Personagem

Tardinha, escurecendo cedo. No lusco-fusco, uma mulher desgrenhada, roupas de cor indefinível, corpo coberto de sujeita, senta-se à soleira da livraria, cabeça entre as mãos, olha o vazio do chão (lembrava a personagem do filme Bestseller, roteiro de Adélia Nicoletti e direção de Alex Moletta, ambientado exatamente ali).
Repentinamente, voltando-se para dentro, grita: não precisa ter medo, não sou bandida! Tem aí o Pequeno Príncipe? Eu adoro o pequeno príncipe! Gira a cabeça à esquerda e depara-se com um pôster de Carlos Drummond de Andrade. Aponta para a fotografia e pergunta: esse aí é o Mário de Andrade?
A moradora de rua perdeu a casa, confundiu os rostos dos escritores, mas, diferentemente de muitos com casa, comida e roupa lavada, guardou na memória fragmentos de histórias, nomes, palavras… não perdeu a capacidade de se encantar com a literatura. (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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One Response to Personagem

  1. isa says:

    Nem a propósito!

    Há cerca de 1/2hora comentei com um colega conceitos que conduzirão, ou não, à felicidade ou melhor à falta da mesma e tudo começou por causa de uma senhora que vagueia por estas bandas, por vezes, cantando e rindo e, outras tantas, também ralhando.

    Dando como exemplo esta conterrânea, ele dizia que é uma tristeza ser assim, viver sem noção, etc etc. Eu contrapunha dizendo que esta senhora pode não ter os conceitos bem definidos mas quem sabe até pode ser feliz. Ele dizia que ninguém poderia ser feliz assim porque isto… porque aquilo… e a discussão continuou, continuou…

    A certa altura: “Ah, como não posso estar mais em desacordo! Quem dera, por vezes, ter um interruptor para desligar de todo e qualquer preceito ou conceito”, insisti eu.

    Pensei que tinha dado a última palavra mas então não é que aquele “idiota” (já me estava a irritar com tanto preconceito) disse: “Pior que não ser feliz, é sê-lo sem o saber”.

    Ops! Hoje até que nem me apetecia pensar muito mas este gajo (palavrinha bem portuguesa, né?) está a contrariar esta minha pretensão e, mais ainda, conseguiu calar-me.
    Há muito tempo que homem algum, muito menos gajo, conseguia tamanho feito. Porque seria?!