Alpharrabio 20 Anos – O Alpha pelos alphas – I

Tarso de Melo, advogado, filósofo, poeta, gente desta casa (um “alpha”), escritor de quem já publicamos vários livros, nos enviou um curioso texto que homenageia o Alpharrabio nos seus 20 anos. Com a devida autorização do autor, é com muito gosto que reproduzimos aqui o seu texto. E já que Tarso, de forma espontânea, nos honrou presenteando-nos com esse belo texto, veio-nos a ideia de um convite: você que se considera um “alpha” escreva também o seu depoimento, da forma mais informal e criativa possível. Teremos imenso gosto em publica-lo aqui, sob este mesmo título geral “O Alpha pelos alphas” II, III e… bem, aguardemos as eventuais manifestações dos “alphas” e vejamos até onde chegará a numeração. (dtv)

Alpharrabio 20 anos: já!?

Tarso de Melo

É muito difícil separar vício e virtude, entender onde um começa e o outro termina, ou mais, perceber quando um se converte no outro. Mas disso até o leitor dos Minutos de Sabedoria tem uma noção. O buraco é mais embaixo.

Nos últimos dias, por exemplo, tem-se falado muito sobre como tratar um vício grave, o crack, e os seus efeitos devastadores nas pessoas e na cidade. No entanto, o telespectador menos sonolento já viu que a solução não vem pelas vias virtuosas: os vícios da Cracolândia, na verdade, incomodam outros vícios, como a especulação imobiliária, e despertam vícios até piores, como a violência policial. É difícil achar qualquer virtude naquilo tudo. Aprendi, a propósito, num documentário especialmente impactante sobre o que o poder público projeta para aquelas três ou quatro ruas do centro de São Paulo, que “a Cracolândia não é um lugar, mas um conjunto de pessoas”. Completo: um conjunto de pessoas unidas por alguns vícios comuns.

Mas o que isso tem a ver com os 20 anos do Alpharrabio? – o leitor já deve estar incomodado. Tudo, porque há quase 20 anos o Alpharrabio é a minha Cracolândia. E a Cracolândia de muitos outros. É no Alpharrabio – não apenas um lugar, mas um conjunto de pessoas, espalhadas pelo Grande ABC e (queiram ou não) amarradas umas às outras pelos mesmos vícios – que pude satisfazer e, de certo modo, tornar insaciável o vício de ler e falar sobre literatura, que havia adquirido meio por acaso no início dos anos 1990 e, de lá para cá, tem exigido doses cada vez maiores. Várias delas, confesso, encontrei no Alpharrabio – insisto, não apenas um lugar, pessoas!

Por exemplo, não conheci o Alpharrabio no próprio Alpharrabio. Eu rodava por Santo André em busca de algo que satisfizesse – e firmasse – aquele vício nascente e me deparei, numa manhã de sábado, com um mercado de pulgas no Museu municipal (era bem em frente ao Museu, aliás, que ficava a papelaria em que eu encomendava a maior parte dos livros que comprei na época). Entre os vários expositores/vendedores, uma barraca de livros. Poucos livros, se bem me lembro. Cheguei, como quem faz algo errado, tomei coragem (acho que por causa dos títulos ali expostos, que me levavam a crer que seria o lugar ideal para fazer essa pergunta) e disse: “Você tem as Flores do Mal, do Baudelaire?” As traficantes – Dalila e Maninha – logo perceberam que ali havia um potencial dependente: “Aqui, não. Mas lá no Alpharrabio tem”.

Era um convite e uma senha. Aceitei e não sabia que aquele “no Alpharrabio tem” dizia respeito a muito mais do que o livro do Baudelaire (que, de fato, estava lá na livraria e fez a minha alegria). Digamos: vim (fui), vi, viciei. Daquela semana em diante, eu mesmo passei a dizer para outros potenciais dependentes que “no Alpharrabio tem”: livros e mais livros, conversas intermináveis sobre literatura e outras artes, gente que faz música, teatro, dança, poesia. Gente com os mesmos vícios.

À época, bem mais jovem, disposto e disponível, fiz daquela casa na rua Eduardo Monteiro – e, principalmente, das pessoas que gravitavam ao seu redor – a minha Cracolândia. (Aliás, não era nada difícil ver grupos de frequentadores do Alpha, depois dos eventos ou das tardes mais pacatas, vagando pela cidade, esticando a conversa em bares, cafés, padarias.) Era lá e com elas que eu partilhava cada leitura nova, cada desejo de ler algo que alguém comentou, cada ideia que surgia e os versos que colocava no papel e pretendia que fossem além do papel. E aquela gente toda ficava ali horas e horas satisfazendo o vício alheio e, ao mesmo tempo, aprofundando o vício com novas dicas, um livro que encontrou, um autor que descobriu.

Esse Alpharrabio não ficou nos anos 1990 – ainda é assim, por trás de todas as transformações, inclusive físicas, que ocorreram. Mas o leitor deve ter uma ideia de que, em 20 anos, muita gente diferente passou pelo Alpharrabio. E é até possível falar de gerações diferentes que ocuparam o Alpha, sempre mescladas umas às outras, mas trazendo uma atmosfera diferente a cada 3 ou 4 anos de sua história.

Nesses 20 anos, há alguns “titulares”, digamos, mas a cara do Alpha mudou no mesmo ritmo com que mudaram as caras que circularam por lá. E as diversas caras do Alpha espalham pela cidade a cumplicidade que mesmo os frequentadores mais esporádicos passam a ter com as pessoas e coisas que conheceram ali.

É comum ver o Alpharrabio andando pelas ruas do ABC. Podemos reconhecer a quilômetros um alpha – batizemos assim, mais ou menos como os cronópios e famas de Júlio Cortázar, o frequentador (ex-, atual ou futuro!) do Alpharrabio. Um alpha sempre reconhece outro alpha, mesmo se aquele não frequenta mais e o outro não frequenta ainda. Um alpha reconhece a si e seus pares normalmente no momento em satisfazem seus vícios comuns: o livro, a caderneta, a conversa, alguma contemplação e o passo um pouco mais lento. Essa identificação toda poderia levar a uma espécie de seita, mas, pelo contrário, isto faz do Alpharrabio um grupo perturbadoramente aberto, composto por todos aqueles que, em algum momento, partilharam ou partilharão da convicção de que “no Alpharrabio tem”. Mas, afinal, o que tem no Alpharrabio?

Bem mais que uma livraria de livros usados e raros, a sede da editora de autores locais ou o espaço cultural em que os alphas se encontram, a casa da Eduardo Monteiro guarda, há 20 anos (já!?), como um polo de resistência cultural, a rara capacidade de fazer com que jovens artistas e outros apaixonados por arte, ao conhecerem seus pares, conheçam melhor a si próprios. Mais ou menos como naquela imagem usada por Hegel para falar do sujeito que, ao levantar o véu do objeto que pretende conhecer, desvenda nada além do que a si próprio, o que cada frequentador encontra, ao buscar o que tem no Alpharrabio, é aquilo que ele mesmo levou até lá. O Alpharrabio, mais do que fazer, é feito de alphas. E o mais incrível é que ele consiga ter sido tantos.

Atualmente, mesmo passando semanas, até meses, sem entrar no Alpharrabio, não alimento a ilusão de estar livre dos vícios-virtudes que me prendiam àquela Cracolândia desde o dia em que lá entrei buscando As Flores do Mal. Mesmo exilados, os alphas voltam ao Alpharrabio. Ou melhor: levam-no consigo.

Quando chego lá e vejo aquelas caras novas todas em meio a outras bem mais conhecidas, parece que, na verdade, elas sempre estiveram ali: com outros nomes, outros traços, outros papos. Alphas, tão diferentes na aparência e idênticos por dentro. Talvez seja este o significado de “sentir-se em casa” – lá e além. Um lugar assim é tão raro quanto indispensável. O que se diz quando “parabéns” é pouco?

96   TarsoAlpha20anos
Tarso de Melo, aos 18 anos (30.11.96 ) fala de Paulo Leminski no ciclo “Quem sabe conta” (ele sabia…) Foto: Luzia Maninha, acervo ABCs Núcleo Alpharrabio de Referência e Memória

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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2 Responses to Alpharrabio 20 Anos – O Alpha pelos alphas – I

  1. artur gomes says:

    Dalila, como bem disse Tarso, em seu magnífico texto, parabéns é pouco. fico aqui me corroendo para poder estar aí, dia 3 de março. vou sondar essa possibilidade no IFF.

    e vida longa ao Alpha por mais outro 20 e tantos anos
    um grande beijo
    artur gomes

  2. Olá Dalila: Sempre certeiro e afiado Tarso nos agita com suas palavras. Agita uma certa nostalgia dos encontros dos sábados e das longas conversas cheias de idéias e projetos. Dia 3 de março estaremos no Alpha desejando que a usina de idéias continue ativa. beijão.Jurema

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