Pequena crônica um tanto quanto indignada a propósito de livros, bibliotecas, descaso e correlatos

Nesta semana, A livraria Alpharrabio recebeu a visita de uma senhora que trazia consigo uma relação de livros que desejava comprar. Não, não era, como de hábito, uma avó ou mãe a serviço de algum estudante preguiçoso que vinha atrás da bibliografia recomendada pelo professor.
Tratava-se, veja bem, de um agente da Biblioteca do Congresso dos EUA (há um deles em todas as regiões do Brasil e, claro do mundo), que havia elaborado em sua pesquisa prévia uma lista de títulos publicados pela Alpharrabio Edições que interessava àquela Biblioteca. Não, ela não veio pedir doação, como é de hábito por aqui. Ela pagou, na hora, sem burocracia (ela sabia de antemão que as nossas edições não contam com nenhum Distribuidor – nem adiantava “abrir licitação”) e tampouco exigiu nota fiscal com todos aqueles dados de empresa, CNPJ, etc, mas, simplesmente, a nota fiscal de consumidor, de praxe. Esta não foi a primeira vez, já fomos procurados anteriormente pelo mesmo motivo.
Relato aqui este fato para ilustrar uma constatação e uma queixa antiga: As bibliotecas públicas de nossa região (muito menos as particulares – com raríssimas exceções) não se interessam em absoluto pelo que publicamos ou por qualquer outro título que seja publicado por aqui. As bibliotecas das dezenas de Faculdades e Universidades locais, idem. O nosso auto-desconhecimento é histórico e lamentável.
Há décadas, fui uma das primeiras pessoas a sugerir que a Biblioteca Nair Lacerda, de Santo André, disponibilizasse uma estante, com indexação própria, da literatura do e sobre o ABC, para facilitar os pesquisadores e, claro, os simples leitores interessados. Em dada altura isso foi feito, mas desde então nem um só livro foi adquirido para aquele acervo. Aquilo que ali é exposto e disponibilizado é fruto de doações dos próprios autores. Há compras de revistas mundanas, Paulo Coelho e outros títulos de auto-ajuda, mas literatura produzida na cidade ou na região, não, jamais, nunca. Total desprezo. Isso é histórico, repito.
Um exemplo: No início dos anos 80, quando coordenei um estande da União Brasileira de Escritores na Feira do Livro de Santo André, presenciei uma cena, no mínimo, perturbadora. Como não eram vendidos livros no estande institucional, solicitei aos autores que, ao final da Feira, doassem à Biblioteca, promotora da Feira, os dois exemplares que ali ficaram expostos. Ao efetuar a doação diretamente à então Gerente de Bibliotecas (que deus a tenha!) ela começou a fazer sua “seleção”: – estes “fininhos” e revistas não entram (sem entrar no mérito do conteúdo), pois nem vale a pena cadastrá-los. Os livros “fininhos” eram livros de poesia e revistas, alguns deles “fanzines” que hoje sabidamente possuem relevância literária e história, não apenas local, já foram objeto de estudos acadêmicos e podem ser vistos em acervos de bibliotecas como da PUC, em Campinas e outras tão importantes.
Cito esse fato, não para enaltecer aquilo que vem de fora, mas para tentar, quem sabe, argumentar com quem de direito, sobre a importância de acervos sólidos, uma “abecediana” que possa servir de mecanismo a nos tornarmos capazes de, finalmente, mirarmos no espelho de nossa própria história.
A Biblioteca do Congresso (e os americanos) sabem bem que informação e conhecimento significam poder (e não só, mas em todo o seu mais amplo sentido). O fato de procurarem levar pra lá os nossos livros não é porque somos criativos, bonitinhos, exóticos, com pencas de bananas na cabeça, nada disso… Simplesmente porque esse acervo possibilita ampliar o conhecimento que podem ter sobre nós (para o bem ou para o mal). É justamente esse conhecimento que dá respostas à complexidade do mundo contemporâneo.
Entretanto, ao invés de copiarmos o que de melhor possuem os nossos vizinhos do Norte, nós, periféricos, suburbanos, deslumbrados sacoleiros, fazemos ponte aérea com Miami, para comprar, comprar… muitas vezes, meros produtos chineses, (alguns deles, marcas falsificadas) que ali são vendidos e voltamos deslumbrados com todos aqueles “outlets” de “primeiro mundo”. Assimilamos e aplaudimos todos os filmes estrelados por imbecis como esse brutamontes (me recuso a citar seu nome) que paga (e nós recebemos) para ter sua estátua no Brasil e, em troca, sai dizendo um monte de m… da gente, mas nem por isso (ainda que com algumas críticas lá pelo meio do texto) os jornais desta semana deixaram de oferecer generosos espaços para a propósito da estréia seu blockbuster, que aqui foi rodado, leitmotiv de sua “estátua”. Acho mesmo que ele tem até alguma razão (se é que aquele monte de músculos possui alguma massa cinzenta aproveitável), no sentido de sermos enganados e ainda oferecermos “macacos” de presente. Triste sina… (dtv)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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3 Responses to Pequena crônica um tanto quanto indignada a propósito de livros, bibliotecas, descaso e correlatos

  1. Penélope says:

    ai… dói tais verdades, mas melhor que estejam abertas as feridas para que sejam tratadas. Parabéns Dalila!

  2. Marcos Euzebio says:

    Uau, Dalila em sua melhor forma! Muito bom, muito bom o post!
    Um abraço solidário na indignação…

  3. sabrina says:

    e grande eu nao lir