Aguardando o espetáculo passar

Tantas bandeiras, tantas… tantas pobres almas, em troca de trocados, as empunham nas tortas esquinas, nos tortuosos cruzamentos… tantos dando-se em troca de tão pouco (ou será tanto?)… tantos gingles de mau gosto vindos de carros de som barulhentos a invadir o pouco de silêncio que nos resta; tantos retratos em tamanho natural obstruindo os caminhos já tão obstruídos da cidade… tanta palavra vã, tanto discurso vazio, tanta promessa obscena de tão irrealizável, tanta roupa suja despudoradamente exibida, sem que, no entanto, lavada sequer o seja… tantos leões nas arenas montadas para o nauseabundo espetáculo…
Estou me guardando pra quando as eleições passarem e tudo mudar para ficar como dantes (a grande tragédia)… (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to Aguardando o espetáculo passar

  1. isa says:

    Cara Dalila foi uma sensação tão real que tenho que partilhá-la:

    Juro que não havia qualquer aparelho radiofónico, ou similar, ligado, consequentemente não houve transmissão do som por meio de ondas hertzianas.

    Ao ler este seu artigo, a “a banda”de Chico Buarque entoou de tal forma que nem parece que já passaram 44 anos desde a altura que ela passou a 1ª vez. Nessa altura, eu só via a banda passar e a música a bailar. Hoje – ao ler o seu artigo – eu vi que o “velho fraco” continua lá; a moça continua feia mas sabe que o toque da banda não é para ela; o homem agora sem dinheiro para contar continua contando; a gente sofrida de Chico é global, assim como o desencanto é total.

    (…) “tudo mudar para ficar como dantes (…)” – Tem razão, nós por aqui diríamos algo parecido como: “as moscas são diferentes, o cheiro é o mesmo”.

    Mas voltando ainda a este som que continuo a receber sem saber por que ondas electromagnéticas, pois não tenho nenhum aparelho emissor ligado, no final ainda nos resta a “meninada assanhada” e por eles vale sempre a pena não só ver como entrar na “banda”.

  2. dalila teles veras says:

    Caríssima Isa,
    Obrigada pela (sempre) leitura tão sensívelmente lusa e universal que faz destes nossos textos. O velho Chico (tão “velho” quanto eu) continua atualíssimo como, aliás, toda boa arte deve ser: não envelhece jamais.
    abraço agradecido da dalila

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