Do baú: antecipando a homenagem a João Cabral

(DES)ANDANDO SEVILHA
Atravesso a Ponte del Cachorro sobre o Rio Guadalquivir e sob a luz cortante do verão andaluz, El Arenal descortina-se como numa imagem virtual. Estou em Sevilha ou num poema de João Cabral? Guadalquivir e Capibaribe, uma “só maçonaria”?
“Verão, o centro de Sevilha/ se cobre de toldos de lona,/para que a aguda luz sevilha/seja mais amável nas pontas,”. Estes versos do pernambucosevilhano sempre me intrigaram. Como pode o centro de uma cidade cobrir-se de toldos de lona? E agora, olhando os toldos brancos que cobrem – literalmente – as ruas centrais de Sevilha, posso entender o sentido da sombra, quando “coado o sol cru”.
Caminho, protegida pela poesia de Cabral, como protegida estava a Sevilha moura no século XIII, atrás de sua Torre del Oro, que até hoje reina, altiva e soberana, à margem do Guadalquivir. “De Sevilha ninguém jamais disse tudo” e não serei eu a dizê-lo mas tento, seguindo o roteiro poético do maior poeta brasileiro vivo: “vi que Sevilha andava ou fazia andar quem a andasse”. Ando Sevilha como se um poema lesse.
Hospedo-me no charmoso Hotel Inglaterra, que este ano comemora 140 anos – o mais antigo hotel desta cidade antiga – e fico sabendo que também outro hóspede, muito mais antigo e ilustre do que eu, Hans Christian Andersen, também escreveu algumas páginas de puro encantamento acerca das laranjeiras carregadas de frutos que ocupam toda a extensão da Plaza Nueva, onde está situado o hotel. Falava ele também das “deliciosas” santas pintadas por Murillo que “eram… como para enamorar-se delas”, pedindo perdão aos devotos pelo pensamento de tal protestante.
Ainda no rastro do poeta, navego agora pela Calle Sierpes, “onde passear é navegação, / é andar-se, e sem destinação”. Não, não quero a cidade que “se mostra turística ao turista”. Assim como o poeta, interessa-me a cidade viva. Entro na Catedral sem, no entanto, lavar mãos e pés na fonte do Patio de los Naranjos, como o faziam os fiéis à época moura. Apenas contemplo esta prodigiosa obra de oito séculos e tento visualizar aqueles homens que deixaram, na imensidão destas naves góticas, a sua marca de eternidade para que turistas aprendizes como eu pudessem deixar o seu olhar de reconhecimento.
À noite, num tablao em Santa Cruz, finalmente percebo porque esta é uma cidade-mulher para o poeta Cabral, que se apaixonou por ela. As sensuais bailaoras de flamenco, na altivez de seus gestos e em delicados movimentos de mãos expressam a alma apaixonada da Andaluzia, tão bem contada / cantada por tantos (Lope de Vega e García Lorca, entre outros) antes do forasteiro Cabral chamá-la de “mulher cidade” (“a cidade criada do chão / que tem o clima que é mister / à mulher para ser mais mulher”).
Que saibamos “crescer sem matar-se” como Sevilha soube, é o que me ocorre desejar ao levantar a minha taça de gelado jerez.
dalila teles veras
Obs.: Esta crônica foi publicado no Diário do Grande ABC, na coluna Viaverbo em 30.7.97 e posteriomente publicada no livro A Vida Crônica (Alpharrabio Edições, 1999). (Re)publico-a aqui, antecipando a homenagem que faremos a João Cabral de Melo Neto, no próximo sábado, 16.8, às 10h00 no Alpha, com a projeção do filme Recife/Sevilha. Saiba mais, em: Alpharrabio

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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