O silêncio e a leitura

Nem sempre foi assim: alguém sentado, em silêncio, percorre os olhos pelas páginas de um livro, e vai virando as páginas, como se o resto do mundo não existisse.
Na antigüidade, a leitura era feita em voz alta. Todas as palavras escritas destinavam-se a ser pronunciadas em voz alta, pois a escrita sequer separava palavras, não distinguia maiúsculas e minúsculas e nem pontuação. O leitor (privilégio de poucos), alguém de grande prática, encarregava-se do ritmo da leitura. Os próprios copistas (pessoas que copiavam manuscritos, antes da invenção da imprensa), ao realizarem seu trabalho, faziam-no em voz alta. A leitura era sempre um ato público.
Longo foi o caminho até a leitura na intimidade, em silêncio, viagem sem testemunhas. Proust detestava ser interrompido em sua leitura, o fato de responder um simples “não, obrigado”, era como forçá-lo a parar completamente e “trazer de muito longe a própria voz, que, escondida, atrás dos lábios, repetia muda, e rápido, todas as palavras lidas pelos olhos”. Dizia ele: “Os livros verdadeiros não deveriam nascer da luz brilhante do dia e de conversas amigáveis, mas da sombra e do silêncio”.
O silêncio na leitura acaba por ser fundador, profundamente revelador e significante de uma nova história, aquela que, em silêncio, irá se (trans)formando na imaginação do leitor. “O silêncio não é o vazio, o sem-sentido; ao contrário, ele é o indício de uma totalidade significativa.” (“As Formas do Silêncio – no movimento dos sentidos”, de Eni Puccinelli Orlandi, Editora da Unicamp). Claro está que o silêncio, na leitura, não é apenas ausência de palavras, antes, a significação daquilo que há entre elas e por trás delas. Um silêncio que não é mutismo, fechado aos acontecimentos e às paixões, mas o silêncio de, ao ver/ouvir o outro, ouvir a si próprio e (por que não?) ao universo cósmico.
Incoerente, como só pode mesmo ser o ser humano, o homem conquistou o silêncio para, hoje, na insanidade em que se transformou a nossa vida urbana, não ter mais direito a ele. Os níveis de ruído produzido pela nossa sociedade chegaram ao intolerável, sem que a maioria das pessoas se dê conta disso. Criou-se uma necessidade absurda que obriga as pessoas a ouvirem música ou uma infinidade de outros sons, em praticamente, todas as situações (ônibus, trens, salas de espera de escritórios e consultório médicos, sem contar os da vizinhança, não preocupada com os altíssimos decibéis). Até os cultos religiosos, antes revestidos de silêncio propício à meditação, transformaram-se em espetáculos estridentes (catarse, medo?).
O certo é que, sem que ninguém saiba ao certo por que espécie de lei está regida essa nova ordem social, os cidadãos estão proibidos de permanecer um momento sequer com os próprios pensamentos, o que é realmente uma irreparável perda.
Foi a partir desta crônica, publicada no Papo T, alternativo do amigo João Tessarini, e de outra, O direito ao silêncio, publicada no Diário do Grande ABC, que passei a pesquisar o tema do silêncio. Dentre os livros que li nessa fase, além do já citado e que deu origem à crônica, um dos que mais me marcou foi O Silêncio Primordial, do argentino Santiago Kovadloff. A plaquete Solilóquios, que publiquei numa tiragem reduzida e fora do comércio, reúne poemas reflexivos sobre este fascinante tema. (dtv)

Silencio

o silêncio e a leitura no Alpha (foto luzia maninha)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to O silêncio e a leitura

  1. rosana chrispim says:

    Cara Dalila, conversava ainda esta semana sobre o tema e percebi que embora muitas vezes busquemos o silêncio, muitas vezes não sabemos como fazê-lo e, pior, nem o que fazer com ele. Nós, ocidentais, não trazemos em nossa cultura tal hábito. Com a “cultura do imediatismo” que cada dia mais caracteriza as sociedades, pensar pode ser (quase) uma transgressão e o silêncio obriga a pensar. Mas se não se tem bagagem, se não se tem repertório, leitura, aprendizado, pensar pode ser um bocado incômodo. Além do mais, o silêncio faz com que o homem se encontre, se confronte consigo mesmo e este estar consigo pode representar aprofundamento. Eis aí, talvez, entre outras tantas, pois que não pode haver somente uma, a causa das coisas rasas e superficiais, apressadas e pasteurizadas. Pena o ser humano não saber mais o que é o silêncio!

  2. Difícil permanecer em silêncio depois de ler um texto como este. Vontade de aplaudir!

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