Ainda o santo e o poeta, por outras vozes e fontes

Acabara eu de postar a matéria O santo e o poeta, quando recebo este poema de Maria do Carmo Ferreira, a nossa Carminha, que de há muito, lá em Niterói, RJ, comanda um grupo virtual, o SINT UNUM, com o qual (com)partilha poemas, debates, informações. Logo depois, manda-me também a Carminha a triste notícia de que irá a leilão o espólio do poeta Fernando Pessoa. Ambos, o poema pela beleza, a matéria jornalística, pela relevância, aqui merecem constar, como desdobramento de minha crônica e também como matéria para leitura, reflexão e debate, em especial, sobre patrimônio cultural. A propósito, mantivemos recentemente o mesmo debate no Brasil com relação ao espólio de Jorge Amado ameaçado de deixar o Brasil e que, felizmente, aqui permaneceu. Esperemos que o mesmo aconteça em Portugal e desde já, aqui fica lavrado um ato de repúdio por tal intenção, verdadeiro crime de lesa- pátria. (dtv)

Um breve a Santo Antônio.

Na bênção do pão.
Na bênção dos lírios.
Na bênção da água.

(A bênção das rosas.
A bênção do fogo.
Das velas cruzadas.

A bênção dos olhos,
da garganta, tudo
bento e aben’çoando)

na bênção do Pai,
do Filho, do Espírito
Santo.

Santo Antônio, servo
da Palavra.

Íntimo de Deus,
de Lisboa e Pádua.

Santo Antônio dos pobres,
das viúvas, dos órfãos,
das moças não casadas

por lhes faltarem dote.
A tudo ele provia.
A todos remediava

com o seu tríplice Pão:

Do corpo ou da saúde.
Da Escritura, a Palavra.
Pão do céu, Comunhão.

Do achado, do perdido
nas instâncias da vida.

Na vida consagrada.
Nas pregações às massas.

Contra a luxúria,
a usura, a avareza.
Na palavra inflamada.

Seu coração, um lírio
de pureza,
mereceu, ao Menino,
o colo e o aconchego.

Doutor em Teologia,
Filosofia – a Bíblia
conservava de cor.

Se os homens duvidassem,
os peixes o ouviriam.

Seguiu sua via, intensa
de dores e alegrias.

Crucificou-se em vida
por amor ao Santíssimo.

Santo Antônio de Pádua
(seguidor de Francisco),

de Lisboa, de todos
que depositam em Cristo

a esperança maior
(que só o amor conquista),
nesta e na outra vida.
.
maria do carmo ferreira
niterói, 13.06.08: 11,36h.

UOL, Midia Global,14/06/2008
Portugal luta contra a dispersão do legado de Fernando Pessoa
Biblioteca Nacional quer evitar que os herdeiros leiloem seus textos inéditos
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O anúncio de um próximo leilão de uma parte inédita da obra de Fernando Pessoa (1888-1935) em poder da família do poeta provocou a reação do Estado português, que tenta evitar que o legado do escritor acabe disperso em mãos privadas e fora do país. Para tanto, a Biblioteca Nacional de Portugal mantém conversações formais com os herdeiros do escritor para tentar adquirir uma série de materiais, entre os quais se destaca um volumoso “dossiê Crowley”, que reúne toda a documentação sobre a relação que Pessoa manteve com o mago inglês Alistair Crowley (1875-1947), assim como manuscritos e exemplares das revistas Orpheu, Contemporânea y Sudoeste que pertenceram ao criador dos heterônimos.
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O jornal “Público” revelou a notícia na quinta-feira, véspera do 120º aniversário do nascimento do poeta, que Portugal comemora hoje com diversos atos e a publicação de novos livros sobre Pessoa. O leilão -por parte da firma Potasio 4 de Lisboa- de um terço do legado pessoano nas mãos dos herdeiros reabriu o velho debate sobre o direito e a capacidade do Estado de impedir a saída do país de bens que podem ser considerados patrimônio cultural.
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O valor do dossiê Crowley é incalculável, e sua possível venda já despertou o interesse de poderosos colecionadores britânicos e americanos. A correspondência que Pessoa manteve com o astrólogo e ocultista é volumosa. A esses textos devem-se acrescentar centenas de páginas para uma novela que nunca veio à luz, sobre o suposto suicídio de Crowley, que teria como título “Boca do Inferno”, o nome de um penhasco perto de Cascais onde o mar costuma se enfurecer. Crowley realizou uma viagem a Lisboa em 1930 e no final de outubro foi denunciado seu desaparecimento. Sua cigarreira foi encontrada no alto da Boca do Inferno com uma nota manuscrita que parecia a despedida de um suicida. Afinal foi tudo uma farsa, mas a história deixou um rastro de suposições sobre a relação que Pessoa manteve com o astrólogo inglês, que se transformou em figura cultuada em algumas universidades da Grã-Bretanha, EUA e Itália.
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Segundo Jerónimo Pizarro, pesquisador colombiano que faz parte de uma equipe que prepara uma edição crítica da obra de Pessoa, o leilão que se prepara para outubro próximo poderia alcançar preços astronômicos. Se as cifras dispararem é muito difícil que o Estado português possa competir com os particulares que irão à venda. O diretor da Biblioteca Nacional, Jorge Couto, está negociando com os herdeiros algumas propostas. A venda para o Estado de todo o acervo de Pessoa está descartada, já que seus sobrinhos Manuel Nogueira e Miguel Rosa só estão dispostos a vender peça por peça. A família se nega redondamente a dar declarações. O proprietário da casa de leilões P 4, Luis Trindade, recentemente levou a remate o manuscrito “Indícios de Ouro” e vários cadernos de Mario de Sá Carneiro que estavam em poder da família Pessoa. A Biblioteca Nacional pagou por toda essa obra 30 mil euros
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Inês Pedrosa, diretora da Casa Fernando Pessoa, considera que o governo português tem a obrigação de salvaguardar o patrimônio do poeta. É a mesma opinião de Perfecto Cuadrado, tradutor do “Livro do Desassossego” editado pela El Acantilado. “Seria bom que todo o acervo pessoano ficasse junto. A dispersão dificultaria uma edição séria do autor”, salienta. Cuadrado concorda com Paulo Aragão, do gabinete jurídico da Biblioteca Nacional, no sentido de que é preciso estabelecer mecanismos para que o patrimônio nacional fique no país. Segundo a lei orgânica portuguesa de 2007, a Biblioteca Nacional pode autorizar ou impedir uma transação para o estrangeiro de manuscritos de valor patrimonial.
Por Francesc Relea, em Lisboa.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves – Visite o site do El País

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/06/14/ult581u2632.jhtm

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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