Memorial e Museu do trabalho em São Bernardo

Sob o título “São Bernardo irá criar memorial e imortalizar Lula” , o Diário do Grande ABC de hoje noticia a intenção da administração municipal daquela cidade “em montar um memorial em homenagem aos metalúrgicos no Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, palco das mais importantes manifestações sindicais da década de 1980. O jornal ouviu o secretário especial de Coordenação de Ações Voltadas à Comunidade e futuro gestor da Pasta de Cultura, Celso Frateschi, que disse ser o memorial, no histórico Estádio da Vila Euclides, “uma proposta simples, que deve receber uma menção dos metalúrgicos”, já que há a previsão de criação de um Museu do Trabalho e do Trabalhador, estimado para ser inaugurado em 2010, este sim, um projeto amplo e ambicioso que contará a história do trabalho desde os tempos mais remotos até os dias de hoje.
Sem querer entrar o mérito da questão se essas propostas teriam ou não um eventual “condicionamento político”, insinuado pelo jornal e negado pelo secretário, gostaria de lembrar aqui que esta é uma reivindicação antiga da comunidade regional que, com justeza, deseja que, não só por direito, o espólio do Presidente da República permaneça no local onde ele surgiu como liderança operária e palco de importantes conquistas sociais, mas também para que a história do trabalho que é a nossa história, possa estar abrigada num local adequado para receber estudiosos e interessados do Brasil e do mundo. Nesse sentido, reproduzo abaixo documento datado de novembro de 2002, logo após Luis Inácio Lula da Silva ter sido eleito Presidente do Brasil pela primeira vez, ocasião em que o Alpharrabio promoveu uma exposição sobre a trajetória do movimento operário, bem como debateu com estudiosos a questão da memória operária. Denominada “Carta Alpharrabio”, o documento que circulou amplamente à época, está arquivado no sítio da livraria: www.alpharrabio.com.br (dtv):

CARTA ALPHARRABIO ( *)

A partir de 1978, ainda sob o regime da ditadura militar, na região mais industrializada do país – o ABC paulista – onde as contradições entre o capital e trabalho apareceriam de forma mais explícita, os trabalhadores ressurgiram no cenário nacional com manifestações e reivindicações próprias que iriam repercutir em toda a vida da nação.

Os metalúrgicos do ABC afirmaram-se, veementemente, no cenário político brasileiro, como expressão do novo e como exemplo de participação decidida dos trabalhadores empenhados na construção de sua própria História. Hoje, nesse inicio de século, o movimento sindical conquistou espaço e respeitabilidade, como instituição da sociedade civil, jamais visto anteriormente em toda a história do país, culminando com a eleição de sua principal liderança, Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente da República Federativa do Brasil.
Investigar, preservar e socializar a memória dos trabalhadores metalúrgicos do ABC paulista, como se representam e são representados, procedendo simultaneamente à reflexão teórica e metodológica dos elementos que os diversos códigos fornecem, como o verbal, o escrito, o iconográfico, e outros, e ao próprio real, constitui um desafio que diz respeito a própria preservação do patrimônio histórico, arquitetônico e cultural da região, muito em especial para a memória da história do trabalho. Alertar, uma vez mais, as administrações publicas das 7 cidades do ABC, sobre a importância desse assunto, incluindo a história e a literatura locais nos currículos escolares e dando condições, através de políticas públicas adequadas e transparentes, para que os serviços dessa área sejam, além de cumprirem sua missão de preservar, mais atuantes e se transformem em verdadeiros pólos de discussão e difusão de idéias.

Para aqueles que sempre se preocuparam com o patrimônio histórico e cultural da região, pesquisando, preservando e, sobretudo, alertando e cobrando permanentemente das instituições locais, medidas visando a intensificação de políticas públicas que cuidem de maneira satisfatória a preservação do patrimônio, viram com satisfação que a eleição de LULA Presidente, despertou extraordinário interesse pela região por parte de toda a imprensa e televisões nacionais e estrangeiros, além de inúmeros estudiosos e pesquisadores.

Apesar de a região dispor de centros de documentação da história, de museus e de outros acervos, a história do trabalho, marca poderosa desta região, ainda não foi devidamente valorizada por essas instituições, que, por sua vez, e certamente por falhas de divulgação, também são muito pouco conhecidas pela comunidade apesar de alguns meritórios esforços isolados de torná-las mais conhecidas e atuantes, razão pela qual as pessoas reunidas na Alpharrabio Livraria e Editora, em Santo André, no dia 11 de novembro de 2002, após ouvirem exposições de especialistas sobre os “Registros da Caminhada Operária”, e procederem ao subseqüente debate, decidiram desencadear um movimento no sentido de recuperar e preservar a memória do trabalho na região do grande ABC paulista, propondo a união de todos os esforços públicos e privados para a consecução desse objetivo.
Santo André, 11 de novembro de 2002

Alpharrabio Livraria e Editora
Assinaram o livro de presença da reunião:
Antonio Possidonio Sampaio, Luiz Flávio Rainho, Dalila Teles Veras, Hildebrando Pafundi, Anna Beatriz H. C. Zanei, Osmar Zanei, Silvia Maria H.C. Zanei, Tarso M. de Melo, José Duda Costa, Cecília Auxiliadora B. Camargo, Edson Bueno de Camargo, Filadelfo B. de Souza, José Carlos de Souza, Philadelpho Bráz, Silva Helena Carrasqueira, Fernando de A. Galuzzi, Daniel de Castro, Patricia Augusta Corrêa, Isabela A.T.Veras, Carolina A.T.Veras, Valdecírio Teles Veras, Marcelo F. de Toledo, Antonio Assunção da Cruz, Mario Galuzzi, Angêla Maria de Alvarenga, Elesbão Galuzzi, Vado do Cahimbo, Luzia Teles Veras, Arturo Peduzzi, Alexandre Takara, Adão Francisco Coelho, Maria Lúcia J. Barbosa, Sérgio Canova, Wilma Lima e Júlio M. S. Filho
* documento resultante do debate ABC DO BRASIL Registros da caminhada operária, realizado no dia 11.11.20

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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One Response to Memorial e Museu do trabalho em São Bernardo

  1. Antonio Possidonio Sampaio says:

    Pois é, Dalila, o nosso Alpha sempre antecipado. Por isso faz a diferença. 0 tão esperado memorial já foi po nós discutido, conversado, e agora volta a ser comentado. Ainda bem. Na época, chegamos a conversar com Marinho, atual prefeito de SBC, que nos disse que sua atual secretária de Educação, na época exercendo o mesmo posto em S.André, já estaria cuidando do assunto. Esperamos uma discussão, que não ocorreu. Quem sabe agora ela aconteça? 0portuna as suas observações. Abraços do Antonio Possidonio Sampaio