Lugar dos livros no ABC? Alpharrabio

Diário do Nordeste – 5 de dezembro de 2008
CADERNO 3
Carlos Augusto Lima

Lugar dos livros no ABC? Alpharrabio

Alfarrábio para o dicionário é livro antigo, velho, gasto. Obra extensa, enfadonha. Para nós, um outro alfarrábio, agora Alpharrabio, assim mesmo, com ph, sem acento, um projeto de livraria surgido em 1991 em Santo André, no ABC paulista, uma idéia para preencher a falta do livro, da leitura, do mundo. Alpharrabio primeiro como idéia de sebo, local de livros usados, mas, também, como local de circulação de idéias, novos autores, novos projetos, num lugar, na época, sem lugar algum. Numa casinha simples, posta a venda, típica habitação operária, a partir dali a idéia Alpharrabio foi se desdobrando e crescendo e propondo possibilidades de circulação de informação e cultura na região. A inquietude da livraria deu espaço para leituras, lançamentos de livros, audições musicais, debates, palestras e periódicos, além, de com o tempo, surgirem publicações com a própria marca Alpharrabio, que o leitor pode procurar e conferir em www.alpharrabio.com.br (não deixe de ver!). Livros mínimos, tiragens pequenas, delicados objetos de arte editados por gente que não dispensa o dado da qualidade e a extensão da criação poética para o elemento do papel, do projeto gráfico, do objeto livro. Algumas edições nem tão acessíveis assim. Tiragens de 28 exemplares, com 8 títulos para o autor e 20 que somem no lançamento. Que tal?

O nome Alpharrabio Editora e Livraria está diretamente ligado ao nome de Dalila Teles Veras, poeta, portuguesa de nascimento, brasileira por adoção, morando em Santo André desde 1972. Que uma pequena conversa com Dalila sirva de exemplo e inspiração para quem estiver lendo e também queira, com alguma determinação, preencher o lugar do vazio, como é o deste nosso lugar, na cidade com nome de forte:

— A Alpharrabio acabou ampliando-se num projeto além livraria, num espaço de circulação de idéias, projetos. Como esse processo foi se constituindo?

— A livraria, desde sua fundação, já acenava com a proposta de ser algo mais que um mero sebo. Ela nascia da constatação da necessidade de um espaço de encontro e troca de idéias na cidade, carente, à época, de espaços vocacionados para esse fim. Mas nada de metas a serem alcançadas, o caminho foi feito ao andar, parafraseando o grande poeta espanhol. Na verdade, a livraria foi montada, além da paixão por livros de sua proprietária, para dar suporte de autosustentabilidade a um projeto cultural que foi sendo implantado ao longo de todos estes anos. Já no segundo ano de funcionamento, em 1993, criamos a chancela Alpharrabio Edições que até o momento já publicou cerca de 100 títulos, na sua maioria na área de literatura (romance, conto, poesia, crônica, ensaio) e algumas dissertações acadêmicas. Costumo dizer que sou uma editora de circunstâncias, movida a paixão, ou seja, vi-me na contingência de editar, dada à enorme demanda de talentos ao meu redor que careciam do suporte livro para fazer circular sua produção literária e intelectual, bem também fui me envolvendo pelo processo de criação do objeto gráfico diferenciado, que é muito gratificante, para os viciados, como eu, em tinta de imprensa.

— Editar livros pode ser visto também como um ato de criação poética? Onde seu trabalho como poeta atravessa a fronteira da editora e produtora?

— O meu trabalho como poeta não só atravessa essas fronteiras, como também delas bebe, transformando-a, inclusive, em motivo de poesia. Há toda uma cumplicidade com os autores, pessoas que admiro e/ou desejo revelar como escritores. Tudo isso forma um círculo de enorme envolvimento, que vai da leitura dessa produção à expectativa do resultado final da edição que é sempre um novo projeto, uma nova concepção, uma nova proposta gráfica, dialogando, sempre, com o conteúdo de cada obra.

— Custos, distribuição, problemas de divulgação são queixas recorrentes nas falas de quem edita, escreve, vende livros. Com que alternativas você tem lidado para propor uma superação, um ir além desses problemas do objeto livro?

— Há muito tempo que deixei de me angustiar pela falta de soluções para essas questões cruciais. Publico movida pela utopia da página impressa. Distribuição? Isso não existe para o tipo de produto que ofereço. O distribuidor só aceita comercializar o óbvio, aquilo que vende, um best-seller pronto ou, ao menos, a possibilidade de. Divulgação? A mesma coisa. A grande imprensa não tem mais espaço muito menos disposição para coisas pequenas. É preciso reconhecer, inclusive, a grande dificuldade de filtragem num parque gráfico gigantesco como o brasileiro que deposita nas prateleiras das megalivrarias incontáveis títulos diariamente. Tudo gira em torno daquilo que é ´mega´ ou ´hiper´, na literatura ou em qualquer área da expressão artística, só tem visibilidade aquilo que é grandioso ou espetaculoso.

Micros

Nesse cenário, assumimos na totalidade nossa condição de nanicos, sem, contudo, abrir mão da qualidade conteudística e dos cuidados com os detalhes do objeto livro. Já publicamos edições que variam de 28 exemplares (8 fora do comércio, e os restantes, sempre esgotados no dia do lançamento) a, no máximo, 500 exemplares, sendo que a média ultimamente vem sendo em torno de 300 exemplares. Estamos fazendo, inclusive, experiências em tipografia, explorando novamente as belas possibilidades dessa arte. Para isso conto com uma equipe familiar de especialistas, igualmente apaixonadas por aquilo que fazem: uma cunhada (Luzia Maninha) e uma filha (Isabela), fantástica dupla de criadores, sempre à busca de inovações e recursos gráficos que, sem deixar de utilizar as modernas técnicas que a tecnologia e o mercado oferecem, dialogam e buscam o tempo todo com a tradição ligada ao livro e à simbologia que mais de 2.000 anos de sua história carregam.

Com todas as dificuldades, sem nenhum retorno financeiro, temos revelado talentos e consolidado outros que acabam rompendo, pela qualidade daquilo que escrevem, as barreiras da divulgação.

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5 Responses to Lugar dos livros no ABC? Alpharrabio

  1. o alpha tem alma de poeta
    crê e realiza sonhos

    vida longa ao alpha

    abraços
    Constança

  2. Canova says:

    Ai que saudade daquele tempo…
    Se meu tempo me permitisse…
    Se meu tempo aí me levasse…
    Só sei que tempo é tempo…
    O tempo seu tempo tem.
    O duro é não se ter tempo.

    Mil beijões a todos daí!

  3. rosana chrispim says:

    O lugar dos livros… onde se compartilha saber e sabedoria, coisas sinceras… o encontro das artes. Que seria de nós sem o Alpha?

  4. isa says:

    Eis a diferença entre a grande editora (só no tamanho) que visa o lucro e a pequena editora, sem fins lucrativos, que se transforma grande.

    Grande o caminho que percorreu, enorme o que lhe falta percorrer, fantástica a partilha que promove.

    Que bom seria ter uma sucursal do Alpha aqui, perto de mim.

  5. carlos says:

    ALGUÉM TEM MAIS ALGUMA INFORMAÇÃO A RESPEITO DE COMO SERÁ O X CONGRESSO. VI ESSA NOTÍCIA NO SITE DO CLIQUE ABC:

    Da Redação – São Caetano sediará o X Congresso de História do Grande ABC em agosto de 2009 e já iniciou os preparativos. A Fundação Pró-Memória será responsável pela realização do evento, que ocorre a cada dois anos, desde 1990, em forma de rodízio entre os sete municípios do ABC.

    Em 1994, São Caetano realizou o III Congresso. Em cada congresso, o município organizador escolhe o tema e os subtemas que serão discutidos pelos participantes. Para o congresso de 1994, o tema sugerido pelo professor José de Souza Martins, e acatado pela comissão organizadora, foi: “À sombra das chaminés – a produção da cultura no ABC”.

    O Congresso de História do Grande ABC é fruto de iniciativa, sugestão e pioneirismo do “Grupo Independente de Pesquisa e Memória do Grande ABC” (GIPEM), entidade que congrega professores, jornalistas, pesquisadores, memorialistas e demais interessados por temas históricos dos sete municípios.

    O grande inspirador desses congressos é o professor doutor José de Souza Martins, que, a pedido da Fundação Pró-Memória, já elaborou uma proposta de tema e subtemas para a décima edição do Congresso de História do ABC. O tema será divulgado por ocasião da nomeação do coordenador, secretário-geral e Comissão Organizadora pelo Prefeito Municipal, José Auricchio Júnior.

    A partir de então, serão elaborados os cartazes, folhetos, blocos, e demais materiais gráficos contendo o logotipo do evento e, em especial, o programa com os painéis temáticos, conferências, mesas-redondas e palestras. O congresso terá sede na Universidade São Caetano do Sul (USCS), campus I, no bairro Barcelona.