de maneira trágica: Mário Faustino, Torquato Neto e Ramsés Ramos, este último de quem também fui amiga e admiradora, patenteando, assim como na plaqueta “Forasteiros registros nordestinos” e outros textos publicados em revistas e jornais, minhas relações afetivas e intelectuais com as gentes do Piauí e que aqui e agora desejo reforçar. dalila teles veras

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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3 Responses to H. Dobal e homenagem às gentes do Piauí

  1. Naeno says:

    VIDA

    Depois que a vida chorou pelos meus olhos
    E soprou a minha boca pela boca dela
    Temos sido assim amantes barulhentos
    Quando em nossas encruzas
    Mostramo-nos os dentes.
    Depois de fincada no chão uma semente,
    Pelas mãos dela, e eu era um silente
    Pequeno grão suado por sua mão fechada
    E ali já germinava, e ali eu florava.
    Aflora agora uma vida em dormência
    Sob os caprichos dos seus pés, fui
    Calcado, e transplantado tantas vezes
    Por não ser o enfeite pra sua janela aberta.
    E eu não pergunto de mim a ela
    Não incomodo a dona dos arados,
    E o que quer de mim, nessa lavoura úmida?
    Que eu chore, que me decline.
    Serão meus frutos de sabor ruim,
    Que ela não arreda o seu olhar,
    E quando eu digo gosto desse canto,
    Ela me espanta apontando um outro igual
    Faz-se arrendatária, também de mim.
    Eu me iludo que com os outros
    É mesmo assim:
    Por ela transplantados, fustigados,
    Enxertados, lavrados.
    E que não têm sentido
    Os seus caprichos arcaicos.
    E terá acertado, e sabe o que faz.
    ______________________________
    naeno*com reservas de domínio

  2. Naeno says:

    A CIDADE DOS MEUS OLHOS

    Já houve um tempo em que da janela,
    Eu via uma cidade projetada na calçada,
    Um espaço curto e fraterno,
    Onde as pessoas se acenavam de perto,
    Beijavam-se de perto,
    Despediam-se de perto,
    E se abraçavam várias vezes no dia.
    A janela existe com uma fila de jarros,
    Com flores silvestres, tiradas dos beirais das serras.
    Meus olhos me arremetem ao tempo da Cidade,
    Agora esverdeada em sua base,
    E colorida em seu cume.
    Mas deu noutro lugar diferente.
    As pessoas de dispersaram,
    Alguns venderam outros compraram,
    Pedaços, vãos inteiros de terras.
    E tomaram distância umas das outras
    Ainda bem que resistiu o amor.
    E elas agora se beijam de longe,
    Acenam-se de longe,
    Despedem-se de longe,
    E quase não se vêem.
    ___________________________
    naeno*com reservas de domínio

  3. Naeno says:

    DESAFORTUNADO

    Eu conheci a casa de um desafortunado.
    Nela vivi quase toda minha vida,
    Apanhei gravetos para os invernados,
    Puxei gavetas e guardei retratos,
    Um arquivo morto de mim retirado.
    Eu andei por dentro da casa cumeada
    Tropecei pelos atalhos, cadafalsos
    Troquei uma vida, que me dera, inventada
    Por uma que eu vi de perto, andando enfalço
    Fui o primeiro desordeiro do motim.
    Não tive nunca uma gota de raiva,
    E foi assim, andando dentro e fora dos pântanos
    Que hoje dou graças à sorte fora de mim.
    A imaculada virgem, mãe da Conceição
    O meu amparo, de quem mais eu vi nos olhos,
    A minha amada, o tempo todo cortando a rota
    Dos desamados, sempre me trouxe por sua mão.
    Fiz pisoteio até o cultivo dos desgarrados,
    E vi a festa da colheita das formigas,
    E disso eu disse, com o coração e alma aflitas,
    Não me descanso, mesmo quando estou sentado.
    E da lavoura que os cupinzeiros demarcavam,
    Umas espigas de milho bem debulhadas,
    Pus o sabugo como mastro da bravata,
    E lutei só, com Conceição, nela amparado.
    Olha-me Deus, no que escrevi,
    Eu relatei a minha vida e Vos traí,
    Era um segredo até o dia por vir,
    Até cansar, e cansado, aqui cair.
    ______________________________
    naeno*com reservas de domínio