Pedro Martinelli

Nesta segunda, 15, cumpriu-se mais uma etapa da programação especial de aniversário do Alpha (18 anos) com um encontro memorável: Pedro Martinelli, o fotógrafo andreense, brasileiro, universal, que falou durante 2 horas para um público encantado com alguém que, além de dominar a linguagem fotográfica, também é senhor da linguagem oral, um grande contador de histórias (todas absolutamente verdadeiras, acrescidas, é bem verdade, das metáforas surpreendentes do narrador)

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Em sua “conversa”, Martinelli estabeleceu um fio condutor em sua trajetória artística (que denominou de “canal comedor”) que liga a sua Santo André natal à Amazonia. Desde 1994, é esse ainda tão desconhecido território que lhe tem rendido trabalhos reconhecidos, expostos em espaços de prestígio como Museu da Casa Brasileira, SP, Museu de Imagem e do Som, SP e SESC Pompéia, SP, também publicados em quatro significativos livros (Panará a Volta dos Índios Gigantes. Amazônia o Povo das Águas, Mulheres da Amazônia e Gente X Mato).
Após anos de jornalismo profissional ligado a grandes empresas jornalísticas, tomou a decisão de torna-se um fotógrafo independente. Largou um emprego seguro na Editora Abril (a decisão levou 10 anos para ser tomada), comprou um barco e foi para a Amazônia. Aqui coube um esclarecimento: não para cair na armadilha de fotografar o exótico (“arara, papagaio, pôr-do-sol”). Lá, contratou um comandante para o barco e passou a fotografar aquilo que queria, sem pressa, à espera da luz adequada, do momento propício, da cena inesperada (“sempre fiz tudo do meu bolso, nunca parei o meu barco no porto do Prefeito de nenhuma cidade – sempre o único porto que oferece o conforto de uma lâmpada de gerador”).
De Santo André, levou o conhecimento de “aprender a ver o bicho” (o “canal comedor”) aprendido com o pai caçador, que se embrenhava pela então mata fechada da Serra do Mar, o “canal comedor” que o levou a aprofundar o conhecimento do Brasil brasileiro na Amazônia, onde conheceu e conviveu com os irmãos Villas Bôas (“Cláudio Villas Bôas foi uma Universidade, momento de alinhamento de caráter, o grande Mestre que me mostrou onde é que eu deveria focar minha câmara).

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foto: fátima roque

Sua descrição da gastronomia brasileira é um capítulo à parte (nesse item – e em todos os outros – recomendamos a leitura de seu blog: aqui). Diz ele, indignado: “Todo mundo hoje virou “Chef”, mas não conhecem nem a variedade de nossas farinhas (de mandioca, de milho) muito menos nossa história e geografia. Estão copiando a caboclada e não dizem nem a origem das coisas. Fazem isso também com os portugueses. A culinária mineira não é mineira coisa nenhuma, é portuguesa. É só ir a qualquer restaurante de Lisboa e verificar onde está o “queijo mineiro”.
E Pedro vai construindo sua história de vida em metáforas: “quando o rio, depois das cheias e transbordamentos, volta pra caixa, voltamos nós para o canal comedor, nesse caso, Santo André, fazer a avaliação do trabalho” (aqui, sempre desconcertante, esclarece: esse negócio de “canal comedor” eu descobri agora”).
O “canal comedor”, ou seja, aquilo que Pedro considera a essência, tem sido o objeto de sua reflexão: “o que é que eu conseguir fazer com a fotografia, com o que contribui. Dei uma mão no que me meti? (…) “A gente não entendeu a história do Brasil, que não está compreendida e ninguém conhece e precisa ser revista todos os dias para poder abolir a indiferença com as minorias, os índios, os quilombolas”.
Sempre polêmico, acrescenta: “A foto – a câmara e toda a parafernália de equipamentos – vale cada vez menos. Ficou uma coisa menor, como uma foto de onça no zoológico.”
“Tem muita fotografia pra fazer” prossegue o apaixonado (e apaixonante) artista: “não a fotografia “artística”, mas a dos objetos, do mosaico, das coisas pequenas” (recomendamos uma vez mais que se leia/veja o blog do Pedro para compreender o que ele diz e que aqui, desalinhavadamente, tentamos reproduzir).
Não fosse “o adiantado da hora”, lá ficaríamos todos, a ouvir, a ouvir… a perguntar…

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Restou o consolo de levar para casa as fotos (nos livros) com o indispensável e valioso autógrafo (quanto às fotos do encontro, a nossa fotógrafa “oficial” Luzia Maninha confessou-se ciosa – sem motivos – diante do mestre e mandou apenas estas três). dtv

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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One Response to Pedro Martinelli

  1. Penélope says:

    Para quem só chegou no final, comprou os livros maravilhosos e ganhou a assinatura do artista neles, mas não ouviu seus preciosos relatos e opiniões, Dalila conta o que se passou e aumenta em nós a certeza do que perdemos… Quando ele voltará? Fica a questão como súplica.

    Pena que não podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo.