Deocleciano – fragmentos de maldição

Hoje registramos o lançamento da obra Deocleciano – fragmentos de maldição, novela de Francis de Oliveira, que as Edições Alpharrabio acabam de publicar, também como parte das festividades dos 25 anos de fundação do Grupo Livrespaço, iniciadas no dia 9 de setembro com a abertura da exposição “Seduzir para a Poesia” no Museu de Santo André (que permanecerá aberta ao público até o próximo dia 31).
Aí vai o prefácio do livro, a modo de release:

CapaFrancis

A vida e a arte no limite
Quem pensa que Francis vê os homens e os objetos atrás de lentes e sobre motocicleta trepidante não se engana. Mas precisa saber também que essa moto é a de galgar abismos e que essas lentes deformam e desfocam por querer evidenciar um mundo que imerge no caos”. Quem disse isto foi Sérgio Campos no prefácio de A Longa Epístola, livro de estréia de Francis de Oliveira, em 1986, e não se enganou.
Francis faleceu no dia 26 de outubro de 1991, após permanecer hospitalizada por nove meses, em decorrência de um acidente sofrido quando pilotava sua moto, justamente quando “olhava os homens e objetos” e valia-se desse observar para a sua criação. A vida e a arte para ela não faziam sentido se não fossem levadas no limite de tudo.
Desde a Longa Epístola (novela ou um longo poema?) o seu trabalho vinha se concentrando na prosa de ficção, gênero onde encontrou o campo mais fértil para mergulhar mais fundo e daí nos trazer a sua visão, quase sempre angustiada, de um mundo em ebulição, mundo esse visto por alguém que acompanhava essa efervescência na mesma velocidade de sua montaria.
A postura de desdém e deboche com que revelava o objeto de sua observação, o homem e a sociedade, só não foi maior do que a sua fragilidade, sempre camuflada, por debaixo do couro de seu blusão e por detrás da palavra, aguda ferramenta com que enfrentava e disfarçava a emoção (“minhas palavras ferem mais que cravos”).
A morte para Francis, no entanto, não era o limite, fazia parte do seu cotidiano e com ela mantinha um diálogo constante, uma relação quase de atração. Apesar de rejeitar o profético (“não sou matusalém, nem profetizo, apenas praguejo, é mais fácil”). O desfecho de sua curta vida foi constantemente “profetizado” na quase totalidade de sua obra, como podemos constatar através da leitura de alguns trechos aqui selecionados: “Meu pai já se foi e eu estou para ir”, “Escrevo, Duardo, mas ninguém entenderá meu suicídio”; “Íntima dos meus anseios, / a aurora da morte brilha/ na sombra do meu corpo”; “Desconheço os códigos dos vivos/ e pulo as valas/ os túmulos/ para despistar a morte”; “o fino bordado de nossas dores/ decorando a ultrapassada mortalha/ que nos veste desde quando nascemos”; “O trabalho de morrer é árduo”.
A “indesejável das gentes” para alguns aparece na obra de Francis como um detalhe inseparável e necessário à própria vida, mostrando que “a vida cansa e cansa e passa por cima da gente. Somos defuntos estáticos do futuro”.
Rebelde, obra e vida, Francis sempre caminhou na contramão da ordem estabelecida “tudo que tenho de normal são as evacuações de todos os dias e horas impróprias”.
Há alguns meses, Francis confiou ao Grupo Livrespaço de Poesia, do qual era membro militante desde 1983, os originais do seu romance Deocleciano – Fragmentos de maldição, seguramente o momento de entrada na maturidade de sua obra.
Aqui, de forma densa, contundente, sem retoques, toda a revolta diante da fragilidade humana é exposta de forma desesperada, onde o amor, a vida e a morte formam a tríade que mantém o leitor em suspenso ao acompanhar o desespero do personagem Deocleciano e de seu duplo, Salomão, diante de sua própria inércia ou inépcia perante o simples viver.
Novamente Thanatos duela perigosamente com Eros e se aproximam; o prazer sempre como uma pequena morte, carregado de culpas.
Todas as atitudes dos personagens deste romance são desfribilidades, como quem disseca para conferir o já suspeitado epílogo. Deo, talvez o alter-ego de Francis, é toda a impossibilidade de concretização.
Além deste romance, a escritora deixou mais outro, inacabado e sem título definitivo, bem como centenas de poemas inéditos.
O ABC ficou empobrecido artisticamente e com uma dívida a cumprir: editar a vigorosa obra inédita de Francisca Maria de Oliveira, a poeta Francis.

Publiquei este texto no Diário do Grande ABC em 22.11.1991, ainda sob o forte impacto da morte de Francis. Desde então, o seu último parágrafo permaneceu em algum escaninho da memória e do compromisso, ou seja, “editar a vigorosa obra inédita de Francis”. Na azáfama das comemorações dos 25 anos de fundação do grupo Livrespaço, preocupações com livro coletivo, exposição, mesas de debates, etc, ainda que a intenção estivesse mantida, Deocleciano permanecia em gavetas que sequer eram as minhas. Foi então que a sempre atenta escudeira Luzia Maninha Teles Veras me alertou: porque não agora? Relutei (o tempo, sempre, tão escasso para tanto fazer), mas, empurrada pelo seu entusiasmo, fui (re)lendo e ajudando a corrigir os defeitos provocados pelo “escaneamento” do texto (datilografado à época). Ei-lo aqui, submetido à apreciação e julgamento dos leitores, nos 17 anos da morte e nos 47 anos de nascimento de sua autora. Agradecemos à Raíssa de Oliveira, sua filha, a autorização para esta edição que a ela é dedicada. Dalila Teles Veras

Atenção: Trata-se de uma tiragem de apenas 100 exemplares, para bibliógrafos e interessados. Ainda há alguns exemplares à venda na livraria ou pedidos pela Internet (alpharrabio@alpharrabio.com.br). Aproveite a oportunidade e peça também o seu exemplar de “Seduzir para a Poesia – trajetória do Livrespaço 1983-1994), uma história para (re)rememorar e motivar leitores e poetas. O frete é gratis, para todo o Brasil.

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to Deocleciano – fragmentos de maldição

  1. Maravilha tudo por aqui, parabens. Estarei indicando nas minhas páginas.
    Beijabrações & tataritaritatá!!!!
    http://www.luizalbertomachado.com.br

  2. rosana chrispim says:

    Muitas vezes, ou quase sempre, a arte carece de generosidades (de todo tipo). Nesse nosso país, tão farto de pobreza intelectual – e, às vezes, de espírito – isso é raro, mas imprescindível. Parabéns a vocês, editoras, que não foram despojadas dessa qualidade. Abraços.