Em memória de Ivonice Satie

Franzina, irrequieta, falante, ansiosa, apaixonada e apaixonante. É assim que me lembro (e lembrarei) da bailarina Ivonice Satie, uma das mais conceituadas coreógrafas brasileiras, quando a convidei para participar de um debate no Alpharrabio, durante o memorável “Sete Anos Sete Cidades – Culturas”, um ciclo promovido pelo Alpha que durante 7 meses, dedicou um mês inteirinho a debater e mostrar a cultura de cada uma de nossas sete cidades.
Fundadora e dirigente da Cia. de Danças de Diadema, na qual atuou entre 1995 a 2003, Ivonice encontrava-se à época no auge de sua criatividade e reconhecimento público. Reproduzo abaixo (com a ajuda da arquivista mor Luzia Maninha) a transcrição de sua fala naquele debate, publicada no livro Alpharrabio 12 Anos – Uma história em curso , com a homenagem, o preito de saudade e profundo sentimento de perda, àquela que ontem, 12.08.08, empreendeu, aos 57 anos e em plena atividade, uma viagem para outro plano que, espero, também seja o da criação e da arte. Nós, por aqui, ficaremos um pouco mais pobres (dtv)

Debate: Diadema com a palavra (18 de setembro de 1999)

Ivonice

“Estamos voltando a falar de nós mesmos e como fico feliz em não falar mais em nosso colonialismo, mas em ser brasileiro, na nossa autenticidade e agora também na nossa região do ABC, onde me sinto adotada e queria falar um pouco sobre isso. Eu não estaria aqui se não tivesse sido tão bem recebida e se minhas palavras e minha arte não tivessem a força que tiveram dentro desta região. Então, acho que a região também colaborou para que houvesse uma reforma em minha conduta profissional. Hoje, aqui com vocês, vim a descobrir, depois de 40 anos fazendo dança, porque aprendi a dançar. Não foi só dançar, tinha uma história maior, só o ato de dançar, ter meu ego, o meu palco, público é muito pouco. Acho que esta região propiciou que a dança se fortalecesse dentro de mim e eu pudesse estar junto com esta região que é muito forte. Tem muita potência desenvolver dentro do departamento de cultura a minha área que é a dança. Começamos a ter um trabalho muito diferenciado com a Companhia de Danças, cuja preocupação também é voltada para a formação porque a gente não vê possibilidade, na nossa realidade de Brasil, de estar tendo o luxo de criar uma companhia que suba aos palcos só para mostrar como é bonita a dança, não deixar nada mais profundo e não abrir novas fronteiras com essa linguagem.

É só por isso que essa companhia existe, porque é voltada para uma formação interna do seu grupo, para que tenhamos uma produção local, que é uma das maiores experiências que já vivi na vida. Uma preocupação era ensinar à cidade como se produz e outra era levar toda a experiência interna da companhia para uma população. E por trabalhar assim com a comunidade, surgiram grupos que hoje têm vida própria. Com o maior orgulho, falamos das Mulheres de Eldorado, que são senhoras que saíram de casa e puderam explanar toda a emoção, a maravilha que é usar o corpo de várias formas e fórmulas. Surgiu também a Companhia Experimental do CCD, um grupo mais iniciado em dança, que tem feito programas lindíssimos, montagens que falam dessa adolescência que está um pouco solta e como trazê-la para fazer dança e, através dela, ser um exercício democrático e de cidadania. Hoje sinto que a Companhia de Dança faz um trabalho interno e externo com a população. Atendemos dentro do Departamento de Cultura crianças, adolescentes, adultos, terceira idade, com o Centro de Referência do Idoso, com mais de 80 idosos, atendemos a APAE com quase 80 crianças e conseguimos dar uma continuidade de trabalho, que acho muito importante dentro de uma sucessão administrativa e política. Passamos, nos Centros de Cultura dos bairros, quase 4 anos na sensibilização e, logicamente, muitas pessoas já sabem o que querem, tem gente que quer ser bailarino e não dá mais para segurar essas pessoas dentro de um centro uma vez por semana. Se começamos, temos que ensinar pelo menos para onde elas têm que ir e, com esses olhos, nasceu a Casa da Dança com um programa muito bem pensado, não idêntico, porque nada é bom o suficiente para ser fechado, mas fizemos um paralelo com o programa da Escola Municipal do Rio de Janeiro, com a Escola Municipal de Bailado de São Paulo, com a Escola da Fundação do Teatro Guaíra e montamos um programa que vai de 1 a 8 anos. Nesse período, a criança passa a ter aula de balé acadêmico clássico, logicamente voltado para uma sensibilização muito mais contemporânea. Queremos a dança clássica, mas não o comportamento do balé clássico, queremos o movimento sim, mas a sensibilidade e o objetivo muito mais contemporâneo aos dias de hoje e à nossa realidade de Brasil também. E hoje sentimos que podemos inserir a música, a dança, as artes plásticas, a banda, todos num único projeto. A gente só consegue misturar quando o individual está forte, não se faz o coletivo quando o individual não sabe para onde vai. Um tempo atrás, eu vinha querendo fazer isso, mas ainda não tínhamos isso muito forte, de cada um na sua linguagem. Fico muito feliz porque a dança de Diadema tem sido citada. Este ano, esteve em Joinville como convidada e foi manchete do Diário Santacatarinense: “Companhia de Dança de Diadema é exemplo em Joinville.”

E eu sinto que a gente já mexeu bastante na atuação sócio-cultural dessas pessoas, indiretamente começamos a mexer na economia. Percebi isso esse ano. A Companhia de Danças começa a trocar apoios, co-patrocínio, roupa por espetáculo, logomarca por almoços para uma turma que vem dançar. Começa a despertar uma coisa muito nova na região que é o empresário querendo apoiar, porque a logomarca dele vai estar em um projeto que muita gente vai assistir.

O Departamento de Cultura, junto com a Companhia de Danças, lançou, este ano, com calendário já para o ano que vem, a Mostra de Dança de Diadema e percebemos que tudo funciona mais: o pipoqueiro trabalha mais vezes na semana, o barzinho lá na frente, o único que tem lá, a dona fica doida, o Diário do Grande ABC que antes fazia chamadas dos espetáculos e sempre deu apoio muito grande à Companhia de Dança, sempre entendeu nossa proposta, hoje manda um repórter para assistir a estréia e depois fazer a crítica. Então, a cultura, de uma certa forma, está balançando a imprensa que antes só dava notícia.

O Diário do Grande ABC mandou um jornalista acompanhar o festival inteiro de Joinville, isto nunca aconteceu! Mas por quê? Porque alguém da região está lá e interessa saber qual a atuação da companhia dentro de um todo, pois o festival de Joinville também é internacional. E quando até o jornal se envolve desta forma não dá para fechar os olhos, porque a transformação é muito grande e já há algum tempo está acontecendo. Mas quando os de casa conseguem ver é porque o negócio está muito bom. ”

(in Alpharrabio 12 Anos: uma história em curso, 2004, Alpharrabio Edições)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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5 Responses to Em memória de Ivonice Satie

  1. Luis Avelima says:

    Dalila,

    Parabéns pela homenagem a Ivonice. Trabalhamos juntos e sei de sua
    garra. Fica a lembrança de uma mulher corajosa, valente, sem limites, quando o assunto era dança. E a própria vida. Que a luz esteja com ela
    Luis Avelima

  2. Wilson R. S. Souza says:

    Parabéns, Dalila pela excelente dedicação a um trabalho profundo de valorização à vida humana.

    Wilson Roberto Stanziani de Souza

  3. Ana Bottosso says:

    Dalila, linda homenagem à Ivonice Satie. Criadora da Companhia de Danças de Diadema, esta importante empreendedora da dança e fantático ser humano, já deixa muitas saudades. Parabéns Dalila por este trabalho entre outros aos quais vc se dedica.
    Ana Bottosso

  4. Alexandre says:

    parabens pela homenagem a Ivonice Satie..precisamos de mais pessoas iguais a ela…