Anotações de leituras

Registros de meu diário de viagem a Belém do Pará, no mês de agosto de 2004, cidade onde, a exemplo de São Luís, no Maranhão, e outras do Nordeste, (re)encontrei Portugal, representado na sua arquitetura, nos seus azulejos, na sua culinária, no falar de seu povo e, consequentemente, na palavra de seus escritores: “Uma (boa) descoberta: a do poeta Ruy Barata, achamento creditado ao “animador” do barco, no qual fazíamos um passeio ao entardecer na Baia do Guajará que mencionara um verso (“este rio é minha rua”), de um poeta paraense, Ruy Barata (1920-1990. Depois descobri que, na verdade, esse é o título de uma canção daquele poeta, que, aliás, foi letrista de várias canções de sucesso nacional. Acrescentei este nome a mais meia dúzia de nomes de autores paraenses que já conhecia (a maioria de ouvir falar) e saí à cata de livros deles por todas as livrarias de Belém, num insucesso total. Mas onde acabei encontrando algo desse poeta, entre outras poucas (mas boas) edições, foi justamente em local inesperado, ou seja, na pequena loja do Museu de Arte Sacra (vejam onde vão parar os poetas – inclusive, como neste caso, os sacrílegos!). Antilogia de Ruy Barata, obra organizada e revisada pelo autor em 1990, pouco antes de sua morte, mas publicada apenas em 2000 pela Secretaria de Cultura do Estado do Pará em co-edição com RGB Editora, numa bela edição de capa dura, verdadeiro achado bibliográfico. Aqui, um excerto do longo poema O Nativo de Câncer, parte 2: “Noite, norte-noite, nauta-noite, / no quilombo das pôitas e palmares, / o vento amanhecia na varanda, / trazendo um latifúndio de pesares, / suado do suor da maresia, / sedento da palavra/poesia, que pedia por novos calabarees. // Entre a casa e o barranco o boi pastava / um verde carrossel de mangas bravas, / no verde acontecer das melancias, / Lalica abria a porta e suspirava, Alfonso abria a boca e bocejava – o puta-que-pariu de cada dia. // Um quase nada se fazia tudo, / como de tudo se fizesse nada, / e logo vinha o sol redespelhando / as demoras das doras-demerára, onde a flecha silvava e se detinha, à sombra dos relatos de Caminha, solvida no fluir dos alguidares. (…)” Valeu a pena, ainda que tardiamente, conhecer a obra desse poeta de envergadura, contemporâneo e amigo de Mário Faustino (que, aliás, é mencionando em vários de seus poemas e de quem é reproduzida, nesse mesmo volume, uma carta) e de Benedito Nunes, autor do prefácio. Outra jóia rara garimpada nesse local foi História do Futuro, do Padre Antonio Vieira, edição da Imprensa Oficial do Estado e do Processamento de Dados do Estado do Pará, bela e cuidadosa reprodução fac-similar de um exemplar que integra o acervo de obras raras da Bilbioteca Pública Arthur Vianna, datado de 1718, em Lisboa Occidental.” Lembro aqui outro poeta paraense, também por lá procurado e não encontrado, Max Martins (contemporâneo e amigo de Faustino e Barata e o mais instigante deles), cujo volume Poemas reunidos1952-2001, Universidade Federal do Pará, 2001, adquiri posteriormente numa Bienal do livro em São Paulo e lido naquele estado de graça que só nos é propiciado pelas revelações. Cabe dizer que, não fosse pela bela, criativa e desconcertante poesia, o alentado estudo-prefácio de Benedito Nunes por si só já teria sido um bom motivo para comprar o livro. Anoto um belo poema metalinguístico, cujo título é representado por um circulo preto desenhado no topo da página: “Escrevo duro / escrevo escuro / / E neste rumo / O que procuro, furo”. Pergunto-me a razão de um poeta deste quilate não frequentar os cadernos “B” dos grandes jornais do eixo Rio-São Paulo nem os catálogos das grandes editoras nacionais. Uma perda enorme dentro de nossa arrogância que desconhece o Brasil do Rio de Janeiro para cima e de São Paulo para baixo. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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