Aqui é Cabo Verde

No título do primeiro texto, como se viu, glosava eu o nosso Caetano Veloso. No título deste novo texto sobre Cabo Verde, tomo a devida vênia para glosar um cabo-verdiano de quem já falei, Germano Almeida.

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Da esquerda para a direita, os professores Genivaldo Sobrinho e Simone Caputo Gomes, o Cônsul Aguinaldo Paulo da Silva Rocha e o prof. Antonio Aparecido Mantovani

Pois bem, estive nesta última sexta-feira na Casa da Palavra, em Santo André, para ouvir/ver mais uma vez, notícias de Cabo Verde, ainda dentro da Semana Cultural Caboverdiana. O assunto desta feita era a literatura daquele país, pelo qual estou verdadeiramente apaixonada.
O que teria levado aquelas pessoas, numa noite de sexta-feira chuvosa, a sair de casa? Ouvir três estudiosos falarem de uma literatura de um país que, para a maioria de nós (ainda) é uma incógnita? A curiosidade? O possível desejo de contato com o exotismo? A busca do conhecimento? Todas ou quem sabe outras tantas razões que provavelmente me escapam. Pouco importam, no entanto, os motivos. Os meus foram os de sempre: curiosidade e busca.
A literatura de Cabo Verde foi apresentada a esses curiosos de saberes pela professora Simone Caputo Gomes que apesar do seu erudito conhecimento, fruto de 30 anos dedicados ao estudo da cultura e literatura de Cabo Verde, deixou falar sobretudo a paixão, demonstrando-a pela entusiasmada e cativante maneira com que leu trechos de representativos autores cabo-verdianos. Não só bebi de sua fala com proveito, como também agora tenho a chance de saber mais, através do acesso ao seu site que, apropriadamente, leva o título de Amar Cabo Verde (http://www.simonecaputogomes.com/index.htm). Além das oportunas intervenções dos professores Antonio Aparecido Mantovani (sobre a obra de Germano de Almeida) e Genivaldo Sobrinho (sobre a obra de Eugênio Tavares) que se seguiram à fala da professora Simone, ainda tivemos a chance de adquirir títulos de e sobre Cabo Verde, ali expostos e à venda.
É preciso que se diga que um evento como a Semana Cultural Cabo-verdiana não é coroado de êxito apenas porque eventualmente o público possui “curiosidade” e prestigia. Sabe-se, viu-se, que por trás desse sucesso, houve muito empenho pessoal dos idealizadores e organizadores (quem está acostumado a essas lides culturais bem o sabe) e em todos os momentos era visível o trabalho de bastidores, em especial do Presidente da Associação Cabo-verdiana do Brasil, José Augusto do Rosário, assim como o também incansável casal Lutcha e Herculano, camaleônicos, ora a fazer as vezes de anfitriões, ora a vender livros, ora ainda a supervisionar o bom andamento dos trabalhos, água nas mesas para os conferencistas, enfim… aquilo que se poderia chamar de logística da paixão que, é justo que se diga também, foi também acompanhada de perto por Aguinaldo Paulo da Silva Rocha, Cônsul Geral Honorário de Cabo Verde, apoiador decidivo e presença entusiasmada em todas as atividades, inclusive ministrando verdadeira “aula introdutória” ao apresentar os conferencistas daquela noite. Dentre outras informações, disse-nos o Sr. Cônsul que “Cabo Verde, nestes 33 anos de Nação independente, elegeu como principal vetor do país, sua mola mestra, a educação e a cultura”. Um belo exemplo a ser seguido pelo seu gigante irmão, o Brasil, como bem o lembrou o artista Saulo di Tarso durante o debate.
Vamos agora às razões da glosa do título: a minha biblioteca cabo-verdiana, dentre outros, ficou enriquecida com um exemplar de Estórias Contadas, de Germano Almeida (mais uma vez), impresso, ora vejam só, na Gráfica do Mindelo, pela Ilhéu Editora. Numa das impagáveis crônicas, o escritor fala de um episódio de sua infância, ocasião em que sua cidade natal, Boa Vista, foi visitada pelo Presidente de Portugal (duros tempos) Craveiro Lopes e da surpresa de ver numa grande faixa de pano a frase: Aqui é Portugal. Ora, ora… Não era, claro está… E o menino começa, assim, a reparar que além de “português” devia ser “obediente”, uma vez que em todas as repartições públicas, entre outros sinais, havia a fotografia de António Oliveira Salazar por cima da legenda ”mais fácil é obedecer que mandar”. Assim, sabiamente, o menino foi crescendo e passou a desconfiar e a desobedecer. Deu no que deu, transformou-se no escritor que hoje é, pois escrever é desobedecer. A situação agora é outra e Cabo Verde pode, sim, “ser” aqui, como de fato o é, com seus 600 filhos cá residentes.
Em tempo: por essas armadilhas que a arte parece nos pregar, escrevo estas linhas ao som de um CD adquirido naquela ocasião, sob o surpreendente tema: “Lisboa nos cantares cabo-verdianos”. Para o bem ou para o mal, ninguém se liberta das heranças avós e a música, certamente, está acima de quaisquer ressentimentos históricos. Tem toda a razão o Cônsul Aguinaldo, quando diz que “o futuro do mundo será o de uma sociedade crioula, mestiça e sem fronteiras”. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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3 Responses to Aqui é Cabo Verde

  1. Obrigado pelo belo texto..

    Zé Augusto

  2. Adelza Freitas says:

    Este sedutor texto me deixou maravilhada! Mesmo eu que faço parte desta comunidade, me encantei com estas colocações. Espero que outras pessoas também se apaixonem por este país: Cabo Verde, e busquem beber de sua cultura e tradições.

    Obrigada,

    Adelza

  3. Neusa says:

    Apesar de eu ser um pouco “suspeita” para falar porque faço parte da comunidade caboverdiana do RJ, adorei esta matéria. Com certeza, todos que lerem este texto ficarão motivados a ler mais e mais sobre Cabo Verde.

    Parabéns!

    Neusa Oliveira

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