Cabo Verde é aqui, pulsa aqui

Para quem ainda não sabe (eu não sabia), Santo André, cidade situada no Grande ABC (região metropolitana de São Paulo), onde resido, abriga a maior colônia cabo-verdiana do Brasil, ou seja, cerca de 600 pessoas (entre nascidos naquele país e seus descendentes), que se reúnem, preservam e promovem suas tradições na Associação Cabo-verdiana do Brasil situada nesta mesma cidade há três décadas.
Então, não por acaso, é aqui que a I Semana Cultural Cabo-verdiana está a ser realizada (de 3 a 9 de novembro), uma festa que, além de mostrar a diversidade cultural daquele país, trouxe um colorido e uma alegria incomporáveis às cinzentas terras outrora ocupadas pelo mítico luso João Ramalho e hoje habitadas por gentes oriundas de todos os Continentes e estados brasileiros.

11 CaboVerde05
Bau e seu quinteto no Teatro Municipal de Santo André

Desde que recebi as primeiras notícias da programação da Semana, composta por exposições, shows musicais, desfile de moda, palestras e encontros literários e gastronômicos, tratei de me preparar: retirei da prateleira o pouco que ali havia de literatura da hoje denominada República (de fato e de direito) de Cabo Verde, ou seja, uma antologia (Palavra de Poeta – Cabo Verde e Angola, organizada por Denira Rozário e publicada pela Bertrand Brasil em 1999); e o romance Chiquinho, de Baltasar Lopes, publicado no Brasil pela Editora Ática na Coleção Autores Africanos; junto aos livros, o CD Miss Perfumado, da “diva dos pés descalços” Cesária Évora. Até então, Cabo Verde, era para mim, além desse punhadinho de arte já lida/ouvida, uma lembrança mítica da infância:
Numa noite de uma escuridão indevassável, no já longínquo ano de 1957, o paquete Santa Maria que, entre turistas e emigrantes rumo ao Brasil, trazia a bordo a menina dalila e sua família, fundeou na baía da cidade de Praia. Estávamos em Cabo Verde, mas não era permitido a ninguém desembarcar: tratava-se de parada estratégica em todas as viagens para a América, só para embarque de passageiros e de mercadorias. A menina então, diante da proibição frustrante e do breu à volta, limita-se a recordar passagens da história que lhe haviam dado na escola primária do Funchal, imaginando o que, naquele momento, não passava de meras silhuetas traçadas ao largo: Cabo Verde, possessão portuguesa situada a cerca de 455 km da costa africana, arquipélago cujo território é composto pelas ilhas de Santiago (onde fica a Capital, Praia), Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal, Boa Vista, Maio, Fogo e Brava, mais ilhéus e ilhotas, descobertas, assim como a terra natal da menina (Arquipélago da Madeira) por navegadores portugueses, sem indícios de presença humana anterior, em 1462. O que não lhe disseram à época, no entanto, foi aquilo que não interessava dizer e que hoje a menina bem o sabe. De qualquer maneira, a imaginação também insular da menina armazenou na memória essas “possessões” lusas, como lugares míticos a serem um dia, quem sabe (?), visitados. Ao lado de Cabo Verde, Diu, Damão, Goa, Macau, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Moçambique, Angola… Quanto exotismo nesses sonoros nomes em Continentes diversos, promessa de aventuras e descobertas… No entanto, Cabo Verde estava ali, mas não passava de uma sombra na escuridão da noite e no balanço do navio. Partimos ainda noite fechada e o sonho de conhecer Cabo Verde foi sendo adiado, vez ou outra ressurgindo, em ocasiões pós Revolução dos Cravos, reavivando curiosidades e vontade. Assim foi que, em 1975, presenciamos com euforia a Soberania ser instalada nessas terras. Por outro lado, o orgulho em ver a língua portuguesa ser escolhida (a despeito do jugo e desvios de séculos) como “língua oficial”. A língua, representada como a pátria possível que ali se amorenou e coloriu e, hoje, é ainda praticada, paralelamente ao “crioulo”, ali falado também correntemente, ferramenta igualmente possível de identidade.
Mas voltemos à literatura, pois é através dela que percorro os caminhos dos países que visito ou pretendo visitar. Há pouco tempo, a Livraria Alpharrabio convidou o professor Alceu Ribeiro para falar de sua dissertação acadêmica acerca do romance Chiquinho, de Baltasar Lopes, traçando um diálogo dessa obra com O Quinze, da nossa Rachel de Queirós. Devo confessar que, sem deixar de reconhecer seus méritos, não foi Chiquinho nem a quase totalidade da poesia daquela antologia que verdadeiramente me entusiasmaram, esteticamente falando. O que realmente me tirou o sono (no melhor sentido) noite destas, foi a deliciosa e instigante leitura do romance O Testamento do Sr. Napumoceno, de Germano Almeida (publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em 1996), uma surpreendente descoberta que, sei lá por que mistérios, não havia me chamado antes a atenção. Só agora, ao saber que o escritor Germano viria para um encontro programado durante a Semana cabo-verdiana, resolvi mergulhar na sua leitura. E foi aí que a revelação se deu, diante da exuberância dessa fluente narrativa. Germano Almeida, antes de ser caboverdiano é um escritor universal como o é García Márquez, a quem muito apropriadamente Mário Prata (responsável pela edição brasileira, apresentador e autor do glossário e notas do livro) o compara, afirmando não ser exagero (com que eu concordo plenamente) dizer que “O Testamento está para a África como Cem anos de Solidão está para a América Latina”. Não tenho dúvidas que o universo da pequena Mindelo ficará cravado no imaginário do leitor como o ficou Macondo. Uma pena, uma grande pena, o escritor (de quem virei entusiasta leitora e me porei à caça de outros títulos seus) ter cancelado sua vinda (lamentavelmente, por problemas de saúde). Perdemos, dessa forma, aquele que certamente seria um memorável e raro diálogo ao vivo. Não importa, ficará essa literatura poderosa a ecoar, enquanto se aguarda outra oportunidade.

11 CaboVerde04
Titina Rodrigues canta acompanhada de Bau e seu conjunto, no Teatro Municipal de Santo André

Por outro lado, fomos brindados com as pinturas de Kiki Lima na Casa do Olhar (cores, movimento, determinação, sensualidade e alegria em pinceladas largas reveladoras certamente do espírito desse povo), bem como o show musical no Teatro Municipal, nesta última terça-feira, com a banda do virtuose Bau e da voz aveludada de Titina Rodrigues que fizeram alguns mais inflamados caboverdianos da platéia levantarem de suas cadeiras e dançar ao ritmo das dolentes mornas e das sensuais coladeras. Após cerca de duas horas de show, ainda foram convidados ao palco dois jovens talentos que se apresentariam no dia seguinte: o compositor, instrumentista e cantor Tó Alves e a cantora Diva, encerrando o delicioso espetáculo.

11 CaboVerde02
Tó Alves e Diva, cantam no encerramento do show musical, no Teatro Municipal de Santo André

Eu nunca estive em Cabo Verde, mas aqui senti o seu pulsar através da arte, reveladora do colorido viver dessa cativante gente.
Haverei de lá ir, com certeza, beber in loco dessa cor e alegria, completar o desvendamento (ora iniciado) daquilo que há 51 anos era apenas escuridão diante dos olhos da perplexa menina em sua viagem migratória. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
This entry was posted in Lista de Links. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>