A fotografia numa sociedade privada de ver

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No último sábado, 07.03.09, o Prof. José de Souza Martins, um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros, nascido em São Caetano do Sul, autor, dentre muitos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (origens sociais do eu dividido no subúrbio operário), Editora 34, 2008, e A Sociabilidade do Homem Simples (Cotidiano e História na modernidade anômala), 2ª edição, revista e ampliada, Editora Contexto, 2008, dois livros que foram apresentados ao público no ano passado na livraria Alpharrabio, voltou a partilhar conosco um pouco de seus estudos e de sua arte. Desta feita, falou-nos de uma outra faceta de sua atividade criativa, a de fotógrafo, que é matéria de seus mais recentes livros que ali estavam sendo apresentados: Sociologia da Fotografia e da Imagem (Editora Contexto) e José de Souza Martins, Coleção Artistas da USP (EDUSP). O primeiro, reúne estudos teóricos de Sociologia Visual e o segundo reúne ensaios fotográficos, dois dos quais realizados no ABC: um na Vila de Paranapiacaba e outro na Cerâmica São Caetano.

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Como sempre, o professor despiu-se de sua invejável erudição (sem jamais ser raso) e discorreu sobre estes últimos trabalhos de uma forma que mais se parecia com uma conversa, pincelada, inclusive, com humor pouco visto em pessoas de sua estatura intelectual. Num mundo pontuado pela imagem, foi muito interessante ouvir indicações de como aprender a ver (“Nós somos cegos. Na sociedade contemporânea, somos privados de nossa plena visão e nossa capacidade de ver está empobrecida com o excesso de imagens. Não se vê mais nada (…) As pessoas possuem centenas de fotos, guardam numa gaveta, no computador, achando que vão ver um dia, mas não olham as fotos.”).
Estes dois novos livros de José de Souza Martins são obrigatórios para todo aquele que, estudioso ou simples admirador, tenha interesse por essa arte que no dizer do próprio autor deve ser vista “como uma modalidade do conhecimento”. (dtv)

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Abaixo, texto de dalila teles veras, denominado “anotações de leitura”, lido pela autora nesta ocasião:

Tarefa difícil, ao menos para mim, poeta municipal e desqualificada crítica, falar desta obra que hoje é aqui apresentada e a seguir autografada pelo seu autor. Em primeiro lugar, falemos da estrutura do livro que tem por título José de Souza Martins, na coleção Artistas da USP. Reúne três ensaios fotográficos realizados na Vila de Paranapiacaba, em Santo André, na Cerâmica São Caetano, fábrica onde o Prof. Martins trabalhou quando adolescente e à qual voltou, ou ao que dela restou, para fotografá-la. O terceiro ensaio é sobre a Fábrica de Linhas Pavão, no dia de seu desmonte. Juntam-se a eles, um conjunto de 12 fotos experimentais, coloridas, verdadeiras pinturas impressionistas ou abstratas.

Abbas Kiarostami, o fotógrafo e cineasta iraniano, diz que, em persa, quando alguém olha algo com verdadeira intensidade diz: “tinha dois olhos e pediu mais dois emprestados”. Pois é justamente isso que procurei fazer, ou seja, emprestar mais dois olhos para que ajudassem os meus a ver com mais profundidade estes trabalhos. Gostaria de me ater apenas à poesia destas fotografias que tão apropriadamente o autor, no prefácio, denomina de “retratos do silêncio”, posto que de poesia elas foram realizadas, não só no que se refere à própria fotografia, mas também no que o autor chama de “crônicas”.
De que silêncio nos fala esses “retratos”? A fotografia, assim como o cinema, a poesia e, ademais, todas as artes, jamais mostra tudo e é justamente desse não mostrado que nos falam as fotografias do professor-fotógrafo, do fotógrafo-sociológo.
Na solidão das ruas de entrada e saída de operários por onde já não entra ninguém, no forno apagado, na chaminé que desaba, nos trilhos envoltos em névoa, no carro da última viagem: fotografias que certificam a presença humana sem que nenhum humano ali esteja retratado. O homem que o fotógrafo viu ali, enquadrou e registrou é, na verdade, a sombra significante desse homem, aquilo que ele, em seu anonimato, produziu e transformou, hoje transformado em ruína.
Roland Barthes, um pouco antes de morrer, em seu último livro publicado em vida, Câmara Clara, dizia que via fotos por toda parte, como todo mundo hoje em dia, algumas, no entanto, lhe provocavam “pequenos júbilos”. Falava do detalhe que ele chamava de punctum (o que me punge), aquilo que, ao mesmo tempo que permanece um “detalhe”, também preenche toda a fotografia ou, ainda, aquilo que o espectador acrescenta à foto e que todavia já está nela. A partir do momento em que há punctum, ainda de acordo com o pensador francês, cria-se (adivinha-se) um campo cego, aquilo que sai da fotografia. Pois é disso que nos fala o próprio fotógrafo Martins, quando, no prefácio, diz que “o livro expressa não só a busca do fotógrafo na estética das sombras, do vazio e do que é finito. Materializa também a intenção de interrogar aberta e sociologicamente o silêncio (…) o propósito de compreender o que ela diz em suas imprecisões.”, ou seja, aquilo que não está, o significante, provocando, em quem as observa, esses “pequenos júbilos” de fruição estética.

Falemos das “crônicas” que, digamos assim, ilustram ou complementam, ou, ainda, caminham paralelamente às fotos, na verdade, verdadeiros poemas do fotógrafo que não admitiu serem poemas, e que remetem o leitor para interiores da fotografia, sobre as quais, assim se refere:
“As crônicas que acompanham estas fotografias nasceram no próprio instante em que fotografava (…) Os objetos não se me propunham como puros objetos. Propunham-se, também, como fala potencial da coisa carente de múltiplas interpretações”.

Vale a pena evocar uma delas, que tem como título “Tempo perdido” e que abre o ensaio sobre a Cerâmica São Caetano:

Cada um de nós
tinha um relógio
nas dobras da consciência
para marcar o tempo perdido,
a culpa nossa de cada dia
a fustigar-nos o sono
pelo desperdício
do que se tornara alheio.

Os minutos perdidos
em urinar,
abotoar a calça,
lavar as mãos.

Os minutos perdidos
em lembrar um verso,
em abrir o livro
da poesia vital.
Os minutos perdidos
em olhar
a operária bonita,
em recolher os olhos,
em esquecer a vida,
em sonhar, divagar, rir.

Viver era improdutivo
na retidão
da linha de produção.

Aqui está a crônica que é poema, mas também memória, agora reinterpretada, revivida.

Mas é também no título dado a cada uma das fotografias que a poesia se faz presente. Senão vejamos estes três “poemas” que, na verdade, são uma colagem que realizei utilizando simplesmente os próprios títulos das fotografias, acrescidos apenas, quando imprescindíveis, de um ou outro artigo, de um ou outro vocábulo, apenas para lhe dar o sentido de poema. A estas colagens, poderíamos dar o seguinte título: “a fotografia de José de Souza Martins, por ela mesma”.
Vejamos:

Paranapiacaba

Para além da cerca e da névoa
Um grupo humano
Caminha
Para além do silêncio
Do emaranhado das linhas
Do resplendor dos trilhos
A rua sem fim
O fim do planalto

A luz desce e penetra
O portal do tempo
Da roda dentada
Da conversa dos meninos
Trama de viagem
Na neblina

Cerâmica São Caetano

Nos desencontros
Da rua interior
O esquecimento

Da boca pra fora
Sem dentes
O descuido

Da chaminé de fogo-morto
Vertigem
Horizonte do vazio

Última jornada

Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada

Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última jornada
Última

Plagiando Manuel Bandeira, poeta da minha predileção, eu diria: perdoem, pois não pude ser outra coisa. Obrigada.

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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One Response to A fotografia numa sociedade privada de ver

  1. Rita Farias says:

    Bom dia,
    Estou fazendo uma pesquisa sobre história da uniformização profissional no Brasil e gostaria de saber se vocês têm fotos antigas de trabalhadores uniformizados.
    Obrigada
    Rita Farias, Viçosa, MG