Trabalho, cultura e bem-comum

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Prof. Luiz Roberto Alves

Com imperdoável atraso, registro aqui um encontro muito especial, uma verdadeira celebração da inteligência, ocorrido no último dia 25 de abril no Alpha: O lançamento do livro do professor Luiz Roberto Alves, Trabalho, cultura e bem-comum (Leitura Crítica Internacional), publicado em 2008 pela Editora Annablume, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, durante o qual, os presentes puderam ouvir um memorável depoimento do autor sobre a pesquisa e o processo de trabalho que resultaram nesse livro, bem como a opinião acerca do mesmo dos convidados Celso Horta, jornalista e Raphael Marques, Vice-Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Este livro resulta de um trabalho de pesquisa realizada pelo autor entre 2006 e 2007, na Universidade de Florença, com apoio do CNPq e da Universidade Metodista de São Paulo. A apresentação do livro é feita pelo Professor Adilson Citelli, da ECA- USP.

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Celso Horta

“Este livro é uma batalha, colocar em linguagem acadêmica aquilo que eu tenho visto há muito tempo”, foi a frase inicial proferida pelo autor. Na impossibilidade de condensar aqui a densidade daquele depoimento, reproduzo abaixo, em forma de resenha, um texto do próprio prof. Luiz Roberto que, na forma escrita diz bem do que foi dito oralmente naquela ocasião. (dtv):

“Considera-se que a linguagem é o lugar central das batalhas econômicas e políticas contemporâneas. A obra centra-se nos processos de comunicação de organizações públicas e privadas sobre o mundo do trabalho em contínua precariedade e no projeto internacional de apagar as diversidades político-culturais e negar o bem-comum nas negociações do chamado livre-mercado. Resulta que os atuais discursos econômicos não têm nova linguagem para compreender e explicar, sozinhos, a grandeza da crise internacional. Muito menos que se possa impor novo paradigma de capitalismo no meio da fadiga financeira. Qual a razão do impasse? Precisamente porque a linguagem econômico-financeira dominante nos anos 90, a partir do apagamento de sentidos do trabalho humano, dos bens públicos e da diversidade político-cultural, erigiu-se como fundamento único da história, espécie de moeda linguística mitificada. Seu respaldo? O discurso tido como refinado e competente das assessorias dos países da elite econômica da Terra. Assessores, governantes e financistas internacionais, juntos em seu projeto auto-explicativo da História pós-1989, não se perceberam como indutores de mito e, depois, como mito global a arrastar as consciências políticas para situações de cegueira e afasia. Tais distúrbios são mais evidentes no estupor de 2008. Mito, aqui, é entendido na acepção proposta por Roland Barthes, que o trabalha como espécie de roubo comunicativo, de difícil desmobilização. No processo estudado, entre 1990 e 2005, ocorreu um roubo de linguagens da sociedade ocidental, que vitimou – e vitima – exatamente os valores que poderiam reencaminhar as governanças saídas da guerra fria, isto é, os valores culturais do trabalho decente, dos bens sociais tornados bem comunitário e da diversidade sócio-política no tratamento da economia, das finanças e das políticas sociais. A leitura intensiva dos documentos da OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, assessora do G-8, especialmente seus famosos estudos reunidos na série denominada Economic Outlook, revela o fundamentalismo desatinado das propostas neoliberais, em cujas redundâncias e repetições de fato se revelam relatos de contos ou narrativas do folclore tradicional, conforme estudados por Greimas, Propp e outros críticos da cultura. Fazendo-se ficção enquanto propalava esmerada ciência econômica, aquele pensamento de elite, lido na pesquisa realizada entre 1992 e 2005, mistifica a consciência política de governantes e dirigentes de arranjos produtivos e impossibilita a gestão diversa, ecológica e equânime do processo social. As supostas governanças são arrastadas por uma unidade discursiva e dizem amém a três valores míticos: os paradigmas da memória harmônica do mundo, do bloco da prosperidade global e do governo avalizável pelo mercado. No mito entronizado termina a diversidade política e o ajuste macroeconômico neoliberal passa a ser o graal. De fato, o centro do mito. Diante dele, até mesmo o estado de bem-estar (ou bem-comum) ainda defendido aqui e ali é visto como fraqueza, doença política. Vê-se que o acúmulo da linguagem mítica produz, hoje, a multiplicação dos sofrimentos sociais, especialmente entre os pobres reais e pobres potenciais do mundo.
A obra encontra nos discursos de trabalhadores organizados em movimentos sindicais do Brasil, Itália e Alemanha um projeto de gestão alternativa, mas esses discursos até 2005 revelavam-se impotentes diante do apagamento avassalador de valores correlatos. Ora, os discursos sobre o trabalho não se tornam exponenciais fora da articulação com os bens-comuns e as diversidades das culturas, quer do chão-de-fábrica, do bairro suburbano e das profissões liberais comprometidas com o destino das comunidades cívicas. Os liames foram apagados pela força das linguagens do mito cientificizado, assumido por governos e demais setores econômico-financeiros. Tais discursos são perfeitamente enquadrados nos relatos das personagens travestidas de redentoras e libertadoras das estórias folclóricas. Tais discursos não podem, hoje, explicar o estouro porque ainda estão presos a uma semântica padronizada pelo longo tempo de fundamentalismo. Somente linguagens liberadas e fronteiriças de vários saberes podem repensar produtivamente os rumos da crise e criar novos gestos de governança, notadamente se compartilharem de modo vivo e contínuo o debate das culturas, do trabalho decente e dos bens-comuns locais e globais.

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Raphael Marques

O livro é trabalhado por metodologia sócio-semiótica, que permite o rastreamento de discursos e a consequente revelação de projetos sociais em movimento de disputa simbólica. As conexões das diversas leituras sociais trazem à arena de luta camadas de significação social pelo uso reiterado de imagens e sinais organizados pelos produtores de mensagens em seus contextos de referência. No movimento de leitura, o autor se incomoda com os sentidos banalizados de expressões tais como paradigmas, competências e desenvolvimento, suas crises e reposições de sentidos, via de regra artificiais. Introduz, destarte, o debate da solidariedade discursiva, que lentamente tece sentidos, a despeito da mistificação político-econômica vitoriosa, agora decadente e carecendo de novas artimanhas para manter seu poder. O que de fato pode redimir o processo social degenerado não é a interposição de novos paradigmas econômicos, mas a solidariedade das conexões sociais, das ligações horizontais, comunitárias, vivas e ativas como novos sintagmas dos atos de trabalhar, construir diversidades solidárias entre as culturas e aprofundar o bem-comum, único lugar onde as maiorias humilhadas e ofendidas (de classes sociais diversas) descobrem que são sujeitos de linguagem e dignidade.
O livro pensa a sociedade com as armas da estética, dos estudos de linguagem e da atitude interpretativa. Trata-se de uma obra política que deseja participar dos estudos em favor de novas e ousadas culturas nas gestões sociais”

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About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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