Um domingo e seus acontecimentos

Domingo, momento 1:

Recebida com um tapete de “santinhos” com as fotos dos candidatos a prefeito de Santo André que forrava toda a calçada fronteiriça à escola onde fui votar, cumpri meu dever cívico. Pisava e pensava (nos papéis – físicos e simbólicos); pensava e pisava (no desperdício); pisava e pensava, pensava… A cidade ainda adormecida, indiferente (estaria pensando também?).

Domingo, momento 2:

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A seguir, rumei para a Igreja Matriz de Santo André, cumprir outro dever, o de render preito de saudade e homenagem a um artista que nos deixou há um mês, o maestro Flavio Florence. O templo abarrotado. A postos, a Orquestra Sinfônica de Santo André (regida pelo maestro Wagner Polistchuk), o Coral da Cidade de Santo André (regido pelo maestro Roberto Ondei), mais o coro daquela paróquia, fizeram daquela celebração litúrgica um momento único de encantamento e emoção. Dentro dos cânones daquilo que mais belo possui a liturgia religiosa, a música chamada clássica, nascida exatamente para esse tipo de função, ali foi cumprido um programa adequado ao momento de celebração e tristeza: Ave Verum Corpus e trecho do Réquiem, de Mozart, seguido do Pai Nosso, belamente interpretado pelo coral. Missa encerrada, o templo foi palco de um concerto e pura emoção: o segundo movimento da Marcha Fúnebre, conhecida como Heróica, de Beethoven, preencheu todos os espaços e corações ali presentes. Por vários momentos tive a sensação de ver/sentir Flavio ali, com sua batuta, seus gestos largos e suas “mini-aulas” introdutórias.

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Ao me preparar para sair de casa, lembrei-me de uma fala do diretor do filme Santiago, João Moreira Salles, referindo-se a um episódio vivenciado por ele na infância: noite, a família ausente, um som de piano vindo da sala, desperta o menino. O mordomo da família, Santiago, de casaca, tocava piano. Perguntado por que se vestia assim, numa sala vazia, respondeu: “É Beethoven, meu filho, é Beethoven…”. Na minha infância, de menina católica, apostólica, romana, toda a família possuia uma roupa denominada de “missa”, a melhor, a mais nova, além de um véu, com o qual as mulheres (e as meninas) cobriam a cabeça (os homens a descobriam). Ritos… não se vai mais à missa nem a concertos com a melhor roupa, nem se faz silêncio reflexivo nos templos (motivos pelos quais deixei de frequentar missas com regularidade – perco totalmente o poder de concentração diante de tantas conversas, dos corpos balouçantes e descobertos em demasia – bermudas, regatas, chinelos – e bonés que permanecem nas cabeças… banalização). Talvez por isso, ao vestir-me para sair, por pouco não resisti à tentação de colocar meu melhor vestido, de gala, para quando perguntada, poder dizer: “É Mozart” “é Beethoven”, “é o legado de Flavio”, um artista que deixou aqui a marca de sua brilhante passagem. Não o fiz por pura covardia… (dtv).

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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