O santo e o poeta

Hoje, 13 de junho, é comemorado o dia de Santo Antônio, popularmente cultuado como um santo casamenteiro.

SantoAntonio
(imagem de Sto.Antonio confeccionada por ceramista do Bairro Poty Velho, Piauí – coleção de dtv e foto de Luzia Maninha)

Nascido em Lisboa, é conhecido em Portugal como Santo Antônio de Lisboa. Ordenou-se em Coimbra e logo depois ingressou na Ordem Franciscana. É, então, mandado para a Itália para lecionar Teologia na Universidade de Bolonha, depois para a França e, finalmente, para Pádua, na Itália, onde atraía multidões para seus sermões, angariando, ainda em vida, a auréola de santo. Permaneceu em Pádua até a sua morte, em 13 de junho de 1231, aos 36 anos de idade e, por esse fato, também é conhecido como Santo Antônio de Pádua. Foi canonizado em 1232 pelo Papa Gregório IX e os seus restos mortais estão na Basílica de Santo Antônio, em Pádua.
Em 1995, os 800 anos de seu nascimento foram marcados por várias atividades em São Paulo: no Clube Português, o lançamento da coletânea “Santo Antônio na Poesia de Portugal e do Brasil”, organizada por João Alves das Neves, que mostra, em versos, a popularidade do santo, que muita gente acha que são dois, um de Lisboa e outro de Pádua. O MASP exibiu, trazida de Portugal, a exposição “Santo Antônio – O Santo do Menino Jesus”, com obras do século XIII ao XX dedicadas ao santo, onde foi possível constatar a força do imaginário popular em torno do santo lisboeta.

Pessoa1[Constança Lucas]

Mas é também a 13 de junho que se comemora o aniversário de nascimento de outro português, que nada revelou de santo mas que até hoje opera “milagres” na sensibilidade dos leitores: Fernando Pessoa, que neste ano de 2008, comemora seu 120º aniversário. Esta coincidência de datas não escapou à criatividade do poeta, curioso e estudioso de todas as doutrinas religiosas e ocultistas, que dedicou um poema ao santo: “Nasci exatamente no teu dia/Treze de junho, quente de alegria (…) Que tu és o meu santo sem o ser./ Por isso o és a valer,/ Que é essa a santidade boa,/ A que fugiu deveras ao demônio”.
Ao contrário de Santo Antônio, Pessoa não conheceu a popularidade em vida. Morreu com apenas um livro publicado “Mensagem” e, apesar de conhecido nos meios literários pela ousadia de suas propostas estéticas, desconhecido do grande público.
No entanto, durante os seus 47 anos de vida, esse instrospectivo correspondente comercial de modestos escritórios (única forma encontrada para sobreviver), secretamente, em seu quarto alugado, construía a maior obra poética de que se tem notícia na língua portuguesa (única maneira de não enlouquecer).
Não contente em ser ele mesmo, inventou heterônimos, criando para cada um deles um estilo específico e uma personalidade própria, com data de nascimento, características físicas e maneira de ver e pensar o mundo diferentemente. Chegou à sofisticação de estudar os seus mapas astrais e a fazer os seus horóscopos.
Nessa ânsia de despersonalizar a si mesmo e da constatação de ser plural, nasceram Álvaro de Campos, Alberto Caiero, Ricardo Reis e Bernardo Soares, os mais conhecidos, e, ainda, António Mora, Rafael Baldaia, Vicente Guedes, Barão de Teive, Alexander Search e muitos outros. Sendo muitos, seria ele mesmo global e único.
Essa caudalosa produção, deixada pelo poeta dentro de uma arca, é composta por milhares de originais, alguns febrilmente anotados em guardanapos de restaurantes e de cafés, e ainda hoje é estudada por uma equipe especialmente constituída que, volta e meia, traz ao público obras inéditas. Traduzida em vários línguas, a obra de Pessoa é hoje estudada em todos os níveis escolares. Pessoa está sendo descoberto pelos jovens com a mesma avidez com que os portugueses, seus ancestrais, enfrentavam mares ignotos, há cinco séculos atrás, e de quem ele emprestou a famosa frase “navegar é preciso; viver não é preciso”. O poeta chegou a dizer que “minha pátria é minha língua”, sem saber (será?) que chegaria ele um dia a confundir-se com a própria língua, hoje, “a língua de Pessoa”.

Em forma de homenagem ao poeta aniversariante, aí vai um poeminha de dalila teles veras:

Fingir-se
fingir-se é conhecer-se” – F.P.

Nas muitas fantasias
e feições desenhadas
os múltiplos se fizeram súditos
encruzilhadas…
Recolho as máscaras
dramático gesto
à morte dos personagens.
Dos que fui, já não sou
resta um narrador
contando inverossímeis estórias.

EM TEMPO: Há uma particularidade neste dia 13: é sexta-feira! Para exorcizar um eventual episódio de azar, basta ler um poema do Poeta e/ou botar uma fezinha no Santo que tudo se resolverá. Poderosos ambos. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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One Response to O santo e o poeta

  1. Sônia says:

    Gostei muito do novo visu do site. Parabéns! Sempre me emociona ler sobre Fernando Pessoa.

    Abraços,
    Sônia

    Nota: quero mandar um texto interessante sobre Pessoa, vou procurar a melhor forma para isso aqui no seu site.

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