Celebração fraterna do intelecto

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Manhã que ficará marcada no calendário da memória afetiva e intelectual da região do Grande ABC: sábado, 7.6.08. O auditório do Alpha abarrotado. Escritores, memorialistas, professores, inteligência local que de há muito se conhece e, sobretudo, se interessa pela história local. Jovens, poucos, mas muito interessados. Compondo a mesa: Fraya Frehse, Alexandre Polesi, Milton Andrade e o próprio homenageado, José de Souza Martins, um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros, nascido em São Caetano do Sul, autor, dentre muitos, de dois livros que eram apresentados ao público naquela ocasião: A Aparição do Demônio na Fábrica (origens sociais do Eu dividido no subúrbio operário) – Editora 34, 2008, e A Sociabilidade do Homem Simples (Cotidiano e História na modernidade anômala), 2ª edição revista e ampliada, Editora Contexto, 2008.

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Primeira a usar da palavra, Fraya Frehse, doutora em Antropologia e professora no Departamento de Sociologia da USP, comentou o livro A Sociabilidade do Homem Simples, dizendo que sentia-se honrada em estar ali para celebrar, num cenário especial, muito próximo do próprio subúrbio de onde José de Souza Martins veio. “A grande conquista de JSM é que ele celebra sociologicamente o subúrbio, onde nasceu, celebrando cada um de nós aqui, quem passa lá fora, quem cruza o subúrbio de trem, as crianças das ruas e nas ruas, os políticos, os empresários e, mais longe mas nem tanto, o homem vindo do campo para batalhar por uma vida melhor. E por que nos celebra? Porque em cada um de nós mora o homem simples que JSM busca através da palavra e até das imagens, bastando ver a bela e enigmática foto da capa do livro, de sua autoria.” E por aí foi a análise da professora Fraya, sempre numa linguagem que eu diria, quase literária e que, sobretudo, demonstra a admiração pelo trabalho daquele que foi seu mestre.
Obs.: Para aqueles que ainda não leram os livros e não estiveram presentes ao encontro, gostaria de sublinhar que JSM destaca e analisa, em ambos, a diferença entre “subúrbio” e “periferia”. Diz ele: “A noção de subúrbio foi utilizada em relação ao entorno da cidade de São Paulo durante dois séculos e tem a concepção do espaço que nele vê as variações de um estilo, de uma vida com estilo, da vida vivida, de certo modo, como obra de arte, preocupada com os adornos e os detalhes, a beleza do insignificante. (…) o conceito de subúrbio nunca foi elaborado para dar conta de problemas sociais. Foi e tem sido muito mais a designação de um modo de vida peculiar, especificamente referido às regiões de confim entre a cidade e o campo. (…) O subúrbio é a negação da periferia (…) A concepção de subúrbio cedeu lugar, indevidamente, à concepção ideológica de “periferia”, um produto do neopopulismo cuja elaboração teve a contribuição do próprio subúrbio para distinguir-se dos deteriorados extremos de uma ocupação antiurbana do solo urbano.”

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Como “isca” de sedução à leitura, o ator Milton Andrade leu trechos do livro A Aparição do Demônio na Fábrica, deixando, a seguir, a palavra com o jornalista Alexandre Polesi, ex-diretor de redação e membro do Conselho de Administração do Diário do Grande ABC e atual diretor editorial do Jornal Diário de Guarulhos. Alexandre fez observações de leitor atento não só do livro em questão, mas das aproximações e retomada de temas da vida cotidiana que são a base de outros livros do autor, relacionados com a sociologia da vida cotidiana na região metropolitana de São Paulo e, em especial no ABC. , tema central de Subúrbio e dos dois livros ora apresentados. Destacou dois capítulos que tratam, de formas diferentes, da questão da modernidade anômala no desenvolvimento de São Paulo, como a construação da Vila de Paranapiacaba que, ao mesmo tempo em que introduz elementos de modernidade, também introduz, na sua própria construção espacial, a vigilância, através do olhar panóptico, ou seja, o controle da vida das pessoas, moderna forma de controle social, tema que é retomado no quarto capítulo, que dá título ao livro, no qual a “aparição do demônio”, é analisada sociologicamente como forma de representação das inquietudes provocadas nas operárias pela modernização introduzida numa fábrica de cerâmica em São Caetano do Sul. Em muitas de suas observações, Alexandre exerceu o papel de provocador, apontando/interpretando/questionando algumas passagens do livro, que levou o autor a respondê-las, mesmo reconhecendo não ser o debate a idéia do encontro.

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O professor José de Souza Martins iniciou sua fala agradecendo a “disponibilidade e generosidade de Fraya, Alexandre e Milton” por exprimirem as primeiras reações de leitores dos livros, dizendo-se “honrado com a presença de todos, por esta celebração quase religiosa pelo livro e pela escrita” -”não é ruim que o livro seja objeto de celebração”, e também pelo fato do encontro dar-se “nesta instituição que é o Alpharrabio”. A quase “aula magna” de sociologia que foi dada a seguir, acabou também por representar uma afirmação afetiva do lugar onde nasceu e viveu até seu ingresso na Faculdade. Traçando uma breve trajetória de seu trabalho, após estudos sobre conflitos sociais, violência no campo, situações das populações indígenas, escravidão, que o obrigaram a percorrer praticamente o Brasil inteiro, desde a Amazônia, Rondônia e Acre, em pesquisas de campo que resultaram em 9.000 páginas anotadas em cadernetas e vários livros delas resultantes, disse o professor ter optado por uma nova linha de trabalho que é a de resgatar a realidade da região que melhor conhece, a região do ABC e, consequentemente, São Paulo, representada em livros anteriores, como Subúrbio, e nestes dois novos livros. Para honra e surpresa dos da casa, também ouvimos JSM confessar que, se um dia, por algum motivo, voltasse a morar no ABC, “escolheria morar perto do Alpharrabio, onde poderia vir todos os dias, usufruir desta forma excepcional de civilidade que é uma livraria que não é um botequim de livros”.

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Feito o registro do memorável encontro do último sábado, que culminou com um “vinho de honra” como brinde e os autógrafos do autor, tomo a liberdade de transcrever aqui a minha reação à leitura de A Aparição do Demônio na Fábrica, já expressa ao autor, em mensagem eletrônica, como forma de singela homenagem pessoal a esse grande “intérprete do ABC”, utilizando-me de expressão cara ao nosso Possidonio Sampaio:
A aparição do demônio na fábrica me comoveu e envolveu a ponto de não poder largar o livro sem chegar ao seu final, por vários motivos: primeiro, pela maneira, para mim, espantosa, como um fato banal, vivenciado por todos nós no nosso cotidiano pode ser analisado de forma histórica, social e científica (como acontece ali com vários fatos, costumes, enfim…), mas também ser representado como pura literatura, que para além do conhecimento, nos transmite prazer, por ser bem escrita, utilizar do humor (do humor inteligente, característica pouco encontrável em trabalhos de cunho acadêmico e mesmo literário) e do trato da linguagem. A agudeza da memória e do registro do cotidiano (o luto, os cheiros, a religião – quanta identificação!), amparados pela pesquisa e a ciência, resultaram num admirável texto que reputo indispensável a todo aquele que possua o mínimo interesse pela história e pela cultura do ABC/do Brasil, sendo que o último capítulo, no meu modo de ver de simples leitora, é um verdadeiro roteiro para aquilo que deve ainda ser pesquisado sobre nossa rica/controversa/mal contada história do trabalho, que deveria ser indicado por todo o professor universitário da região aos seus alunos e/ou orientandos.” dalila teles veras

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About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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3 Responses to Celebração fraterna do intelecto

  1. Parabéns pelo evento, Dalila! Não pude comparecer, mas pretendo ir ao próximo. José de Souza Martins é imperdível, uma das inteligências mais brilhantes do ABC.

  2. Antonio Possidonio Sampaio says:

    Dalila

    não posso deixar de me pronunciar sobre a celebração referida, de tanta emoção que senti. Você conseguiu traduzir aquela manhã maravilhosa no Alpha que apropriadamente denomina de celebração fraterna. Imagino o trabalho para resumir o acontecido, mas você, com régua e compasso, conseguiu esse milagre, que admiro a aplaudo. São registros prontos para a continuação de Alpharrabio 12 anos. Quanta magia, hein Dalila! Abraços do Salvador Bahia

  3. Dalila & Cia… meus amigos fraternos e jamais esquecidos…
    Pelo blog estou revivendo os “cafés”, papos e lições tantas aprendidas e vividas nesta verdadeira Compania Ilimitada.
    Momentos como estes que vejo e me sinto meio longe, mas, inseridamente presente no coração e lembranças carinhosas; todas elas infalivelmente carinhosas, pois, assim foi minha passagem efetiva pelo tão querido e admirado Alpha e, espero, ainda possa reviver.
    Muitas saudades de todos e todas as situações e momentos marcantes em minha vida.
    Hoje, trabalhando exclusivamente com Braille, ainda vejo e sinto as conversa que me ficaram gravadas pela vida durante tão bom tempo.

    Abraços e até breve.
    Canova.
    Sempre feliz e radiante!